Estávamos no final de fevereiro de 2002. No mês anterior, no Salão de Bruxelas, a Mercedes-Benz já havia apresentado o Novo Classe E, seu ícone de tecnologia e luxo em nova versão, batizada de W211. A Mercedes queria mostrar ao mundo que aquele era o sedã mais avançado e tecnológico de seu segmento. Por isso, apressou-se em organizar, ainda no final de fevereiro, um test drive para jornalistas de todo o mundo.

Os novos freios de comando eletrônico e a suspensão pneumática Airmatic davam o tom da alta tecnologia do novo Classe E. Claro que todas as novidades do sedã vinham acompanhadas de um desenho fluido e aerodinamicamente funcional, além de uma aparência que deixava todos encantados. Nascia um novo ícone da marca alemã, como eles mesmos ressaltavam na ocasião.

Jornalistas especializados foram convidados pela Mercedes para testar o novo carro no norte da Itália, na região da Lombardia. Ficamos hospedados no Grand Hotel Tremezzo, na região da Tremezzina. Para se ter uma ideia, o hotel fica à beira do Lago de Como e havia sido inaugurado em 1910, representando todo o glamour e o luxo da sociedade europeia da época.

Os corredores que levavam aos quartos eram imensos, tanto na largura quanto no comprimento, e estavam forrados de bancadas repletas de obras de arte, como vasos, estatuetas, fotos e outros objetos do início do século XX. Nos quartos, com portas imensas de mais de três metros de altura, as camas eram enormes, os móveis de época e o banheiro todo em mármore branco. Um luxo ao qual não estamos acostumados.

Na varanda do meu quarto, localizado no quarto andar, a vista privilegiada mostrava toda a extensão do Lago de Como. Do outro lado da rua do hotel havia um píer exclusivo, com a famosa piscina flutuante que marcou época e se tornou referência do Hotel Tremezzo. Esse píer servia para que os hóspedes pudessem fazer passeios de barco pelo lago. Muito luxo e requinte para um hotel com mais de 100 anos que, segundo arquitetos especialistas, representa a Belle Époque do início do século XX, preservada pelos italianos como poucos sabem fazer.
A entrada e a saída pela porta principal eram feitas por meio das tradicionais portas giratórias, hoje praticamente em desuso. Enormes, elas devem ter sido um luxo extremo em sua época e serviam, no inverno, para manter o ar aquecido no interior do hall do hotel. É preciso lembrar que estávamos na beira dos Alpes e fevereiro marcava o final do inverno italiano, já na transição para a primavera. Mesmo assim, o frio ainda era intenso, principalmente à noite.

Imagine o contraste. Saíamos pelas portas giratórias de um hotel centenário e, logo à frente, nos deparávamos com o Novo Classe E à porta, com seu design futurista, pronto para que nós, jornalistas, iniciássemos o test drive rumo a St. Moritz, na Suíça, a cerca de 102 km e aproximadamente duas horas de viagem do hotel. Um verdadeiro choque.

Era como uma máquina do tempo: saíamos do passado representado pelo Hotel Tremezzo e entrávamos no prometido futuro do automóvel simbolizado pelo novo Mercedes Classe E. Esse era exatamente o objetivo da Mercedes ao nos hospedar ali antes de nos colocar ao volante do novo sedã.

O teste mostrava aos jornalistas de todo o mundo a superioridade da nova suspensão pneumática, que adaptava o carro ao piso, e do sistema de freios de comando eletônico, que não dispunha de ligação mecânica entre o pedal e os sistemas hidráulicos das rodas.

O trajeto partia da frente do hotel e contornava o Lago de Como por sinuosas estradas italianas, repletas de curvas e túneis estreitos, até iniciar a subida dos Alpes rumo à Suíça. Como era final de inverno, a neve ainda estava presente, não na estrada, mas nos acostamentos e nas encostas montanhosas ao redor. O percurso até St. Moritz tinha exatamente 102 km e era percorrido em cerca de duas horas. Na cidade suíça, mundialmente conhecida pelo requinte de seus hotéis e restaurantes, chegamos para almoçar no Badrutt’s Palace Hotel, um dos mais luxuosos do destino turístico.
Se a subida até St. Moritz exigiu bastante do motor e da transmissão do novo Classe E, a volta para a Itália, à tarde, foi pura alegria. Era descida praticamente o tempo todo. Com a ajuda da gravidade, a viagem de ida, que levou duas horas, transformou-se em um retorno de pouco mais de uma hora e meia. Com toda a segurança dos novos freios e o excelente desempenho da suspensão pneumática, que adaptava o Classe E às curvas e às velocidades impostas por elas, o sedã mostrou do que era capaz em termos de segurança e desempenho.

Ao retornar às estradas que contornavam o belo Lago de Como, foi fácil seguir de volta ao tradicional Hotel Tremezzo, à beira do lago. Um dia inesquecível, que ainda hoje pode ser lembrado em detalhes, 24 anos depois. Uma viagem enriquecedora, mesmo que o Classe E daquela época hoje já seja obsoleto.
DM
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