Volta e meia me faço essa pergunta. A resposta que me vem à cabeça é que continuaríamos a ter opção de carros a álcool mas com motores projetados para funcionarem exclusivamente com esse combustível de modo a aproveitarem plenamente a propriedade antidetonante do álcool em vez de mera adaptação de motores a gasolina, como é hoje.
O resultado seria o óbvio ganho expressivo de potência e torque e consumo praticamente igual ao de motores a gasolina equivalentes. Só vantagens. Primeiro é que existe álcool em tudo que é posto e, segundo, o custo do quilômetro rodado, com álcool, seria bem menor do que o de um carro flex. Desnecessário dizer o quanto isso é interessante e atraente.
“Mas não teria a alternativa de combustível como o flex”, argumentariam alguns. Eu responderia para que alternativa? Tive um Fiat 147 ’81 a álcool e o fato de só poder usar um combustível nunca foi preocupação. Aliás de ninguém em 23 anos de carros a álcool. O mesmo para quem tem carro a gasolina importado ou a diesel. Ou para os milhões de donos de carros a gasolina que rodam pelo Brasil. A escolha do tipo de gasolina — comum, comum aditivada ou premium.
Esse novo motor a álcool específico para esse combustível já existe em algum canto de uma fabricante das grandes. É uma pena que ela não o lancem. Seria ótimo. Não precisaria do filtro de carvão ativado (cânister), muito menos os novos e volumosos dos carros produzidos a partir de janeiro de 2025 para recolher vapor de gasolina durante o abastecimento, como o mostrado no teste de 30 dias do Renault Kardian. O calor latente de vaporização do álcool é elevadíssimo, ele não evapora como a gasolina, daí a conhecida dificuldade de partida a frio estando a temperatura ambiente abaixo de 18º C , o que requer auxílio de gasolina, aquecimento do álcool ou a dispendiosa injeção direta.
Um detalhe importante é mesmo sendo um motor a álcool, a tecnologia atual poder fazê-lo funcionar em modo emergencial com gasolina numa eventual falta de álcool mediante ajuste automático da mistura ar-combustível e do avanço de ignição. A potência diminui ligeiramente, mas nunca se ficará parado por não encontrar álcool.
O flex americano
Foi exatamente esse conceito que norteou os americanos quando criaram o carro flexível em combustível em 1993. Como os EUA estavam dependentes demais do petróleo do Oriente Médio, uma região politicamente instável — já havia chegado 50% das necessidades deles, uma questão de segurança nacional — decidiram criar uma alternativa à gasolina, o álcool etílico (etanol, ethanol em inglês) de milho, produto agrícola abundante lá. Foi criada uma coalizão com agricultores do Meio-Oeste com incentivos para elevar o plantio do milho e a produção de álcool (Coalition for Ethanol).
Motivo para o advento do carro flex aqui? Poder voltar a vender um combustível que ninguém queira mais por desconfiança. Bem diferente.
Paralelamente, a indústria automobilística americana desenvolveu rapidamente carros flex, uma vez que era impensável carros a álcool somente caso o motorista não achasse posto que vendesse álcool.
E nisso foram inteligentes: o álcool conteria 15% de gasolina para não haver problemas de partida a frio. Esse combustível é o E85 de que tanto falamos no AE. Nós, brasileiros, não tivemos a mesma inteligência e nasceu o E100, o álcool puro, com os mais do que conhecidos problemas de partida a frio.
É ficar na torcida para algum fabricante daqui “redescobrir” o carro a álcool. Garanto que seria um sucesso.
BS
A coluna “O editor-chefe fala” é de exclusiva responsabilidade do seu autor.




