Poucas semanas depois da 24 Horas de Le Mans, o maior evento das provas de longa duração do automobilismo mundial, praticamente o mesmo grid desembarca em Interlagos para disputar a 6 Horas de São Paulo no próximo fim de semana.
Para quem acompanha o FIA World Endurance Championship (FIA-WEC) pela primeira vez, a cena pode causar estranheza. Na pista estarão lado a lado protótipos de aparência futurista e esportivos derivados de modelos produzidos em série, facilmente reconhecidos pelo autoentusiasta. À primeira vista parece uma única corrida, mas bastam algumas voltas para perceber que a realidade é bem diferente.

Na prática, o público acompanha duas corridas acontecendo ao mesmo tempo.
Essa é uma das características que tornam o FIA WEC um campeonato único. Hypercars e LMGT3 largam juntos, porém em pelotões separados, compartilham o mesmo circuito durante seis horas e enfrentam exatamente as mesmas condições de pista, mas disputam campeonatos independentes. Ao final da prova, dois pódios serão formados com os três melhores de cada categoria.
Essa convivência permanente entre carros de desempenho tão diferente faz do gerenciamento do tráfego uma das habilidades mais importantes para os pilotos. Em uma única volta de Interlagos, um Hypercar pode ultrapassar diversos LMGT3. Para quem assiste, parece uma simples ultrapassagem. Para os pilotos, entretanto, trata-se de uma manobra cuidadosamente planejada.
O piloto do protótipo precisa escolher o momento exato para atacar sem perder tempo, enquanto o piloto do GT deve manter uma trajetória previsível, evitando mudanças bruscas de direção. Nas provas de longa duração, previsibilidade vale mais do que gentileza.

Criado em 2012 pela FIA em parceria com o Automobile Club de l’Ouest (ACO), organizador da 24 Horas de Le Mans, o campeonato vive atualmente sua fase mais competitiva. Nesta temporada reúne 35 carros de 14 fabricantes, um cenário difícil de encontrar em qualquer outra categoria internacional. E o Brasil terá representantes nas duas divisões: Pipo Derani, que faz parte do programa da Genesis na Hypercar, e Augusto Farfus, piloto do Team WRT na LMGT3 com o BMW M4 GT3 Evo.
Brasileiros no grid de São Paulo
Hypercar: tecnologia desenvolvida para vencer
No topo do campeonato estão os Hypercars, protótipos concebidos exclusivamente para competição. Diferentemente dos LMGT3, eles não precisam guardar qualquer compromisso com um automóvel de produção, mas ainda preservam elementos de estilo que permitem identificar imediatamente a marca representada. Basta um rápido olhar para reconhecer um Ferrari, um Cadillac, um BMW ou um Aston Martin. Cada detalhe do projeto foi pensado para tornar o carro mais eficiente ao longo de centenas de quilômetros.

A potência máxima é limitada pelo regulamento a 500 kW (680 cv), independentemente da arquitetura escolhida por cada fabricante. É justamente aí que aparece uma das maiores riquezas técnicas da categoria. Ferrari utiliza um V-6 biturbo híbrido, Toyota mantém o V-6 híbrido desenvolvido ao longo de vários anos, Cadillac aposta num tradicional V-8 aspirado, enquanto a Aston Martin surpreende com um V-12 aspirado derivado do Valkyrie.
Soluções completamente diferentes convivem na mesma pista, produzindo desempenhos muito próximos. Essa liberdade técnica é justamente um dos fatores que fizeram tantos fabricantes aderirem ao campeonato.

Curiosamente, os 680 cv deixaram de ser o principal diferenciador desses carros. Com peso mínimo de 1.030 kg, relação peso-potência semelhante e desempenho equalizado pelo BoP (Balance of Performance, Equilíbrio de Desempenho), a diferença passou a estar na eficiência do conjunto. Aerodinâmica, gerenciamento da energia híbrida (quando for o caso), consumo de combustível, desgaste dos pneus e tempo gasto nos boxes fazem muito mais diferença do que alguns cavalos de potência a mais ou a menos.

É justamente na aerodinâmica que os Hypercars demonstram sua superioridade. A carroceria foi desenhada para produzir elevada força vertical sem gerar excesso de arrasto. Na prática, isso significa maior aderência nas curvas e frenagens muito mais eficientes. Em Interlagos, boa parte da vantagem sobre os LMGT3 aparece justamente nas saídas de curvas, onde os protótipos conseguem retomar velocidade com maior agilidade.
Um Hypercar é cerca de 10 a 15 segundos por volta mais rápido do que um LMGT3 em Interlagos, mesmo sem uma diferença de potência tão grande.

Os pneus fazem parte dessa equação. A Michelin é fornecedora exclusiva da categoria e possui três compostos slick homologados: Soft, Medium e Hard (macio, médio e duro); além do pneu para chuva. Entretanto, apenas dois compostos secos acompanham cada etapa do campeonato.
A escolha é definida semanas antes da prova, levando em consideração a abrasividade do asfalto, a temperatura ambiente e a energia transferida aos pneus pelo traçado.

Mais importante do que escolher o composto correto é saber administrá-lo. Cada carro recebe 12 pneus para treinos, 4 pneus para a Hyperpole que define as posições de largada e 18 para a corrida. Isso obriga engenheiros a planejarem a utilização dos pneus desde o primeiro treino. Muitas vezes vale mais a pena continuar com os mesmos pneus após uma parada para reabastecimento do que perder tempos trocando-os: pelo regulamento nada pode ser feito no carro enquanto este estiver sendo reabastecido. É por isso que nas provas de longa duração preservar pneus é tão importante quanto economizar combustível.
LMGT3: esportivos de rua levados ao limite
Se os Hypercars representam o pináculo da tecnologia aplicada às pistas, os LMGT3 estabelecem a ligação direta entre a competição e os automóveis encontrados nas ruas. Ferrari 296 Evo, Porsche 911 GT3R, Corvette Z06.R, Ford Mustang, BMW M4 Evo, Mercedes-AMG GT, McLaren 720S Evo, Lexus RC F e Aston Martin Vantage AMR são conhecidos do público, embora compartilhem muito pouco com os modelos vendidos nas concessionárias.

A semelhança praticamente termina na silhueta. O chassi recebe estrutura de segurança específica, a suspensão é totalmente redesenhada, o câmbio e diferencial têm relações específicas, os freios são dimensionados para uso extremo e a aerodinâmica transforma completamente o comportamento do carro. Os motores desenvolvem entre 500 e 600 cv, conforme o projeto de cada fabricante e os ajustes definidos pelo BoP, enquanto o peso mínimo é de 1.250 kg. O resultado são carros capazes de atingir 300 km/h, mas que preservam uma característica importante: continuam parecendo carros de produção acelerando no limite.

Outra diferença em relação à Hypercar está na formação das equipes. O regulamento exige que cada carro tenha obrigatoriamente um piloto classificado como Bronze pela FIA, normalmente um competidor amador de alto nível, dividindo o volante com pilotos profissionais. Isso faz com que a estratégia de utilização dos pilotos seja tão importante quanto o acerto do carro.

Nos pneus, a filosofia também muda. A Goodyear fornece exclusivamente e dispõe apenas do composto médio para piso seco, visto que o composto duro foi aposentado para 2026. E obviamente o pneu para chuva. A quantidade disponível é de 24 pneus para classificação e corrida de 6 horas, tornando a administração do desgaste igualmente decisiva. Nas corridas de 8 horas são 32 pneus e em Le Mans foram 60 pneus por carro.
A vitória depende do bom trabalho da equipe nos boxes
Muito além da velocidade
Quem acompanha uma prova do FIA WEC pela televisão normalmente presta atenção na velocidade dos carros nas retas. Entretanto, é nas curvas, nos boxes e na estratégia que as corridas costumam ser decididas. A velocidade máxima raramente define um vencedor. Muito mais importantes são a eficiência aerodinâmica, a capacidade de preservar pneus, o consumo de combustível, o tempo gasto em cada parada e a regularidade dos pilotos durante seis horas de competição.

É justamente essa combinação de engenharia, estratégia e trabalho de equipe que explica o excelente momento vivido pelo campeonato. Poucas categorias conseguem reunir tantos fabricantes, conceitos mecânicos tão diferentes e disputas tão equilibradas.

Quando a bandeira quadriculada for agitada em Interlagos, um Hypercar terá conquistado a vitória geral e um LMGT3 será o vencedor entre os GT. Para quem está chegando agora ao FIA WEC, basta guardar uma ideia: não existe apenas uma corrida acontecendo na pista. Existem duas, convivendo no mesmo espaço e transformando cada volta em um exercício permanente de velocidade, estratégia e engenharia.
GB
HYPERCAR x LMGT3 EM NÚMEROS
Hypercar
| Carros | 17 |
| Fabricantes | 8 |
| Origem | Protótipos de competição |
| Potência máxima | 680 cv (500 kW) |
| Peso mínimo | 1.030 kg |
| Velocidade máxima | Até 330 km/h |
| Pneus | Michelin |
| Compostos slick homologados | 3 (Soft, Medium e Hard) |
| Compostos levados à etapa | 2 |
| Treinos livres | 12 pneus |
| Hyperpole | 4 pneus |
| Corrida (6 horas) | 18 pneus |
LMGT3
| Carros | 18 |
| Fabricantes | 9 |
| Origem | Derivados de modelos de produção |
| Potência | 500–600 cv* |
| Peso mínimo | 1.250 kg |
| Velocidade máxima | Até 300 km/h |
| Pneus | Goodyear |
| Compostos slick homologados | 2 |
| Compostos levados à etapa | 1 |
| Treinos livres | 12 pneus |
| Hyperpole | 4 pneus |
| Corrida (6 horas) | 18 pneus |
* A potência dos LMGT3 varia conforme o projeto de cada fabricante e os ajustes de Balance of Performance (BoP) definidos para cada etapa do campeonato.

