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Home AG

“VOCHONETA”: O VW FUSCA QUE VIROU FURGÃO NO MÉXICO

A ADAPTAÇÃO MEXICANA HOMOLOGADA PELA VOLKSWAGEN QUE TRANSFORMOU O VOCHO NUM UTILITÁRIO URBANO OFICIAL

Alexander Gromow por Alexander Gromow
26/01/2026
em AG, Falando de Fusca & Afins
Foto: Emmanuel Ducoing

Foto: Emmanuel Ducoing







Poucos automóveis no mundo tiveram uma trajetória tão longa, versátil e surpreendente quanto o VW Fusca, figura familiar para gerações de motoristas. Mas mesmo quem acha que já viu de tudo envolvendo o pequeno besouro, talvez ainda ignore um capítulo pouco explorado — e surpreendentemente, oficial — da história mexicana: as Vochonetas, versões utilitárias do VW Sedan transformadas em pequenos furgões urbanos e homologadas pela própria Volkswagen de México.

Essas adaptações nasceram de uma combinação única de fatores: criatividade local, necessidade comercial e um contexto econômico que obrigou o México a desenvolver soluções próprias. O resultado foi um veículo tão prático quanto carismático, que hoje se tornou peça de culto entre entusiastas.

Um país fechado e a criatividade aberta

Entre as décadas de 1970 e 1990, o México viveu um longo período de bloqueio de importações automobilisticas. As fronteiras fechadas impediram a entrada de veículos estrangeiros e forçaram a indústria local a se reinventar. Nesse cenário, o VW Sedán — o “Vocho” — tornou?se o carro nacional por excelência. Com a economia protegida e a frota baseada quase exclusivamente em modelos produzidos localmente, empresas mexicanas passaram a buscar soluções criativas para suas necessidades logísticas. O VW Kombi era grande demais para entregas rápidas. O VW Fusca, pequeno demais para cargas. A resposta veio de forma engenhosa: transformar o Vocho em um utilitário compacto.

O nascimento das Vochonetas

Do passado vinha a referência de um experimento pouco conhecido da própria Volkswagen: o VW Typ 83 Kastenwagen (furgão), produzido em pequena escala entre 1939 e 1943, em plena Segunda Guerra Mundial. Usado pela Wehrmacht (exército), pelo Reichspost (correios) e em versão ambulância, ele demonstrava que a ideia de transformar o VW Fusca num veículo de carga fechado já havia sido explorada décadas antes — ainda que num contexto histórico e técnico completamente distinto.

Não se tratava de uma linha evolutiva direta, mas de um antecedente conceitual: a prova de que a arquitetura do Fusca permitia soluções utilitárias além do automóvel de passeio. Foi essa mesma lógica, e não um projeto herdado, que o México redescobriria muitos anos depois ao criar as Vochonetas.

Um Typ 83 Kastenwagen no caso para uso dos correios. Nota-se o uso de chassi de Kübelwagen pela distância ao solo (Foto: acervo Volkswagen AG)

Foi nos anos 1990 que o conceito ganhou força e padronização. A conversão consistia em cortar o carro atrás das portas, prolongar o teto com uma estrutura de plástico reforçado com fibra de vidro, eliminar o banco traseiro e instalar um piso plano, criando um compartimento de carga com capacidade estimada na prática em torno de 300 kg, tudo isso mantendo a aerodinâmica e a eficiência do motor.

Nesta foto, Emmanuel Ducoing – nosso contato no México, mostra como o teto do Vocho era cortado para receber a caçamba que o transformaria em Vochoneta, numa transformação caseira – eram vendidas estruturas avulsas também

As estruturas eram produzidas pela empresa Automotriz Seguí, que mais tarde evoluiria para a Seguiauto, fundada oficialmente em 1991.

Estruturas em produção na fábrica da Automotriz Seguí (Fotograma do vídeo “Seguiauto y La Vochoneta Innovación Mexicana La Conocias)

A qualidade das conversões era tão alta que chamou a atenção da própria Volkswagen de México.

Esta é a Vochoneta da foto de abertura vista do outro lado – um exemplar restaurado, em pleno trabalho vendendo cachorros-quentes e refrigerantes num encontro de Vochos

A homologação oficial da Volkswagen

Num movimento raro na indústria, a Volkswagen reconheceu formalmente a excelência das Vochonetas produzidas pela Seguí/Seguiauto, permitindo que os veículos mantivessem a garantia original de fábrica mesmo após a conversão. Esta empresa recebia os Vochos para transformação diretamente de Puebla, o que demonstra o alto nível de trabalho conjunto com a Volkswagen.

Essa colaboração estratégica transformou as Vochonetas num produto sem paralelo: um utilitário artesanal, porém oficialmente aceito pela fábrica.

Mais do que relatos de terceiros, essa integração eu pude constatar pessoalmente: numa de minhas viagens ao México na década de 1990. Visitei uma concessionária para conhecer o Vocho com motor com injeção Digifant. Naquela concessionária também estava exposta uma Vochoneta que era vendida com garantia Volkswagen de fábrica. Eu fiquei encantado com aquela solução para transformar o Fusca num minifurgão.

O auge comercial: o México dos anos 90

Durante a década de 1990, as Vochonetas tornaram-se presença constante nas ruas mexicanas. Grandes empresas também as usaram e estas minivans “desfilavam” ostentando marcas como Coca-Cola, Pepsi e Marlboro.

Uma Vochoneta ostentando a pintura da Marlboro (Fotograma do vídeo “Seguiauto y La Vochoneta Innovacioión Mexicana La Conocias)

As Vochonetas foram adotadas para entregas rápidas, recebimento de pagamentos, coleta de pedidos e serviços urbanos de baixa carga. Graças à homologação da VW, as Vochonetas podiam circular em vias rápidas sem restrições, algo essencial para operações comerciais.

No auge da produção, um caminhão transportando Vochonetas prontas para os pontos de venda (Foto: André Osterhoff/Facebook)

O declínio e o renascimento

O programa ambiental “Hoy No Circula”¹ (Hoje Não Circula), que restringiu a circulação de veículos com mais de oito anos de uso mum dia da semana por vez, decretou o fim do uso corporativo das Vochonetas.

Uma Vochoneta vista de trás

As empresas as abandonaram, e muitas acabaram sucateadas. Mas, como sempre acontece com o VW Fusca, a paixão falou mais alto. Entusiastas como Emmanuel Ducoing começaram a resgatar e restaurar essas pequenas joias utilitárias. Hoje, Emmanuel mantém uma frota de Vochonetas em seu negócio Hochos y Vochos (Cachorros-quentes e Vochos)– como o exemplar da foto de abertura.

Uma Vochoneta em processo de restauração

Além de restaurar outras para clientes, ele também personaliza suas unidades com motores maiores equipados com dois carburadores Weber, suspensões a ar, rebaixamento e grafismos comerciais — afinal, como ele diz, “são uma grande tela para divulgar qualquer negócio”.

Por que elas encantam tanto?

As Vochonetas são um paradoxo delicioso: utilitárias, mas simpáticas; práticas, mas carismáticas. Na rua, chamam atenção instantaneamente. As pessoas pedem fotos, fazem perguntas, sorriem. É como se o Vocho, já naturalmente cativante, tivesse ganhado uma nova personalidade. E, acima de tudo, são raras — muito raras mesmo. Cada unidade restaurada é um pedaço vivo da história automobilística mexicana.

Um capítulo latino-americano que merece ser contado

Com o grau de padronização, aceitação comercial e reconhecimento oficial das Vochonetas mexicanas, elas representam a inventividade latino-americana, a versatilidade infinita do Vocho e a capacidade de um carro simples se reinventar para atender às necessidades de cada país. Graças a entusiastas como Emmanuel Ducoing — e agora também graças a este registro — esse capítulo deixa de ser apenas memória oral e passa a integrar a história documentada do automóvel.


(1) – O Rigor do “Hoy No Circula” mexicano
Para o leitor brasileiro, o termo “rodízio” pode parecer brando. No entanto, no México, o programa implementado no final dos anos 1980 visava combater os níveis alarmantes de poluição na capital, acentuada pela localização da Ciudad de Mexico, a 2.240 metros de altiude. Para veículos sem catalisador ou com mais de oito anos de uso (caso de todas as Vochonetas da época), a restrição era total: o veículo não podia circular das 5h às 22h no seu dia de rodízio, além de sofrer restrições em fins de semana. Para uma empresa de entregas, ter um veículo parado o dia inteiro era economicamente inviável, o que causou o descarte em massa desses utilitários.


Para mim foi muito interessante resgatar o material que Emmanuel Ducoing havia enviado um bom tempo atrás, e eu o agradeço por esta valiosa participação neste trabalho. Este artigo reconhece o que ele fez na preservação das Vochonetas mexicanas. As fotos desta matéria, a não ser as identificadas de outra forma, foram enviadas por ele.

AG

Nossos leitores são convidados a dar seu parecer, fazer perguntas, sugerir material e, eventualmente, apontar correções, as quais poderão ser consideradas e incorporadas em futuras revisões deste trabalho.
Em alguns casos, são utilizados materiais pesquisados na Internet e amplamente disponibilizados em meios públicos, empregados exclusivamente com finalidades históricas, culturais e didáticas, em consonância com o espírito de preservação histórica que norteia este trabalho.
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Ressaltamos que não há qualquer intenção de infringir direitos autorais, tampouco de auferir ganhos comerciais com o material apresentado, sendo sua utilização restrita ao registro histórico e à divulgação cultural junto a entusiastas e interessados no tema.
A coluna “Falando de Fusca & Afins” é de exclusiva responsabilidade do seu autor.

 







Tags: Alexander GromowEmmanuel DucoingFalando de Fusca & AfinsFuscaVochoVochoneta
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