O nome Freelander voltou, mas não voltou exatamente para a Land Rover. Esta é a parte mais importante da história. A Jaguar Land Rover licenciou o nome à CJLR, a sociedade chinesa formada com a Chery, para uma nova linha de veículos eletrificados feita na China, sobre arquitetura da própria Chery e com fabricação em Changshu. A nova Freelander terá rede comercial distinta e será independente tanto do portfólio da Chery quanto da House of Brands (casa de marcas) da JLR, formada por Range Rover, Defender, Discovery e Jaguar.
Portanto, o Freelander 8 não deve ser tratado como um novo Land Rover chinês, nem como um produto clássico da JLR desenvolvido, fabricado e vendido pela estrutura tradicional da marca. Ele nasce em uma zona intermediária, com nome britânico, base chinesa, tecnologia chinesa e estética da JLR. É um produto da CJLR/Chery usando uma marca histórica licenciada.
A fala de P.B. Balaji, presidente da JLR, reforça esse distanciamento. Segundo a Autocar, ele afirmou que o carro é da Chery e que a JLR deixará a fabricante chinesa decidir seus planos de expansão. O papel da JLR parece estar concentrado em preservar coerência visual, repertório de marca e parte do desenho, não em controlar a operação comercial como faz com Range Rover, Defender, Discovery ou Jaguar.
Na China, a nova Freelander será tratada como marca independente, com sede em Xangai, centros de desenho no Reino Unido e na China, base de engenharia em Suzhou e produção em Changshu. A rede comercial prevista também nasce separada, com plano de chegar a 100 pontos em 60 cidades chinesas ainda em 2026.
Essa informação ajuda a entender por que concessionários brasileiros já falam em uma eventual rede Freelander independente por aqui. Ainda não há confirmação pública sobre Brasil, importador, pós-venda ou distribuição, mas a lógica internacional aponta nessa direção.
O Freelander 8, primeiro produto dessa nova fase, também mostra quem conduz o projeto. A Chery entra com plataforma, integração industrial e eletrificação. A CATL fornece a bateria. A Huawei aparece no sistema de assistência à condução, com lidar no teto e integração ao reconhecimento de terreno.
O conjunto usa sistema EREV, de extended range electric vehicle (veículo elétrico de alcance estendido), com bateria de 60,3 kW·h, alcance elétrico declarado de 221 km e motor 1,5 turbocarregado atuando como acionador gerador.
A versão First Edition (edição de lançamento), apresentada publicamente na China, terá três cores exclusivas, emblema próprio de série limitada, lidar de 896 linhas (sensor a laser de alta resolução para leitura tridimensional do ambiente), chip Qualcomm Snapdragon 8397 e sistema Huawei Qiankun ADS 5 (assistência avançada à condução da Huawei, com sensores, câmeras, radares e lidar para leitura do ambiente e apoio à condução). A plataforma trabalha com arquitetura de 800 V e bateria CATL, com capacidade de carregamento de até 6C (índice de recarga muito rápida, equivalente em teoria a carregar a bateria completa em cerca de 10 minutos) e pico declarado de 350 kW.
A proposta é combinar a velocidade chinesa em eletrificação e software com alguma memória visual e simbólica do universo Land Rover, em uma tentativa de somar tecnologia local a uma herança de marca reconhecida.
O tamanho afasta qualquer associação direta com o antigo Freelander. O novo modelo mede mais de 5 m de comprimento (5.118 a 5.185 mm dependendo da versão), tem 2.050 mm de largura, 1.898 a 1.926 mm de altura, seis lugares, entre-eixos de 3.040 mm; peso em ordem de marcha de 2.980 kg e peso bruto total de 3.495 kg. Também haverá capacidade de reboque de até 2.000 kg. É um suve grande, pesado, luxuoso e muito apoiado em software, sensores e fornecedores chineses. A capacidade todo-terreno tenta preservar a memória Land Rover, mas a execução é outra, mais digital e integrada ao ecossistema tecnológico chinês.
O conjunto todo-terreno combina o i-ATS, sistema inteligente de reconhecimento de terreno desenvolvido com a Huawei, com bloqueio mecânico dianteiro, diferencial traseiro de deslizamento limitado eletrônico, bloqueio central virtual e suspensão pneumática de duas câmaras. É uma interpretação chinesa de uma competência que sempre foi associada à Land Rover: menos mecânica pura, mais leitura de terreno, sensores, processamento e atuação eletrônica.
A virada acontece num momento de redefinição para a JLR na China, assim como no Brasil com o encerramento da produção local. A sociedade com a Chery na China perdeu força, os modelos locais da Land Rover e da Jaguar envelheceram comercialmente, o Evoque L passou a ser vendido com fortes descontos e a pressão dos fabricantes chineses tornou a antiga fórmula menos competitiva. Nesse cenário, licenciar Freelander à CJLR parece uma forma de manter presença, aproveitar herança de marca e deixar a Chery entregar velocidade, custo e tecnologia que marcas tradicionais ainda não conseguem.
Se vier ao Brasil, portanto, o Freelander não deve ser entendido como a volta de um Land Rover de acesso. Mesmo com o nome remetendo a um dos modelos Land Rover de maior sucesso por aqui, a leitura mais correta é outra: será uma marca chinesa eletrificada com nome histórico britânico, nascida da CJLR, distante da operação tradicional da JLR e provavelmente com rede própria. Possivelmente, nesse formato, terá mais sucesso que a britânica pura.
PM




