Começamos este artigo com um desafio.
A descrição do acidente é bem simples. O HB20 vermelho manobrou para fazer uma conversão regular à esquerda, com o Xsara Picasso vindo no sentido oposto, vindo a colidirem.
Questiona-se:
- O quanto você consegue afirmar sobre a foto de abertura desta matéria?
- A que velocidades estavam os veículos no momento do impacto?
- E, principalmente, quem causou o acidente?
Este é o desafio que peritos enfrentam a cada novo caso.
Cada caso lhe é apresentado “cru”, simplesmente através da descrição do estado final de objetos e pessoas, e narrativas pessoais, maliciosas ou não, mas sempre carregadas dos próprios pontos de vista, e é papel do perito afastar as inverdades e as distorções para encontrar a verdade sobre os fatos a partir das evidências.
Este não é o típico trabalho a que a maioria das pessoas conheça.
Há até aqueles que acreditam que o trabalho do perito é mero “achismo”, um palpite, sobre o qual o juiz irá decidir o futuro das duas partes em contenda. Mas não há nada mais enganoso que isso.
O trabalho do perito é cercado de ciência e tecnologia para embasar suas descobertas e seu parecer, e este artigo é para mostrar um pouco esse processo.
O caso apresentado é real, no qual atuei em defesa da proprietária do HB20, a quem chamaremos de “Maria”, de quem recebi autorização para usar o material desenvolvido em divulgação. O outro motorista chamaremos simplesmente de “Sérgio”.
Decidi trazer este caso em específico por ele ser bastante simples e, principalmente, por não envolver vítimas de qualquer nível de gravidade. Apenas leves danos materiais.
Porém, este caso exigiu o uso de técnicas sofisticadas que foram apresentadas de forma bastante didática ao processo, o que qualifica este caso em particular para ser apresentado aqui.
No entanto, o material aqui apresentado foi simplificado para melhor compreensão.
Há ainda dois fatos curiosos sobre este caso em particular que merecem destaque.
- Exceto por um pequeno detalhe que exigiu uma foto em particular, o caso inteiro foi desvendado apenas a partir da foto de abertura desta matéria e pelo uso intensivo do serviço de visão de satélite do Google Maps;
- A foto da capa foi tirada por “Sérgio”, como prova no caso contra “Maria”.
I – Iniciando os trabalhos:
Chegamos aqui, e volto a perguntar: o que você, leitor, observou na foto? Nada demais?
Pois então eu afirmo que ela está carregada de informações.
A primeira destas informações é a posição dos veículos na via, processo que teremos que reconstruir. A segunda destas informações são as marcas de travamento dos pneus do Xsara Picasso no asfalto, elemento chave para a conclusão do trabalho.
Aqui vamos precisar de uma foto extra para evidenciar um detalhe importante.

Nesta foto vemos os danos sofridos pelo H-20 pelo impacto do Xsara Picasso.
O detalhe sutil desta foto é que não há arranhões longitudinais e nem a troca de tinta preta vinda do Xsara Picasso. Na posição de colisão, se o HB20 estivesse se movendo em velocidade, haveria composição de movimentos relativos entre os veículos, causando os arranhões e a troca de tinta. A ausência destas marcas evidencia que o HB20 estava parado no instante do choque, ao contrário do Xsara Picasso que demonstrava alguma velocidade, graças às marcas de borracha no asfalto.
Estas são informações importantes que podemos tirar diretamente da foto. É um primeiro passo importante.
II – Determinando posições.
A primeira providência é obter uma visão aérea do local, pois vou usar uma técnica chamada de fotogrametria. A imagem de base foi obtida do serviço do Google Maps:

O próximo passo localizar onde estava posicionada a lente da câmera da foto. Isto é feito mediante a observação dos limites da fotografia e respectivos pontos na visão aerea, e sabendo que estes pontos convergem para a lente da câmera:

Repare na imagem a presença de setas azuis e vermelha. Elas determinam os limites visíveis da foto.

Quando alinhamos estes pontos sobre a visão aérea, conseguimos recriar duas linhas retas que se encontram na lente da câmera.
Temos assim, caracterizado o espaço visível da foto dentro do espaço físico do acidente.
Agora vamos posicionar os carros na imagem aérea.
O primeiro passo é recriar o posicionamento relativo dos carros entre si, que é aproximadamente o seguinte:

Observe que as imagens estão na mesma escala de proporção.
Em seguida, usando a técnica de fotogrametria, verificamos alinhamentos de elementos físicos dos carros com elementos de fundo da imagem:

Aqui vemos, indicado pela seta vermelha, a posição do pneu traseiro esquerdo do HB20 em relação à faixa de pedestre, as setas verdes apontam para o limite esquerdo do Xsara Picasso na foto e elementos de fundo da imagem, havendo uma reta vertical passando pelo limite esquerdo do veículo como referência para os pontos de fundo. As setas amarelas mostram os rastros de borracha no asfalto enquanto as setas pretas apontam para os limites destes rastros na borda da imagem.
O posicionamento dos carros, na mesma proporção, da vista aérea fica assim,com as setas mantendo correlação com a imagem anterior.
[IMG08],

Na próxima imagem, observamos um detalhe importante.
Na seta verde, vemos que a roda traseira ainda repousa sobre a marca de borracha no asfalto, mas que na seta azul, na altura da coluna “B” do Xsara Picasso, existe uma mudança abrupta de direção da marca de borracha. Esta mudança de trajetória denuncia o ponto de impacto.

A partir daqui começamos a fazer estudos mais profundos sobre o acidente.
III – Uma observação importante
Sei que os leitores mais atentos vão se questionar se estes métodos que estou usando não possuem uma margem de erro que possa se acumular, e este é um questionamento importante.
O primeiro deles se refere a erros de posicionamento, que podem se acumular. Sim, isto é possível, porém a prática mostra que muitos destes erros se compensam ao longo do processo, de tal sorte que um erro de 2 ou 3 metros em certa altura da reconstrução se mostraria inconsistente, mas isto muitas vezes não se observa, e estes erros devem estar dentro do esperado pelo perito.
O segundo é que, sabendo que existem margens de erro nas medidas e mesmo diferentes valores para grandezas físicas, como coeficiente de atrito entre borracha e asfalto por exemplo, o perito sempre adota um valor bastante conservador, justamente para evidenciar a situação menos crítica. Ao fazer isso, ele evita que a defesa de uma das partes possa atacar a qualidade do trabalho ou até mesmo pedir a impugnação deste no processo judicial.
IV – Calculando velocidades
A partir dos dados de descontinuidade de trajetória do Xsara Picasso após o impacto, foi possível calcular o escorregamento dos dois carros após a colisão:


Assim, avaliamos que o Xsara Picasso escorregou cerca de 2 metros até parar, enquanto o HB20 se deslocou 2,5 metros.
Agora podemos usar a equação de Torricelli para calcular as velocidades.
[IMG12]

Substituindo a aceleração “a” pelo produto da aceleração da gravidade (9,81 m/s) pelo coeficiente de atrito dinâmico entre borracha e asfalto (0,72, um valor bastante conservador):

Assim, calculamos que a velocidade do HB20 imediatamente após o choque é de 5,94 m/s ou 21,9 km/h, enquanto o Xsara Picasso teve velocidade de 5,32 m/s, ou 19,1 km/h.
Para o cálculo de velocidade do Xsara Picasso imediatamente antes do choque, podemos usar a lei de conservação do momento linear:
[IMG14]

Considerando que o HB20 estava parado no instante do impacto, que o peso do Xsara Picasso é de 1.308 kg e do HB20 é de 990 kg, calcula-se que a velocidade de impacto do Xsara Picasso era de 9,82 m/s ou 35,3 km/h.
Para o cálculo da velocidade original do Xsara Picasso, precisamos do comprimento das marcas de borracha no asfalto. Mas aqui há um porém sobre o qual o bom perito deve zelar.
Ocorre que as marcas de borracha no asfalto se mostram bem consolidadas a partir da borda da fotografia, indicando que ele já freava com rodas travadas antes do limite da fotografia.

Vemos que as marcas de borracha alcançam uma distância de 10,7 metros dentro da zona da fotografia.
Voltamos então a usar a equação de Torricelli, e teremos:

Ocorre que as marcas de borracha na borda da fotografia já se mostram consolidadas, mostrando que o travamento de roda ocorreu antes da foto:


Então, a velocidade de 56.7 km/h é apenas a parte visível de um processo de frenagem com travamento de rodas que começou pelo menos 10 metros antes.
Reaplicando Torricelli considerando o espaço adicional de 10 metros antes do limite da fotografia, temos:

Assim, avaliamos que o veículo estava a 71,0 km/h no começo do travamento das rodas.
V – A verdadeira dimensão do acidente
Não é só a velocidade de 71,0 km/h a importância para o acidente.
Todo motorista possui uma velocidade de reação, e em trabalhos periciais costuma-se adotar o valor de 1 segundo entre a percepção da situação e a reação do motorista.
Se o veículo trafegava a 19,7 m/s (71,0 km/h) e o motorista demorou 1 segundo para reagir, isto significa um espaço adicional de 19.7 metros aos 20,7 metros de frenagem com rodas travadas, ou seja, entre a percepção do motorista e o impacto, foram percorridos 40,4 metros de distância.
Agora observem esta imagem:

As setas nesta imagem mostram marcos importantes na trajetória do Xsara Picasso:
- Seta Verde: Escola (~115 metros até o impacto)
- Seta Azul: Faixa de Pedestre: (~115 metros até o impacto)
- Seta Ciano: Percepção de Risco (71,0 km/h, 40,4 metros até o impacto)
- Seta Amarela: Início da Frenagem (71,0 km/h, 20,7 metros até o impacto)
- Seta Laranja: Borda da Fotografia (56,7 km/h, 10,7 metros até o impacto)
- Seta Vermelha: Impacto (35,3 km/h)
A zona de escola determina velocidade de 30 km/h naquele trecho, contra velocidade estimada em 71,0 km/h. O Sr. “Sérgio” arriscou um atropelamento de uma criança em alta velocidade.
A 30 km/h estima-se que seria possível parar em apenas 14 metros, contado inclusive o tempo de reação. A esta velocidade, regular para o trecho, o motorista do Xsara Picasso teria totais condições de evitar a colisão. Apesar disso, mesmo percebendo o risco a 40 metros do impacto, o Xsara Picasso impactou o HB20 a cerca de 35 km/h.
VI – A trajetória do HB20
Considerando a posição estimada do HB20 no momento do impacto, é possível avaliar a trajetória pretendida pela sua motorista antes do impacto. É o que vemos na próxima imagem.

Por esta trajetória, vemos que a motorista fazia uma conversão à esquerda completamente limpa, em baixa velocidade e sequer invadindo a mão contrária ao tomar a nova via. Uma manobra completamente insuspeita por todos os sinais observados.
VII – O trabalho do perito não termina aqui
Até aqui, a física nos contou uma história silenciosa, mas precisa: um HB20 parado, uma conversão limpa e um Xsara Picasso trafegando a mais do que o dobro da velocidade permitida para o local. As evidências materiais, extraídas por fotogrametria e pelas equações da dinâmica veicular, parecem, por si só, encerrar o caso.
Mas é justamente aqui que começa a parte mais interessante do trabalho pericial.
Porque, no processo, os fatos não chegam apenas na forma de marcas no asfalto ou deformações na carroceria. Eles chegam também como versões — relatos construídos, interpretações, justificativas. E, neste caso, o Sr. “Sérgio” apresentou sua própria narrativa dos acontecimentos, atribuindo à condutora do HB20 a responsabilidade pelo acidente.
E é neste ponto que surge a pergunta fundamental:
essa narrativa é fisicamente possível?
Na segunda parte deste artigo, vamos inverter completamente o raciocínio. Em vez de partir das evidências para reconstruir o acidente, partiremos do depoimento do condutor do Xsara Picasso para testá-lo contra a realidade física que acabamos de estabelecer.
Será que a versão apresentada se sustenta quando confrontada com velocidades, distâncias e tempos?
Ou será que, diante da matemática, ela se torna insustentável?
Na continuação, veremos o momento em que o discurso encontra o asfalto — e apenas um deles permanece de pé.
AAD


