Na matéria anterior, aqui em “Falando de Fusca & Afins”, vimos como muitos Kombis T2 e T3 na África do Sul receberam motores Chevrolet 153, uma solução que se tornou quase uma “instituição” local para lidar com a falta de potência dos motores originais.
A repercussão entre os leitores — especialmente Marcelo R. e Luiz Fernando — motivou este aprofundamento específico sobre algo ainda mais raro: os Kombis T3 Microbus equipados de fábrica com motores Audi de cinco cilindros.

Uma família T3 que nunca vimos no Brasil
O Volkswagen Kombi T3 nunca foi comercializado no Brasil. O nosso mercado saltou diretamente do velho conhecido T2 brasileiro para soluções próprias, enquanto na Europa o T3 conviveu com motores muitas vezes criticados pelo ruído excessivo e pelo baixo torque. A África do Sul, porém, seguiu um caminho próprio: uma engenharia ousada, soluções locais e uma rara liberdade técnica concedida pela Volkswagen matriz.
Foi nesse contexto que o Kombi T3 Microbus sul-africano ganhou um conjunto mecânico exclusivo, combinando a carroceria conhecida do T3 com três variações de motores Audi cinco-cilindros montados no cofre traseiro. Nenhum outro mercado Volkswagen recebeu algo parecido.




A solução oficial: os três motores Audi
Enquanto na Alemanha o VW Kombi T3 já estava com os dias contados, em Uitenhage a Volkswagen da África do Sul decidia, em 1990, que ainda havia muito futuro para o velho conceito de motor traseira. A solução? Pegar o melhor cinco-cilindros que a Audi tinha na prateleira, virá-lo de lado no cofre do motor e criar o que muitos consideram o melhor VW Kombi T3 jumáis fabricado.
A fábrica de Uitenhage, que historicamente desfrutava de certa autonomia técnica, reconheceu que o Kombi T3 precisava de um conjunto mecânico mais moderno e confiável. Assim, ao longo dos anos 1990, surgiu a família Microbus equipada com três versões distintas de motores Audi cinco-cilindros, todos montados na traseira e adaptados às particularidades do projeto.

Kombi T3 Microbus 2.3i – 122 cv – 160 km/h
Foi o primeiro passo dessa evolução. O 2.3i entregava um funcionamento muito mais suave e refinado do que qualquer motor oferecido nos T3 europeus. Com 122 cv e velocidade máxima declarada de 160 km/h, já colocava o Kombi em outro patamar de uso rodoviário.
Kombi T3 Microbus 2.5i – 136 cv – 164 km/h
A versão 2.5i surgiu como uma etapa intermediária da evolução. Com 136 cv e velocidade máxima de 164 km/h, oferecia mais torque e melhor capacidade de retomada, tornando o Microbus um veículo perfeitamente apto a enfrentar longas viagens em boas estradas. Para muitos usuários, essa configuração já representava o equilíbrio ideal entre desempenho e robustez.
Kombi T3 Microbus 2.6i ADV – 136 cv – 170 km/h
O Microbus 2.6i com código ADV foi a obra-prima final. Mesmo mantendo os mesmos 136 cv do 2.5i, a injeção eletrônica Bosch Motronic, o torque mais cheio desde 3.000 rpm e um diferencial ligeiramente mais longo permitiam que o Microbus atingisse oficiais 170 km/h – algo impensável para qualquer outro VW Kombi T3 de fábrica no planeta. Mais do que velocidade pura, o que impressionava era a capacidade de cruzeiro a 120–130 km/h em estradas sul-africanas com 9 a 12 ocupantes e bagagem, sem o motor soar estressado.
Segue uma tabela com as características técnicas das três versões de motores utilizadas nos VW Kombis T3 da África do Sul:
| Característica | 2.3i (AFU, 1991-1995) | 2.5i (AAY, 1991-1999) | 2.6i (ADV, 1995-2002) |
| Cilindrada | 2.237 cm³ | 2.500 cm³ | 2.592 cm³ |
| Potência | 122 cv a 5.000 rpm | 136 cv a 5.000 rpm | 136 cv a 5.200 rpm |
| Torque | 19,4 m·kgf a 3.000 rpm | 20,4 m·kgf a 3.500 rpm | 20,4 m·kgf a 3.000 rpm |
| Injeção/Combustível | K-Jetronic (mecânica)/Gasolina | K-Jetronic (mecânica)/Gasolina | Motronic (eletrônica)/Gasolina |
| Transmissão | 5 marchas manual | 5 marchas manual | 5 marchas manual (raro 4-marchas em protótipos) |
| Aceleração 0-80 km/h | ~11 s | 9,2 s | ~9,5 s |
| Velocidade máxima. | 160 km/h | 164 km/h | 170 km/h |
| Consumo (médio) | ~8-10 km/l (rodoviário) | ~9 km/l (misto) | ~10 km/l (rodoviário) |
| Dimensões Gerais | Compr.: 4,70 m; Larg.: 1,90 m; Alt.: 2,00 m; Entre-eixos: 2,40 m; Peso: ~1.800 kg | Mesmas ao lado; piso traseiro elevado p/ motor maior, reduz bagageiro mas adiciona nichos. | Mesmo chassi tração traseira padrão |
| Notas/Features Únicos | Básico para Microbus; freios a disco ventilados frente; suspensão independente 4 rodas; capacidade 9-12 pass. Big Window (janelas maiores pós-cokuna B). | Equilibrada; ronco clássico 5-cil; A/C opcional; direção hidráulica; rodas de liga; edições como “Activ” c/ geladeira e mesa. | Top: Exclusiv/Activ c/ bancos traseiros frente à frente, freios maiores ventilados; grade/faróis únicos SA; painel acolchoado; ventilação por botões; durabilidade >500 mil km c/ manutenção. Última T3 em 2002. |
Muitas unidades tiveram a injeção K-Jetronic substituída por sistemas eletrônicos (Motronic ou aftermarket) ao longo dos anos, o que gera confusão em anúncios e fóruns até hoje.
Consumo, ruído e agradabilidde
Naturalmente, essa performance tinha um preço na bomba de gasolina ao reabastecer. Proprietários mais entusiasmados relatam consumo ainda maior quando se aproveitava todo o potencial do cinco-cilindros.


Por outro lado, o ganho em silêncio de funcionamento e em conforto ao volante era evidente. Comparado aos motores a gasolina convencionais ou aos motores Diesel superecarregados usados em T3 europeus, o conjunto Audi transformava o Kombi em um veículo muito mais civilizado, adequado a longos percursos em estradas abertas.
Design externo e interno
Externamente o Microbus sul-africano com motor Audi é fácil de identificar por um conjunto de detalhes: a frente com faróis duplos circulares, as janelas laterais ampliadas, as tomadas de ar traseiras redesenhadas e, claro, o volante do lado direito, com a porta corrediça localizada no lado esquerdo. Esses elementos, somados ao cofre de motor elevado, criam uma silhueta inconfundível para quem conhece a família T3.
Por dentro a Volkswagen África do Sul oferecia configurações com três ou quatro fileiras de bancos, transformando o Microbus em um verdadeiro mini ônibus. Não por acaso, muitos deles foram utilizados como transporte escolar em áreas rurais, onde a combinação de capacidade de passageiros e robustez mecânica era essencial.
Preço, raridade e dificuldades de importação
Em 1995, um Kombi T3 Microbus 2.6i custava 108.473 rands (moeda da África do Sul) — algo em torno de US$ 30.000 ao câmbio da época (vale lembrar que o euro ainda não existia). Embora não fosse um veículo de luxo absoluto, esse valor o colocava claramente no patamar superior do mercado sul-africano, coerente com sua robustez, seu motor Audi de cinco cilindros e o bom nível técnico característico dos modelos produzidos em Uitenhage.
Com o passar dos anos, porém, a combinação de uso intenso, clima severo e pouca preocupação em preservar tais veículos como futuros clássicos fez com que os exemplares sobreviventes se tornassem cada vez mais raros.
Hoje, exemplares bem-conservados alcançam valores muito superiores e, mesmo para colecionadores dispostos a pagar o preço, há outro obstáculo: a burocracia. Exportar um Microbus da África do Sul pode ser um processo caro e demorado, o que ajuda a explicar por que tão poucos deixaram o país rumo à Europa ou a outros continentes.
Um capítulo único na história da Volkswagen
Assim, o Kombi T3 Microbus sul-africano com motores Audi cinco-cilindros ocupa um lugar singular na história da marca. É um veículo criado longe dos olhos da matriz, atendendo a necessidades locais e incorporando soluções técnicas que jamais apareceram em nenhum outro T3. Graças ao interesse e às perguntas dos leitores, esse capítulo fascinante passa agora a integrar o acervo de histórias preservadas por esta coluna “Falando de Fusca & Afins”.
Enquanto o resto do mundo aposentava o VW Kombi. T3, a África do Sul lhe deu um coração Audi e o transformou no mais rápido, silencioso e durável de todos os tempos. Um capítulo que quase ninguém conhecia – até hoje.
AG
Um agradecimento especial ao amigo Fernando Fuhrken, que já contribuiu com matérias aqui na coluna e ao amigo dele Christian Heinemann, que atualmente mora na Alemanha. O Christian – que é fã das T3, acionado pelo Fernando, me enviou material que permitiu o início das pesquisas para a matéria sobre um assunto que tem muito poucas informações na Internet. Meu grande obrigado aos dois!
Para esta matéria fora feitas pesquisas em inúmeros sites, em especial no site www.autobild.de/klassik/ com o trabalho de Lars Hänsch-Petersen.
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