Os arquivos históricos das fabricantes costumam guardar muito mais do que fotografias antigas. Guardam caminhos não escolhidos, decisões de estilo abandonadas, ideias interrompidas e carros que quase existiram. A Ford resolveu abrir parte desse universo ao revisitar imagens do seu acervo de design e aplicar recursos atuais de inteligência artificial para colorizar antigos estudos do Mustang.
O material vem de uma coleção impressionante: mais de 350 mil negativos de estilo preservados em condições controladas. Ali estão registrados processos completos de criação, desde meados dos anos 1950 até a virada do século. Modelos em argila, desenhos, mockups internos, estudos de proporção e propostas que nunca chegaram às ruas.
Grande parte dessas imagens é em preto e branco. Ao aplicar cores contemporâneas em alguns desses registros, a Ford cria uma experiência curiosa: observar formas clássicas por outra lente, como se conceitos esquecidos tivessem atravessado décadas e surgido agora.
Entre os exemplos mais interessantes está um Mustang de primeira geração com quatro portas, estudo datado de janeiro de 1963. O carro aparece em Intense Lime Yellow Metallic, tom vibrante que ressalta uma hipótese rara: como seria um Mustang familiar, com uso mais amplo, sem abandonar parte da identidade esportiva. O projeto nunca avançou, mas revela que a Ford considerou expandir o conceito desde o início.
Outro exercício mostra uma proposta derivada do Fastback de 1966 em Grabber Blue Metallic. O Fastback definitivo se tornou um dos Mustang mais desejados da história, com perfil limpo e traseira em queda elegante. Ainda assim, é interessante notar quantas variações a equipe analisou antes da decisão final.
Há também o estudo de uma shooting brake, ou camioneta, registrado em 1966. Talvez seja uma das interpretações mais surpreendentes. O longo capô permanece intacto, mas a linha de teto se estende até uma traseira quase vertical, criando um Mustang de uso mais versátil sem perder presença visual. A proporção funciona muito bem e antecipa em décadas a ideia de esportivos com maior praticidade, algo que mais tarde ganharia espaço em diferentes mercados.

Há ainda um estudo pintado em Race Red, com traseira mais marcada e tratamento visual que remete a futuros cupês intermediários da própria Ford. Em certos ângulos, antecipa algo do espírito que anos depois apareceria no Gran Torino.
Talvez o mais simbólico seja o Mustang I Concept, protótipo criado antes do Mustang de produção. Dois exemplares foram usados em visitas a universidades americanas para medir a receptividade de um esportivo acessível entre os jovens. Na releitura atual, surge em Orange Fury Metallic Tri-coat. Continua chamativo, baixo e ousado. Ainda assim, o original branco com faixa azul preserva melhor o frescor do período.
O valor desse exercício vai além da tecnologia usada para colorizar imagens. Ele permite observar como o Mustang poderia ter seguido outras rotas, seja em carroceria, proporção ou linguagem visual.
No fim, ver essas fotos e imaginar esses conceitos circulando nas ruas talvez seja até mais interessante do que o simples fato de a Ford ter dado cores a essas fotos.
PM











