Tenho certeza de que nosso editor de automobilismo e meu amigo há décadas, Wagner Gonzalez, não se incomodará de ver o nome da sua coluna usado para intitular minha coluna deste domingo, cujo tema é justamente pista. Nessa “conversa” compartilho uma situação quando era supervisor de competições da Volkswagen, de março de 1984 a dezembro de 1988. A situação se refere ao Campeonato Brasileiro de Marcas e Pilotos, no qual a fábrica se empenhou a fundo.
O câmbio do Gol
Volkswagen, Fiat, Ford e GM se comprometeram com a Confederação Brasileira de Automobilismo (CBA), na pessoa do seu presidente Joaquim Cardoso Mello, a participar deste campeonato, por ele idealizado, com equipes oficiais. O formato seria europeu, carros de série modificados segundo um regulamento técnico nos moldes do Campeonato Europeu de Carros de Turismo. A primeira etapa seria em Brasília, em abril de 1984.
Era janeiro e ainda não havia regulamento. A CBA convocou uma reunião com as quatro fábricas na sua sede no Rio de Janeiro. Ronaldo Berg, gerente nacional de assistência técnica/Produto da VW, cumulativamente com responsabilidade provisória porcompetições, perguntou se eu poderia representar a fábrica na reunião. Aceitei.
Cabe esclarecer que em dezembro de 1983 o Ronaldo me disse que a vaga de supervisor de competições, da qual vínhamos falando há meses por ele me querer na VW em razão do já anunciado campeonato, havia sido aprovada. Todavia, ainda estava em curso o processo de seleção que procurou aproveitar alguém do quadro de funcionários, mas não foi encontrado nenhum com o perfil necessário para esta função. Fui admitido.
A reunião foi tensa, como eu esperava, devido aos altos interesses em jogo. Havia uma minuta do regulamento que era fraca, imprecisa e distante do padrão da FIA’. Mas me chamou logo a atenção um artigo especificando que o número de marchas do câmbio teria que ser o mesmo do modelo original. O Gol 1,6 só tinha quatro marchas, era evidente a intenção de prejudicar a VW. Nem contestei, havia saída fácil para esta condição. Achei até engraçada a indisfarçável elegria dos meus pares de função mesmo sem eu ainda não ter entrado para a Volkswagen.
Àquela altura o objetivo da reunião, aprovar o regulamento, não havia sido atingido. Impasse. Sugeri ficar a meu cargo nova redação do regulamento. Todos aprovaram a sugestão mesmo eu (VW) sendo seu concorrente. Caio Alfaya, presidente do Conselho Técnico-Desportivo Nacional (CTDN), presente, concordou. Em dois dias dei nova redação (datilografada) do regulamento, no padrão FI., Enviei-o por fax a todos e foi aprovado na íntegra. Todos me conheciam bem e tinham certeza de que eu seria incapaz da favorecer a marca que eu representava.
E a questão do câmbio do Gol, o que aconteceu depois? Na minuta original havia um artigo dizendo que as relações de marchas teriam que ser as de série, mas a marca poderia homologar, sem produção mínima, um câmbio opcional de mesmo número de marchas e com outras relações.
Como os câmbios eram produzidos na Fábrica Anchieta, modificamos o 4-marchas no sentido de ser “um 5-marchas sem a 1ª”. Nesse “novo” 4-marchas a posição da 1ª era na verdade a 2ª; a 2ª era a 3ª; a 3ª era a 4ª; e a 4ª ers a 5ª. O diagrama na abertura mostra bem isso.
Como as fichas de homologação são documentos públicos, nossos três concorrentes não gostaram nada quando viram o nosso”truque”. Nada havia a fazerem senão aceitar, era previsto até na minuta do regulamento, tal como no regulamento técnico do Grupo A da FIA.
Duro mesmo foi convencer nossos pilotos que eles tinham que fazer o Bico de Pato, a curva mais lenta do circuito de Interlagos — antgo e atual — em 1ª marcha… Depois que pegaram o jeito, só elogios, era muito melhor dispor do “H” puro para engatar a “5ª”.
E nunca tiveram problema nas largadas por terem que arrancar em “2ª”, já que nossos motores eram bastante elásticos e não havia desgaste do disco de embreagem por sua patinagem um pouca coisa mais demorada que o normal. Nas largadas nossos carros ficavam um pouco para trás, mas ainda primeira volta assumam a ponta.
No domingo que vem conto o momento em que nossos carros passaram a esterçar bem pouco para um dos lados e por quê.
BS
A coluna “O editor-chefe fala” é de exclusiva responsabilidade do seu autor.



