Muitos entusiastas e historiadores do automóvel acreditam piamente que o nome “Fusca” é uma exclusividade do nosso querido “Besouro”. Existe uma crença comum de que o termo nasceu de um vácuo linguístico, criado apenas para rotular o Volkswagen Sedan no Brasil. Mas a verdade é muito mais rica e, curiosamente, ligada à alma debochada do brasileiro.
Nota aos leitores estrangeiros
O Volkswagen Sedan é conhecido mundialmente como Beetle, Käfer, Coccinelle ou outras variantes da palavra “besouro”. No Brasil, porém, ele recebeu um nome completamente distinto: “Fusca”.
Esse termo não foi inicialmente oficial nem criado pela fábrica. Surgiu como expressão popular nas ruas brasileiras, possivelmente como uma gíria carioca, na então capital Rio de Janeiro, e, décadas depois, acabou sendo adotado formalmente pela própria Volkswagen.
Esta matéria mergulha nas raízes linguísticas e sociais brasileiras para explicar como um termo coloquial, e inicialmente pejorativo, passou por uma transformação notável. Trata-se de um caso singular na história do automóvel: a cultura local, com o tempo, rebatizou um ícone global.
A trilha fonética: do “V” ao “S” oculto
Sabemos que, no Sul do Brasil — do Rio Grande do Sul até o Paraná —, a adaptação do nome Volkswagen seguiu uma lógica fonética germânica. Como em alemão a letra “V” tem som de “F”, o povo rapidamente criou as corruptelas Fuca e Fuqui, termos que ainda ecoam com força nessas regiões até hoje.
No entanto, para o “Fuca” se transformar em “Fusca”, faltava um elemento. E esse elemento não veio da Alemanha, mas sim de um dicionário que já existia no Brasil muito antes de o primeiro Besouro desembarcar no Brasil e chegar no Rio de Janeiro, então Capital do Brasil.
E eu achava que a letra “S” havia sido colocada para “fugir” da conotação “sensual” de Fuca e Fuqui acima de São Paulo no mapa do Brasil. Mas a curiosidade em descobrir a verdadeira origem da palavra “Fusca” me levou a uma pesquisa mais profunda.
Descobrindo o que era “fusca” antes do carro
Antes de ser substantivo próprio, denominação de um automóvel, “fusca”, ainda em letra inicial minúscula, era uma palavra multifacetada, circulando por campos tão distintos quanto a zoologia e o submundo do crime. Para entendermos a amplitude dessa diversidade, seguem alguns exemplos do que já se chamava “fusca” nas décadas de 30 a 50. A lista que se segue mostra alguns exemplos, mas pode existir mais coisa:
1. O Significado adjetivo (a origem semântica)
Antes de ser substantivo próprio, fusca era (e é) um adjetivo vindo do latim fuscus. Significava:
- Cor escura ou parda: Referia-se a algo sombrio, castanho-escuro ou quase negro.
- O “Lusco-fusco”: A expressão clássica para o entardecer, o momento em que a luz se torna “fusca” (baça, escura).
- A “Formiga fusca” (Zoologia)
No interior do Brasil, especialmente em registros rurais do início do século XX, o termo era usado para designar certas formigas de coloração muito escura ou preta. Em alguns dicionários regionais antigos, “fusca” era uma variante popular para formigas cabeçudas escuras ou pretas que apareciam ao entardecer.
- Cavalos e animais de carga
Há registros em crônicas de turfe e leilões de animais do século XIX e início do XX, nos quais “Fusca” aparecia como nome próprio de cavalos.
- Pela característica da cor (parda/escura), era comum nomear éguas ou cavalos de pelagem escura como “Fusco” ou “Fusca”.
- Encontrei menções a animais de montaria em classificados de jornais da década de 1910 com esse nome.
- O Uso no Rio de Janeiro (gíria e oficinas)
Pesquisando em acervos de jornais cariocas (como A Noite ou Correio da Manhã), o termo aparece em contextos curiosos:
- Oficina Mecânica: Existiram estabelecimentos comerciais com o nome “Fusca”. O termo, por vezes, era associado a algo “escuro” ou “sujo de graxa” (o ambiente da oficina).
- Gíria Popular: Antes da década de 50, no Rio, “fusca” podia ser usado como gíria para algo de pouco valor, algo pequeno ou simplório, derivado da ideia de algo que não brilha (escuro).
- “Fusca” como personagem e teatro
Houve registros de personagens em peças de teatro mambembe e contos populares com o nome “fusca”, geralmente representando figuras camponesas ou de pele mais escura, reforçando o uso do termo como característica física.
- O “fusco-fusco” no Sul
No Rio Grande do Sul e nas zonas rurais, o termo “fusco-fusco” (ou fusque-fusque) era a designação comum para o crepúsculo.
- O escritor e folclorista Simões Lopes Neto já usava variações disso em seus contos. O “fusca” era a hora em que a luz “fuscava” (perdia o brilho).
- A Embriaguez em Cabo Verde
Embora fora do Brasil, é interessante notar que no idioma crioulo de Cabo Verde (idioma com forte ligação ao português antigo), “ter uma fusca” significa estar bêbedo.
- A oficina do Sr. Pasquale Fusco
Nos anos 40, era muito comum que oficinas mecânicas e pequenas indústrias de usinagem operassem sob o sobrenome do dono. Pasquale Fusco tinha um estabelecimento que atendia frotas de caminhões e veículos de carga que circulavam no Porto do Rio.
- A “conversão” popular: O cliente carioca, com sua mania de abreviar e apelidar tudo, não dizia “vou na oficina do Sr. Pasquale”. Dizia: “Vou lá no Fusco” ou “Deixei o carro no Fusca”.
- Localização: Registros da época (Almanaque Laemmert e guias comerciais) situam oficinas com o sobrenome Fusco e variantes em ruas como a Rua Sacadura Cabral e a Rua da Gamboa.
- O Caso do “Fusca” no turfe (Jockey Club)
Pesquisando nos arquivos do Jornal do Brasil e Correio da Manhã (entre 1935 e 1948), encontrei menções a um cavalo de corridas chamado “Fusco”.
- Pela pelagem escura, o animal era uma figura recorrente nas apostas de baixo valor. Há relatos de cronistas esportivos da época que usavam “fusca” como sinônimo de um animal resistente, mas sem o brilho dos grandes campeões.
- “Fusca” como Gíria de Alfaiataria e Roupa
Na década de 1940, no Rio, “fusca” também aparecia em anúncios de lojas de tecidos (como a Casa José Silva) para designar uma cor específica de casimira: o Castanho-Fusco.
- Curiosamente, o termo era usado para vender roupas resistentes para o “homem de trabalho”. A ideia de resistência e cor sóbria já estava colada ao nome.
- A “Fusca” (pistola) no submundo carioca
Não podemos esquecer que, nos anos 1940, a crônica policial do Rio (jornais como A Noite) descrevia prisões de malandros portando uma “fusca”.
Era a gíria para a pistola ou garrucha de cano oxidado (escuro). Isso dava ao nome uma aura de “ferramenta de metal, escura e perigosa”, o que ajuda a entender por que o brasileiro não estranhou o nome para um carro de metal pesado e motor barulhento.
Conclusão: o batismo pela malícia
Antes de mais nada, vamos de volta à minha pesquisa inicial, ao item “4. O uso no Rio de Janeiro (gíria e oficinas)” e em especial a seu subitem: “Gíria Popular” que nos relatou o seguinte:
Antes da década de 50, no Rio, “fusca” podia ser usado como gíria para algo de pouco valor, algo pequeno ou simplório, derivado da ideia de algo que não brilha (escuro).
É justamente essa acepção carioca, algo pequeno, escuro e de pouco brilho, que fornece a chave da interpretação.
Em última análise, o nome Fusca não foi apenas um desdobramento fonético do rigor alemão; foi o resultado de uma ‘tempestade perfeita’ linguística. Ao contrário do que muitos acreditam, o termo não nasceu de um vácuo.
Os registros apontam para a possibilidade de que, a malícia carioca utilizou um arsenal que já existia no vocabulário popular, como descrito décadas antes de o primeiro Besouro desembarcar no Rio de Janeiro.
A transição do ‘Fuca’ ou ‘Fuqui’ sulista para o ‘Fusca’ definitivo encontrou terreno fértil em uma gíria que já circulava no submundo, nas oficinas e nos botequins do Rio. ‘Fusca’, em sua origem minúscula, já era sinônimo de algo pequeno, escuro, resistente e, muitas vezes, de pouco brilho social — fosse na descrição de uma pistola oxidada ou de uma oficina de graxa.
É plausível imaginar que o brasileiro não tenha apenas “ouvido errado” o nome alemão, mas o tenha ajustado inconscientemente a um vocábulo que já existia em seu repertório e que traduzia perfeitamente aquele carro de metal e motor ruidoso que desafiava os padrões estéticos da época.
O que começou como um rótulo depreciativo, o tal ‘bullying carioca’, operou um milagre semântico: o carro foi tão valente que acabou por ‘limpar’ o nome.
Um marco simbólico desse triunfo popular veio em 1983. Após décadas de resistência formal, a Volkswagen do Brasil finalmente oficializou o nome Fusca, reconhecendo a força de um apelido que já pertencia às ruas.
Assim, o termo que, nos anos 1950, poderia soar apenas como adaptação popular ou mesmo carregar nuances ambíguas, consolidou-se como o substantivo mais querido da nossa história automobilística.
O “Fusca” não venceu apenas as estradas; foi o próprio carro que redefiniu o sentido da palavra, transformando qualquer possível ironia inicial em símbolo de afeto e identidade nacional.
No fundo, o Fusca não apenas herdou um som alemão adaptado; ele encontrou eco numa palavra que já carregava a essência do cotidiano brasileiro — algo modesto, durão e sem frescuras. Foi essa afinidade inconsciente que permitiu ao “Besouro” reescrever sua própria etimologia, elevando a palavra “Fusca” de gíria de rua a patrimônio afetivo da nação.
AG
Agradeço ao Leo Contesini, do site Flat Out, pela motivação para fazer a pesquisa que resultou nesta matéria, um assunto que me interessa há muito tempo. Ele também tem pesquisado o assunto há um bom tempo. O Leo entrou em contato comigo no fim de janeiro a partir da indicação do Luciano Gonzalez da Volkswagen do Brasil.
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