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Home AG

VW KOMBI T3 COM MOTOR AUDI 5-CILINDROS: A OBRA-PRIMA QUE SÓ A ÁFRICA DO SUL TEVE

UM CAPÍTULO POUCO CONHECIDO DA ENGENHARIA VW: MOTORES AUDI DE CINCO-CILINDROS, SOLUÇÕES LOCAIS ENGENHOSAS E UMA GRANDE LIBERDADE DA FÁBRICA DE UITENHANGUE (HOJE KARIEGA)

Alexander Gromow por Alexander Gromow
01/12/2025
em AG, Falando de Fusca & Afins
Foto:Thomas Ruddies/AutoBild Klassik

Foto:Thomas Ruddies/AutoBild Klassik







Na matéria anterior, aqui em “Falando de Fusca & Afins”, vimos como muitos Kombis T2 e T3 na África do Sul receberam motores Chevrolet 153, uma solução que se tornou quase uma “instituição” local para lidar com a falta de potência dos motores originais.

A repercussão entre os leitores — especialmente Marcelo R. e Luiz Fernando — motivou este aprofundamento específico sobre algo ainda mais raro: os Kombis T3 Microbus equipados de fábrica com motores Audi de cinco cilindros.

Frente característica das versões de luxo do VW Kombi T3 sul-africanos, equipados com os quatro faróis circulares que distinguiam os Microbus e Caravelle (Foto:Thomas Ruddies/AutoBild Klassik)

Uma família T3 que nunca vimos no Brasil

O Volkswagen Kombi T3 nunca foi comercializado no Brasil. O nosso mercado saltou diretamente do velho conhecido T2 brasileiro para soluções próprias, enquanto na Europa o T3 conviveu com motores muitas vezes criticados pelo ruído excessivo e pelo baixo torque. A África do Sul, porém, seguiu um caminho próprio: uma engenharia ousada, soluções locais e uma rara liberdade técnica concedida pela Volkswagen matriz.

Foi nesse contexto que o Kombi T3 Microbus sul-africano ganhou um conjunto mecânico exclusivo, combinando a carroceria conhecida do T3 com três variações de motores Audi cinco-cilindros montados no cofre traseiro. Nenhum outro mercado Volkswagen recebeu algo parecido.

Foto de um raro modelo de VW Kombi T3 com motor Audi – segundo consta, um dos seis enviados da sede corporativa da VW África do Sul para o Canadá para uso dos executivos da VW Canadá, com direção do lado esquerdo, uma construção especial (Foto: bringatrailer.com/)
O volante do lado esquerdo para atender a legislação canadense. Detalhe para o tapete marcado com “Vanagon” que era como os T3 eram chamados no Canadá e nos EUA (Foto: bringatrailer.com/)
O interior do salão era bem luxuoso com quatro poltronas opostas separadas por uma mesa central (Foto: bringatrailer.com/)
Este exemplar de VW Kombi T3 com motor 2,6 Audi visto ¾  de trás, detalhe para as janelas laterais e a entrada de ar aumentadas (Foto: bringatrailer.com/)

A solução oficial: os três motores Audi

Enquanto na Alemanha o VW Kombi T3 já estava com os dias contados, em Uitenhage a Volkswagen da África do Sul decidia, em 1990, que ainda havia muito futuro para o velho conceito de motor traseira. A solução? Pegar o melhor cinco-cilindros que a Audi tinha na prateleira, virá-lo de lado no cofre do motor e criar o que muitos consideram o melhor VW Kombi T3 jumáis fabricado.

A fábrica de Uitenhage, que historicamente desfrutava de certa autonomia técnica, reconheceu que o Kombi T3 precisava de um conjunto mecânico mais moderno e confiável. Assim, ao longo dos anos 1990, surgiu a família Microbus equipada com três versões distintas de motores Audi cinco-cilindros, todos montados na traseira e adaptados às particularidades do projeto.

Outro exemplo de Microbus com motor Audi visto de lado (Foto:Thomas Ruddies/AutoBild Klassic)

Kombi T3 Microbus 2.3i – 122 cv – 160 km/h

Foi o primeiro passo dessa evolução. O 2.3i entregava um funcionamento muito mais suave e refinado do que qualquer motor oferecido nos T3 europeus. Com 122 cv e velocidade máxima declarada de 160 km/h, já colocava o Kombi em outro patamar de uso rodoviário.

Kombi T3 Microbus 2.5i – 136 cv – 164 km/h

A versão 2.5i surgiu como uma etapa intermediária da evolução. Com 136 cv e velocidade máxima de 164 km/h, oferecia mais torque e melhor capacidade de retomada, tornando o Microbus um veículo perfeitamente apto a enfrentar longas viagens em boas estradas. Para muitos usuários, essa configuração já representava o equilíbrio ideal entre desempenho e robustez.

Kombi T3 Microbus 2.6i ADV – 136 cv – 170 km/h

O Microbus 2.6i com código ADV foi a obra-prima final. Mesmo mantendo os mesmos 136 cv do 2.5i, a injeção eletrônica Bosch Motronic, o torque mais cheio desde 3.000 rpm e um diferencial ligeiramente mais longo permitiam que o Microbus atingisse oficiais 170 km/h – algo impensável para qualquer outro VW Kombi T3 de fábrica no planeta. Mais do que velocidade pura, o que impressionava era a capacidade de cruzeiro a 120–130 km/h em estradas sul-africanas com 9 a 12 ocupantes e bagagem, sem o motor soar estressado.

Segue uma tabela com as características técnicas das três versões de motores utilizadas nos VW Kombis T3 da África do Sul:

Característica 2.3i (AFU, 1991-1995) 2.5i (AAY, 1991-1999) 2.6i (ADV, 1995-2002)
Cilindrada 2.237 cm³ 2.500 cm³ 2.592 cm³
Potência 122 cv a 5.000 rpm 136 cv a 5.000 rpm 136 cv a 5.200 rpm
Torque 19,4 m·kgf a 3.000 rpm 20,4 m·kgf a 3.500 rpm 20,4 m·kgf a 3.000 rpm
Injeção/Combustível K-Jetronic (mecânica)/Gasolina K-Jetronic (mecânica)/Gasolina Motronic (eletrônica)/Gasolina
Transmissão 5 marchas manual 5 marchas manual 5 marchas manual (raro 4-marchas em protótipos)
Aceleração 0-80 km/h ~11 s 9,2 s ~9,5 s
Velocidade máxima. 160 km/h 164 km/h 170 km/h
Consumo (médio) ~8-10 km/l (rodoviário) ~9 km/l (misto) ~10 km/l (rodoviário)
Dimensões Gerais Compr.: 4,70 m; Larg.: 1,90 m; Alt.: 2,00 m; Entre-eixos: 2,40 m; Peso: ~1.800 kg Mesmas ao lado; piso traseiro elevado p/ motor maior, reduz bagageiro mas adiciona nichos. Mesmo chassi tração traseira padrão  
Notas/Features Únicos Básico para Microbus; freios a disco ventilados frente; suspensão independente 4 rodas; capacidade 9-12 pass. Big Window (janelas maiores pós-cokuna B). Equilibrada; ronco clássico 5-cil; A/C opcional; direção hidráulica; rodas de liga; edições como “Activ” c/ geladeira e mesa. Top: Exclusiv/Activ c/ bancos traseiros frente à frente, freios maiores ventilados; grade/faróis únicos SA; painel acolchoado; ventilação por botões; durabilidade >500 mil km c/ manutenção. Última T3 em 2002.

 Muitas unidades tiveram a injeção K-Jetronic substituída por sistemas eletrônicos (Motronic ou aftermarket) ao longo dos anos, o que gera confusão em anúncios e fóruns até hoje.

Consumo, ruído e agradabilidde

Naturalmente, essa performance tinha um preço na bomba de gasolina ao reabastecer. Proprietários mais entusiasmados relatam consumo ainda maior quando se aproveitava todo o potencial do cinco-cilindros.

Para acomodar o cinco-cilindros Audi, o assoalho do cofre do motor foi elevado, solução exclusiva dos Microbus produzidos na África do Sul (Foto:Thomas Ruddies/AutoBild Klassik)
Nesta foto é possível ver o quanto o assoalho de cofre do motor foi elevado (Foto: Ksy86/bulliforum.com)

Por outro lado, o ganho em silêncio de funcionamento e em conforto ao volante era evidente. Comparado aos motores a gasolina convencionais ou aos motores Diesel superecarregados usados em T3 europeus, o conjunto Audi transformava o Kombi em um veículo muito mais civilizado, adequado a longos percursos em estradas abertas.

Design externo e interno

Externamente o Microbus sul-africano com motor Audi é fácil de identificar por um conjunto de detalhes: a frente com faróis duplos circulares, as janelas laterais ampliadas, as tomadas de ar traseiras redesenhadas e, claro, o volante do lado direito, com a porta corrediça localizada no lado esquerdo. Esses elementos, somados ao cofre de motor elevado, criam uma silhueta inconfundível para quem conhece a família T3.

Por dentro a Volkswagen África do Sul oferecia configurações com três ou quatro fileiras de bancos, transformando o Microbus em um verdadeiro mini ônibus. Não por acaso, muitos deles foram utilizados como transporte escolar em áreas rurais, onde a combinação de capacidade de passageiros e robustez mecânica era essencial.

Preço, raridade e dificuldades de importação

Em 1995, um Kombi T3 Microbus 2.6i custava 108.473 rands (moeda da África do Sul) — algo em torno de US$ 30.000 ao câmbio da época (vale lembrar que o euro ainda não existia). Embora não fosse um veículo de luxo absoluto, esse valor o colocava claramente no patamar superior do mercado sul-africano, coerente com sua robustez, seu motor Audi de cinco cilindros e o bom nível técnico característico dos modelos produzidos em Uitenhage.

Com o passar dos anos, porém, a combinação de uso intenso, clima severo e pouca preocupação em preservar tais veículos como futuros clássicos fez com que os exemplares sobreviventes se tornassem cada vez mais raros.

Hoje, exemplares bem-conservados alcançam valores muito superiores e, mesmo para colecionadores dispostos a pagar o preço, há outro obstáculo: a burocracia. Exportar um Microbus da África do Sul pode ser um processo caro e demorado, o que ajuda a explicar por que tão poucos deixaram o país rumo à Europa ou a outros continentes.

Um capítulo único na história da Volkswagen

Assim, o Kombi T3 Microbus sul-africano com motores Audi cinco-cilindros ocupa um lugar singular na história da marca. É um veículo criado longe dos olhos da matriz, atendendo a necessidades locais e incorporando soluções técnicas que jamais apareceram em nenhum outro T3. Graças ao interesse e às perguntas dos leitores, esse capítulo fascinante passa agora a integrar o acervo de histórias preservadas por esta coluna “Falando de Fusca & Afins”.

Enquanto o resto do mundo aposentava o VW Kombi. T3, a África do Sul lhe deu um coração Audi e o transformou no mais rápido, silencioso e durável de todos os tempos. Um capítulo que quase ninguém conhecia – até hoje.

AG

Um agradecimento especial ao amigo Fernando Fuhrken, que já contribuiu com matérias aqui na coluna e ao amigo dele Christian Heinemann, que atualmente mora na Alemanha. O Christian – que é fã das T3, acionado pelo Fernando, me enviou material que permitiu o início das pesquisas para a matéria sobre um assunto que tem muito poucas informações na Internet. Meu grande obrigado aos dois!
Para esta matéria fora feitas pesquisas em inúmeros sites, em especial no site www.autobild.de/klassik/ com o trabalho de Lars Hänsch-Petersen.
NOTA: Nossos leitores são convidados a dar o seu parecer, fazer suas perguntas, sugerir material e, eventualmente, correções, etc. que poderão ser incluídos em eventual revisão deste trabalho.
Em alguns casos material pesquisado na internet, portanto geralmente de domínio público, é utilizado neste trabalho com fins históricos/didáticos em conformidade com o espírito de preservação histórica que norteia este trabalho. No entanto, caso alguém se apresente como proprietário do material, independentemente de ter sido citado nos créditos ou não, e, mesmo tendo colocado à disposição num meio público, queira que créditos específicos sejam dados ou até mesmo que tal material seja retirado, solicitamos entrar em contato pelo e-mail alexander.gromow@autoentusiastas.com.br para que sejam tomadas as providências cabíveis. Não há nenhum intuito de infringir direitos ou auferir quaisquer lucros com este trabalho que não seja a função de registro histórico e sua divulgação aos interessados.
A coluna “Falando de Fusca & Afins” é de exclusiva responsabilidade do seu autor.

 







Tags: AudiKombi T1Kombi T3Kpmbi T2VolksesgenVW South AfricamVE África do Sul. Kombi
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Foto: stroebelautomotive.com

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