A Fórmula 1 confirmou nesta 2ª feira (20) um pacote de ajustes no regulamento de 2026 que passa a valer já a partir do Grande Prêmio de Miami em 3 de maio, após acordo entre FIA, equipes, fabricantes de unidades de potência e a própria FOM (Formula One Management).
As mudanças são resultado de uma série de reuniões técnicas realizadas nas últimas semanas, com base em dados coletados nas três primeiras etapas da temporada: Austrália, China e Japão, e com participação ativa dos pilotos.
O próprio comunicado define o escopo da medida: não se trata de uma mudança estrutural, mas de um conjunto de refinamentos no comportamento dos carros na pista. Ainda assim, o momento revela bastante: a nova geração de monopostos exigiu ajustes em menor tempo do que o esperado.
Menos recuperação de energia, mais tempo acelerando
O ponto central das mudanças está na redução da energia elétrica que pode ser recuperada ao longo de uma volta. O limite cai de 8 megajoules (MJ) para 7 megajoules por volta. A diferença é pequena no papel, mas relevante na prática.
Os carros híbridos recuperam energia principalmente nas frenagens e em momentos de menor carga do acelerador. Quanto maior essa recuperação, maior a necessidade de o piloto aliviar o ritmo em determinados trechos.
Com a redução do limite irá diminuir a necessidade de aliviar o acelerador, aumentar o tempo em aceleração plena e reduzir a dependência de estratégias de economia.
Além disso, a FIA mira diretamente a redução do chamado período de limitação de potência elétrica, que deve cair para algo entre 2 e 4 segundos por volta.
Mais potência disponível
Outro ajuste importante está no aumento da capacidade de recuperação e uso da energia elétrica em condições de alta carga.
A potência máxima associada a esse regime passa de 250 kW (340 cv) para 350 kW (476 cv), o que reduz o tempo necessário para recarregar o sistema e diminui a carga de gerenciamento por parte do piloto.
Essa mudança também se aplica às corridas e está diretamente ligada ao objetivo de tornar o comportamento do carro mais constante ao longo da volta.
Além disso, o número de etapas com limites energéticos alternativos foi ampliado de oito para 12 corridas, permitindo maior adaptação às características de cada circuito.
Controle mais rígido da potência em corrida
Se por um lado a classificação ganha mais liberdade, nas corridas o caminho foi o oposto: controle mais rigoroso da entrega de potência.
O sistema que libera potência elétrica extra em momentos de ultrapassagem agora passa a operar com um teto de até 150 kW (204 cv) adicionais. Antes, essa entrega podia variar mais livremente, criando diferenças maiores de aceleração entre carros. Com o novo limite, essas variações ficam mais controladas.
Com isso, a FIA busca reduzir diferenças abruptas de desempenho entre carros.
Outro ponto relevante está na forma como a potência elétrica é distribuída:
- até 350 kW (476 cv) em zonas de aceleração (saída de curva até frenagem, incluindo pontos de ultrapassagem)
- limitada a 250 kW (340 cv) no restante da volta
Essa separação cria um comportamento mais previsível, ao mesmo tempo em que preserva o potencial de ultrapassagem.
Segurança como eixo central das mudanças
Embora o discurso oficial fale em consistência e dirigibilidade, o pano de fundo é claro: segurança.
As primeiras corridas mostraram que a combinação de diferentes níveis de energia disponível, picos de potência elétrica diferenciados entre os carros e variações de entrega ao longo da volta. O que vinha gerando diferenças significativas de velocidade em disputas.
As novas regras atuam diretamente nisso, reduzindo velocidades de aproximação excessivas sem eliminar as oportunidades de ataque.
Largadas: intervenção direta do sistema
Um dos pontos mais interessantes está nas largadas. A FIA desenvolveu um sistema capaz de identificar carros com aceleração anormalmente baixa logo após a soltura da embreagem.
Nesses casos o sistema ativa automaticamente o motor elétrico, garantindo um nível mínimo de aceleração e evitando riscos imediatos de colisão. Além de fazer com que o sistema de luzes traseiras e laterais alertem os outros pilotos.
O acumulador de energia será reiniciado na volta de formação, corrigindo uma inconsistência anterior.
Essas medidas ainda serão testadas em Miami antes de adoção definitiva.
Pista molhada: ajustes além da energia
Outro bloco importante do comunicado trata das condições de chuva, algo que também foi trazido pelos pilotos.
Entre as mudanças está o aumento da temperatura dos cobertores térmicos dos pneus intermediários, a redução da potência elétrica máxima em pista molhada e a simplificação dos sistemas de luz traseira para melhorar visibilidade.
O objetivo aqui é duplo: melhorar aderência inicial e facilitar a leitura do comportamento dos carros em condições de baixa visibilidade.
Ajustes construídos em conjunto
Um ponto relevante do comunicado é o caráter consensual das mudanças.
A decisão foi tomada em conjunto por FIA, equipes, fabricantes e FOM, com base em dados reais coletados nas corridas já realizadas e da comunicação direta dos pilotos.
Isso reforça que não se trata de uma correção isolada, mas de um ajuste coordenado dentro do ecossistema da categoria.
Nossa leitura
O regulamento de 2026 não mudou, mas o seu comportamento, sim.
A Fórmula 1 manteve intacta a base técnica de ter uma forte eletrificação dos carros, uma divisão equilibrada de potência entre motor térmico e elétrico e manter o foco na eficiência energética.
O que ela ajustou foi a forma como esse sistema se manifesta na pista.
Porque o problema não estava exatamente na quantidade de energia disponível, mas na forma como ela interferia na condução: seja na necessidade constante de gerenciamento, seja nas variações abruptas de desempenho.
Esse pacote atua justamente nesses pontos.
Miami como primeiro termômetro
O GP de Miami será o primeiro teste prático dessas mudanças, e, em alguns casos, também um ambiente de validação.
Mais do que desempenho absoluto, o foco estará no comportamento:
- maior constância de aceleração
- menor interferência do sistema híbrido
- disputas mais previsíveis
- redução de variações abruptas de velocidade
Se isso se confirmar, a Fórmula 1 terá conseguido ajustar rapidamente a nova era.
Se não, esse pode ser apenas o primeiro de vários refinamentos ao longo da temporada. A conferir!
GB



