Quando a Jetour apresentou o T2 no mercado brasileiro, durante o lançamento da marca, a primeira impressão ficou por conta do visual. As linhas retas, a carroceria alta, os para-lamas musculosos e o estepe montado na tampa traseira remetem imediatamente aos utilitários tradicionais de aptidão fora de estrada. Na ocasião, Paulo Manzano apresentou os principais detalhes do projeto e explicou a estratégia da fabricante para o mercado brasileiro.

Agora, depois de alguns dias de convivência e quase 900 quilômetros percorridos, principalmente em rodovias, foi possível entender melhor o comportamento do T2 em condições reais de utilização. A principal conclusão é que seu maior mérito não está no estilo aventureiro nem na extensa lista de equipamentos. O destaque aparece justamente onde poucos conseguem perceber à primeira vista: na qualidade do acerto mecânico e na eficiência do conjunto híbrido plug-in.

A versão Premium avaliada custa R$ 299.990 e utiliza um motor 1,5-litro turbocarregado a gasolina de 135 cv, associado a dois motores elétricos e a uma transmissão híbrida automática dedicada de três marchas (3-DHT), alimentados por uma bateria de 26,7 kW·h. O conjunto proporciona acelerção de 0 a 100 km/h em 7,5 segundos e oferece alcance elétrico homologado pelo Inmetro de 75 quilômetros.
Mas esses números contam apenas parte da história.
Conjunto motor térmico, câmbio e motores elétricos montados no cofre do motor e com manta fonoabsorvente no capô
Muito confortável no uso diário
Apesar da aparência robusta, o T2 revela rapidamente uma personalidade muito diferente daquela sugerida pelo desenho.
O espaço interno é amplo, principalmente para quem viaja no banco traseiro. A distância entre-eixos de 2.800 mm garante excelente acomodação para pernas e ombros, enquanto o teto elevado, aliado ao amplo teto solar panorâmico, amplia a sensação de espaço a bordo.
Amplo espaço no banco traseiro e conforto térmico com as saídas de ar-climatizado e maior sensação de espaço pelo teto solar panorâmico, complementado pelo revestimento de cor clara no teto e colunas
Os bancos dianteiros merecem elogios. Além do bom formato e do eficiente apoio lateral, permitem encontrar rapidamente uma posição confortável ao volante através dos comandos elétricos e o ajuste pode ser automaticamente salvo ao perfil do motorista. Mesmo após várias horas dirigindo, o cansaço praticamente não vem.
Conforto na parte dianteira é acompanhada de visual moderno e da utilidade do porta-óculos para o motorista
O acesso à cabine também foi bem-resolvido. O piso elevado poderia dificultar a entrada de pessoas de menor estatura ou idosos, mas o estribo lateral e as alças instaladas nas colunas dianteiras e centrais tornam essa operação bastante natural. São soluções simples, porém extremamente úteis no uso diário.
Alças nas colunas dianteiras e centrais ajudam a entrar e sair na cabine; alças de teto em três posições
Um suve grande que ao volante parece menor
Com 4.785 mm de comprimento e pouco mais de dois metros de largura, o T2 impõe respeito quando está parado. Felizmente essa sensação desaparece poucos minutos depois de assumir o volante.

A ampla área envidraçada, os grandes retrovisores externos e a boa posição de dirigir permitem excelente percepção das extremidades da carroceria. Nas manobras, a câmera panorâmica de 540º e os sensores de estacionamento traseiros e dianteiros auxiliam bastante no posicionamento do veículo em vagas apertadas.
O alerta de ponto cego nos retrovisores também merece destaque. Mais do que um item de auxílio à condução ele representa um importante reforço de segurança num veículo com essas dimensões.
Largura do veículo só impressiona pelo lado de fora; ao volante fica fácil de dirigir; iluminação totalmente em LED
Direção e suspensão mostram um trabalho refinado
Foi justamente nesse aspecto que o T2 mais surpreendeu.
A direção eletroassistida oferece três níveis de assistência e pode acompanhar automaticamente o modo de condução selecionado: Eco, Normal, Sport ou Neve. Independentemente da configuração escolhida, transmite sensação natural, bom peso e respostas previsíveis tanto na cidade quanto na estrada.
Direção tem boa empunhadura, e controles adicionais de iluminação e limpador de para-brisa estão inseridos nas alavancas atrás do volante
A suspensão segue exatamente a mesma filosofia.
Seu ajuste privilegia claramente o conforto, mas sem permitir movimentos exagerados da carroceria. O T2 absorve muito bem as irregularidades do piso e transmite agradável sensação de robustez estrutural. Apenas em depressões suaves percebe-se um discreto movimento da carroceria, característica que provavelmente só será notada por motoristas mais atentos ou quando o veículo estiver transportando sua capacidade máxima de passageiros e bagagens.
A inspeção no elevador mostrou peças estampadas com formas complexas e dupla que mostram preocupação com a rigidez dos conjuntos para melhor resposta acústica e durabilidade; a bateria de tração tem fechamento e proteção térmica adicional
As rodas de liga de alumínio de 20 polegadas, montadas com pneus 255/55 R20, completam esse bom trabalho ao oferecer excelente aderência nas curvas, baixo nível de ruído de rodagem e elevado conforto.

Sinalização horizontal rodoviária irregular atrapalha assistente
Os sistemas avançados de assistência ao motorista (sigla em inglês: Adas) mostram evolução em relação a diversos concorrentes chineses. Durante toda a avaliação ficou evidente que a calibração adotada pela Jetour é menos invasiva do que a encontrada em outros modelos recentes.
Ainda assim, o assistente de permanência na faixa continua sofrendo com um problema que não pertence propriamente ao veículo, mas à infraestrutura viária brasileira.
Central multimídia é o ponto de controle do veículo
A sinalização horizontal irregular faz o sistema interpretar incorretamente algumas situações, realizando pequenas correções na direção que acabam incomodando. É um comportamento conhecido em praticamente todos os veículos equipados com esse recurso.

Um híbrido que pensa antes de gastar energia
O conjunto híbrido entrega desempenho bastante convincente, mas existe uma característica interessante que dificilmente será percebida durante um test drive convencional.
Embora o alcance elétrico homologado seja de até 75 quilômetros, a eletrônica preserva automaticamente cerca de 25% da carga disponível na bateria. O objetivo é simples: garantir que sempre exista energia suficiente para alimentar os motores elétricos e disponibilizar elevado desempenho quando necessário.
Caso o motorista deseje, essa reserva pode ser reduzida para aproximadamente 15%, mas abaixo desse nível o sistema preserva automaticamente a carga, utilizando-a integralmente apenas em situações excepcionais, como quando o tanque de combustível estiver vazio.
É uma estratégia inteligente de gerenciamento energético. Na prática, evita que o T2 passe a atuar apenas como um suve grande de motor 1,5-litro turbo de 135 cv quando a bateria se aproxima do fim da carga.
Porta-malas é amplo e tem vários recursos para auxiliar na fixação de cargas
Modo Sport merece atenção
Durante a semana de avaliação apareceu uma característica que merece ser conhecida pelos futuros proprietários.
Nos modos Eco e Normal, mesmo pressionando totalmente o acelerador, o sistema não disponibiliza toda a potência do conjunto híbrido. A calibração privilegia a eficiência energética e limita a entrega de desempenho a cerca de 80%.

Para extrair todo a potência do sistema híbrido é necessário selecionar previamente o modo Sport.
Não chega a ser um defeito, mas é uma filosofia diferente daquela adotada por diversos híbridos concorrentes, nos quais basta pressionar totalmente o acelerador para que toda a potência seja liberada. Em situações de ultrapassagem, portanto, vale antecipar essa necessidade escolhendo previamente o modo Sport.

Eficiência impressiona
Talvez o maior destaque de toda a semana tenha sido justamente o consumo.
Durante quase 900 quilômetros de utilização não houve necessidade de abastecer gasolina. Bastou recarregar a bateria durante a noite para atender toda a rotina diária.
Na prática, o T2 passou a semana inteira funcionando como um veículo elétrico nos deslocamentos urbanos e como um híbrido extremamente eficiente nos percursos rodoviários.

Nos deslocamentos entre São Paulo e Campinas, mantendo velocidade constante de 120 km/h, ar-condicionado ligado e a bateria estabilizada em torno de 25% de carga, o computador de bordo registrou até 14 km/l.
Nessa condição praticamente não havia recarga ativa da bateria nem utilização significativa dos motores elétricos, fazendo o sistema trabalhar de maneira muito semelhante à de um híbrido convencional. Considerando o porte do veículo e seus 2.110 kg em ordem de marcha, trata-se de um resultado bastante expressivo.
É possível acompanhar consumo médio e estado da bateria pelo quadro de instrumentos
E onde está o 4×4?
Existe apenas uma dúvida que permanece depois da convivência com o T2.
Seu desenho transmite claramente uma vocação para o fora de estrada e naturalmente cria expectativa pela existência de um sistema de tração integral.
A Jetour optou por lançar inicialmente apenas a versão 4×2. Durante o lançamento, a fabricante explicou que cerca de 70% dos compradores de suves com tração integral jamais utilizam esse recurso. O argumento faz sentido sob o ponto de vista comercial, mas será interessante observar como o mercado reagirá quando a aguardada versão 4×4 estiver disponível.

Prós & contras
Conclusão
Ao final da semana ficou claro que o Jetour T2 entrega muito mais do que seu visual robusto leva a imaginar. O conforto é excelente, a direção é muito bem calibrada, a suspensão mostra um raro equilíbrio entre maciez e controle da carroceria e o conjunto híbrido demonstra uma eficiência energética surpreendente para um suve de 2,1 toneladas.

O desenho do exterior do T2 continuará sendo o principal motivo para muitos consumidores entrarem numa concessionária Jetour. Mas será a convivência diária que mostrará onde realmente está o valor do projeto. Num segmento em que o estilo costuma falar mais alto que a engenharia, o T2 consegue reunir os dois. O visual desperta a curiosidade, mas é a competência do conjunto mecânico que convence.
GB
Ficha técnica do Jetour T2 Premium PHEV
Principais equipamentos de série – Jetour T2 Premium

