Poucos automóveis no mundo tiveram uma trajetória tão longa, versátil e surpreendente quanto o VW Fusca, figura familiar para gerações de motoristas. Mas mesmo quem acha que já viu de tudo envolvendo o pequeno besouro, talvez ainda ignore um capítulo pouco explorado — e surpreendentemente, oficial — da história mexicana: as Vochonetas, versões utilitárias do VW Sedan transformadas em pequenos furgões urbanos e homologadas pela própria Volkswagen de México.
Essas adaptações nasceram de uma combinação única de fatores: criatividade local, necessidade comercial e um contexto econômico que obrigou o México a desenvolver soluções próprias. O resultado foi um veículo tão prático quanto carismático, que hoje se tornou peça de culto entre entusiastas.
Um país fechado e a criatividade aberta
Entre as décadas de 1970 e 1990, o México viveu um longo período de bloqueio de importações automobilisticas. As fronteiras fechadas impediram a entrada de veículos estrangeiros e forçaram a indústria local a se reinventar. Nesse cenário, o VW Sedán — o “Vocho” — tornou?se o carro nacional por excelência. Com a economia protegida e a frota baseada quase exclusivamente em modelos produzidos localmente, empresas mexicanas passaram a buscar soluções criativas para suas necessidades logísticas. O VW Kombi era grande demais para entregas rápidas. O VW Fusca, pequeno demais para cargas. A resposta veio de forma engenhosa: transformar o Vocho em um utilitário compacto.
O nascimento das Vochonetas
Do passado vinha a referência de um experimento pouco conhecido da própria Volkswagen: o VW Typ 83 Kastenwagen (furgão), produzido em pequena escala entre 1939 e 1943, em plena Segunda Guerra Mundial. Usado pela Wehrmacht (exército), pelo Reichspost (correios) e em versão ambulância, ele demonstrava que a ideia de transformar o VW Fusca num veículo de carga fechado já havia sido explorada décadas antes — ainda que num contexto histórico e técnico completamente distinto.
Não se tratava de uma linha evolutiva direta, mas de um antecedente conceitual: a prova de que a arquitetura do Fusca permitia soluções utilitárias além do automóvel de passeio. Foi essa mesma lógica, e não um projeto herdado, que o México redescobriria muitos anos depois ao criar as Vochonetas.

Foi nos anos 1990 que o conceito ganhou força e padronização. A conversão consistia em cortar o carro atrás das portas, prolongar o teto com uma estrutura de plástico reforçado com fibra de vidro, eliminar o banco traseiro e instalar um piso plano, criando um compartimento de carga com capacidade estimada na prática em torno de 300 kg, tudo isso mantendo a aerodinâmica e a eficiência do motor.

As estruturas eram produzidas pela empresa Automotriz Seguí, que mais tarde evoluiria para a Seguiauto, fundada oficialmente em 1991.

A qualidade das conversões era tão alta que chamou a atenção da própria Volkswagen de México.

A homologação oficial da Volkswagen
Num movimento raro na indústria, a Volkswagen reconheceu formalmente a excelência das Vochonetas produzidas pela Seguí/Seguiauto, permitindo que os veículos mantivessem a garantia original de fábrica mesmo após a conversão. Esta empresa recebia os Vochos para transformação diretamente de Puebla, o que demonstra o alto nível de trabalho conjunto com a Volkswagen.
Essa colaboração estratégica transformou as Vochonetas num produto sem paralelo: um utilitário artesanal, porém oficialmente aceito pela fábrica.
Mais do que relatos de terceiros, essa integração eu pude constatar pessoalmente: numa de minhas viagens ao México na década de 1990. Visitei uma concessionária para conhecer o Vocho com motor com injeção Digifant. Naquela concessionária também estava exposta uma Vochoneta que era vendida com garantia Volkswagen de fábrica. Eu fiquei encantado com aquela solução para transformar o Fusca num minifurgão.
O auge comercial: o México dos anos 90
Durante a década de 1990, as Vochonetas tornaram-se presença constante nas ruas mexicanas. Grandes empresas também as usaram e estas minivans “desfilavam” ostentando marcas como Coca-Cola, Pepsi e Marlboro.

As Vochonetas foram adotadas para entregas rápidas, recebimento de pagamentos, coleta de pedidos e serviços urbanos de baixa carga. Graças à homologação da VW, as Vochonetas podiam circular em vias rápidas sem restrições, algo essencial para operações comerciais.

O declínio e o renascimento
O programa ambiental “Hoy No Circula”¹ (Hoje Não Circula), que restringiu a circulação de veículos com mais de oito anos de uso mum dia da semana por vez, decretou o fim do uso corporativo das Vochonetas.

As empresas as abandonaram, e muitas acabaram sucateadas. Mas, como sempre acontece com o VW Fusca, a paixão falou mais alto. Entusiastas como Emmanuel Ducoing começaram a resgatar e restaurar essas pequenas joias utilitárias. Hoje, Emmanuel mantém uma frota de Vochonetas em seu negócio Hochos y Vochos (Cachorros-quentes e Vochos)– como o exemplar da foto de abertura.

Além de restaurar outras para clientes, ele também personaliza suas unidades com motores maiores equipados com dois carburadores Weber, suspensões a ar, rebaixamento e grafismos comerciais — afinal, como ele diz, “são uma grande tela para divulgar qualquer negócio”.
Por que elas encantam tanto?
As Vochonetas são um paradoxo delicioso: utilitárias, mas simpáticas; práticas, mas carismáticas. Na rua, chamam atenção instantaneamente. As pessoas pedem fotos, fazem perguntas, sorriem. É como se o Vocho, já naturalmente cativante, tivesse ganhado uma nova personalidade. E, acima de tudo, são raras — muito raras mesmo. Cada unidade restaurada é um pedaço vivo da história automobilística mexicana.
Um capítulo latino-americano que merece ser contado
Com o grau de padronização, aceitação comercial e reconhecimento oficial das Vochonetas mexicanas, elas representam a inventividade latino-americana, a versatilidade infinita do Vocho e a capacidade de um carro simples se reinventar para atender às necessidades de cada país. Graças a entusiastas como Emmanuel Ducoing — e agora também graças a este registro — esse capítulo deixa de ser apenas memória oral e passa a integrar a história documentada do automóvel.
(1) – O Rigor do “Hoy No Circula” mexicano
Para o leitor brasileiro, o termo “rodízio” pode parecer brando. No entanto, no México, o programa implementado no final dos anos 1980 visava combater os níveis alarmantes de poluição na capital, acentuada pela localização da Ciudad de Mexico, a 2.240 metros de altiude. Para veículos sem catalisador ou com mais de oito anos de uso (caso de todas as Vochonetas da época), a restrição era total: o veículo não podia circular das 5h às 22h no seu dia de rodízio, além de sofrer restrições em fins de semana. Para uma empresa de entregas, ter um veículo parado o dia inteiro era economicamente inviável, o que causou o descarte em massa desses utilitários.
Para mim foi muito interessante resgatar o material que Emmanuel Ducoing havia enviado um bom tempo atrás, e eu o agradeço por esta valiosa participação neste trabalho. Este artigo reconhece o que ele fez na preservação das Vochonetas mexicanas. As fotos desta matéria, a não ser as identificadas de outra forma, foram enviadas por ele.
AG
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