Foi em janeiro de 1999 que a BMW surpreendeu o mundo ao apresentar, no Salão de Detroit, nos Estados Unidos, o seu primeiro suve. O modelo começaria a ser produzido na fábrica americana da marca, localizada em Spartanburg no estado da Carolina do Sul. Tão inovador e à frente do seu tempo, o BMW X5 mudou radicalmente o segmento, a ponto de a própria fabricante rebatizá-lo como SAV (Sport Activity Vehicle).

Em vez das tradicionais longarinas, ou chassi separado, utilizadas para sustentar a a carroceria e a mecânica, a BMW adotou uma estrutura monobloco rígida, combinada a suspensões independentes nas quatro rodas. Em algumas versões, havia ainda bolsas de ar que ajustavam a altura do veículo e controlavam a inclinação da carroceria em curvas.
Naquele período, praticamente todos os auves utilizavam chassi sobre longarinas para garantir robustez e bom desempenho fora de estrada. A BMW, no entanto, seguiu outro caminho. Criou um conjunto que privilegiava o desempenho no asfalto, sem abrir mão de uma capacidade respeitável em situações off-road. O impacto foi imediato, inclusive sobre concorrentes diretos, como a Mercedes-Benz Classe M, que ainda adotava a construção tradicional.

O test drive
Para apresentar sua novidade ao mundo, a BMW reuniu jornalistas especializados de diversos países para uma experiência ao volante. Como a nova fábrica nos Estados Unidos seria inaugurada em setembro de 1999, o evento incluiu um test drive completo do modelo.

A delegação brasileira desembarcou no aeroporto internacional de Atlanta, no estado da Geórgia. De lá, seguimos em direção ao resort que serviria como base dos testes. Já no trajeto inicial, em duplas, conduzíamos os novos BMW utilizando uma novidade tecnológica para a época: um navegador eletrônico. A tela colorida guiava o caminho até o Château Elan, localizado a cerca de 85 km do aeroporto. Para os padrões daquele tempo, era algo impressionante.
O Château Elan é um resort inspirado em uma vinícola francesa, com um casarão central e extensas áreas de vinhedos. A propriedade ainda conta com campos de golfe e chalés distribuídos pelo terreno. Um pequeno pedaço da Europa dentro da Geórgia.

À medida que nos familiarizávamos com o X5, a admiração só aumentava. Dotado de um motor V-8 de 4,4 litros, que entregava 286 cv e torque próximo de 45 m·kgf, aliado a um câmbio automático ZF de cinco marchas, o auve de mais de duas toneladas acelerava de 0 a 100 km/h em 7,5 segundos. Um número impressionante para um veículo desse porte e proposta.
O BMW X5 na pista
No dia seguinte, após o descanso no Château Elan, seguimos para a primeira etapa dos testes no circuito de Road Atlanta, uma pista mista com curvas de média e alta velocidade, localizada a cerca de 10 km do resort. Vale lembrar que o sistema de navegação facilitava todo o trajeto, praticamente eliminando qualquer chance de erro.

No autódromo, cada dupla teve a oportunidade de reconhecer o traçado antes de acelerar mais forte. O circuito conta com 12 curvas, sendo três de altíssima velocidade, cinco de média e quatro mais lentas. Numa das primeiras voltas rápidas, cometi um erro ao confundir uma curva de média com uma de alta velocidade. Quando percebi, já era tarde. A surpresa veio na reação do carro: o X5 contornou a curva em uma velocidade muito acima do que eu imaginava ser possível. Ficou claro ali que estávamos diante de algo fora do comum.
As suspensões independentes em liga e alumínio, combinadas com às bolsas de ar no eixo traseiro, controlavam a rolagem da carroceria com eficiência. A sensação ao volante era semelhante à de um sedã da BMW Série 5. Direção, freios e suspensão trabalhavam em perfeita harmonia.
Off-road

Depois do desempenho convincente no asfalto, restava a dúvida sobre o comportamento fora de estrada. Para isso, a BMW reservou um segundo dia de testes, desta vez numa fazenda com terrenos de baixa aderência.
Retornamos ao Château Elan ao final do primeiro dia. Na manhã seguinte, seguimos para Social Circle, a cerca de 55 km dali. O percurso incluía estradas de terra, declives acentuados, riachos e subidas com pedras e lama. Um cenário desafiador até mesmo para veículos 4×4 tradicionais.
O X5 contava com tração integral, com distribuição de torque de 38% na dianteira e 62% na traseira, mantendo o comportamento dinâmico característico da BMW. Outro destaque era o sistema de controle de descidas, que regulava automaticamente a velocidade em declives íngremes, sem necessidade de acionar os freios.

A descida mais crítica do percurso impressionava. Íngreme e escorregadia, foi superada com total controle, sem intervenção do motorista. Logo em seguida, surgiu outro desafio: um riacho com cerca de seis metros de largura e 40 cm de profundidade, com fundo irregular de pedras. Após atravessá-lo, ainda havia uma subida com cascalho e pedras soltas.
O X5 enfrentou todos esses obstáculos com tranquilidade. Cruzou o riacho com estabilidade e venceu a subida distribuindo automaticamente o torque para as rodas com maior aderência. Tudo isso sem exigir habilidades especiais do condutor. Para um veículo pensado como off-road leve, o desempenho surpreendia.
Me impressionou

O novo SAV da BMW cumpriu sua proposta com méritos. Mais do que um evento repleto de cenários turísticos, aquela apresentação teve caráter técnico. O objetivo era claro: demonstrar que estava surgindo uma nova categoria de veículos, capaz de unir desempenho, segurança e versatilidade em diferentes tipos de terreno.
A BMW atingiu plenamente esse objetivo. Hoje, a fábrica da marca na Carolina do Sul é responsável pela produção de modelos da linha X, como BMW X3, BMW X5, BMW X6 e BMW XM, sendo uma das unidades mais importantes da fabricante no mundo.
DM
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