Eu chamo o Geely EX2 de garoto simpático. Ele tem esse jeito. Não é um carro intimidante, não tenta parecer maior do que é, não vem com aquela cara brava que virou quase obrigação em tantos modelos atuais. Ele transmite algo bom, alegre, principalmente nessa cor Pistachio, e essa simpatia aparece também em outros elementos do carro.
Na China, o nome dele é Xingyuan, algo como desejo sobre uma estrela. É uma curiosidade interessante, mas, olhando para o carro parado, eu continuo achando que garoto simpático combina mais com ele. O desenho é orgânico, arredondado, de linhas suaves, sem cantos vivos, com uma presença mais acolhedora. É um carro que parece convidar, não impor.
O EX2 tem motor traseiro e tração traseira. Essa é uma das características mais interessantes do carro. Não porque ele seja esportivo. São 116 cv e 15,3 m·kgf, portanto não estamos falando de um carro de desempenho alto. Mas a arquitetura faz diferença. Com a tração atrás, as rodas dianteiras ficam livres para cuidar apenas da direção. Isso melhora o diâmetro de giro, ajuda nas manobras e também permite o porta-malas dianteiro de 70 litros, que é muito útil num carro compacto.
A tração traseira também traz um toque autoentusiasta. O EX2 não é um esportivo, mas é um elétrico que pode agradar a quem gosta de dirigir. Ainda existe muito autoentusiasta raiz que torce o nariz para carro elétrico. É uma pena, porque não sabe o que está perdendo. Um elétrico bem acertado tem silêncio, resposta imediata, centro de gravidade baixo e uma condução muito própria. O EX2 mostra isso de um jeito simples, sem querer ser o que não é.

A direção eletroassistida é um dos pontos altos do carro. O peso é muito bom, a calibração é agradável e há uma sensação positiva ao volante. Parte disso vem justamente da tração traseira, porque a direção não tem os compromissos de um carro com tração dianteira. Em curvas mais fechadas, quando se insiste um pouco mais, ele ainda sai um pouco de frente antes de qualquer reação da traseira. A Geely foi conservadora, como deve ser em um carro urbano e familiar, mas deixou prazer suficiente para quem presta atenção ao que o carro está fazendo.
A suspensão também trabalha bem. O EX2 tem suspensão traseira independente multibraço, solução importante para acomodar o conjunto de força atrás e também para melhorar conforto e comportamento. Ele passa por lombadas, remendos e irregularidades com boa suavidade, sem barulho de suspensão e sem aquela sensação de carro simples demais. Os pneus 205/60 R16 ajudam bastante. O perfil 60 é um acerto importante, porque dá conforto real, algo que muitos carros perderam com rodas grandes e pneus de perfil baixo.
O isolamento acústico é muito bom. Ele não usa vidros duplos, mas o silêncio interno chama atenção. E silêncio em carro elétrico é parte da experiência. Para quem gosta de motor girando alto, escapamento, vibração e estardalhaço mecânico, há outro tipo de prazer. Eu também gosto disso. Mas gosto muito do silêncio. O silêncio traz paz de espírito, diminui o cansaço e combina com a proposta deste carro.

O EX2 é compacto por fora, mas muito bem aproveitado por dentro. Ele mede 4.135 mn de comprimento, tem 2.650 mm entre-eixos, 1.805 mm de largura (2.005 mm contando os espelhos) e 1.580 mm de altura. Não chega a ser um suve em altura, mas tem uma postura um pouco mais avantajada. O bom entre-eixos, as rodas próximas das extremidades e a arquitetura elétrica dedicada fazem diferença no espaço interno.
Esse é um ponto importante dos carros elétricos que nascem elétricos. Quando o projeto não precisa acomodar motor a combustão, transmissão, escapamento e túnel central, o espaço aparece. Os chineses costumam divulgar muito a relação entre tamanho externo e aproveitamento interno, e faz sentido. No EX2, o espaço para quem vai atrás surpreende. Eu comparei com um T-Cross que estava ao lado na garagem e a sensação foi de que a traseira do Geely é mais ampla.
O banco traseiro tem bom espaço para pernas, boa largura e assoalho plano. Há saída de ar, entrada USB e bolsos no dorso dos encostos dos bancos dianteiros. Não tem descansa-braço central, e num carro desse porte não faz tanta falta. O mais interessante é o compartimento sob o banco traseiro, grande o suficiente para acomodar bolsas e objetos, quase como aquele espaço embaixo do banco da frente no avião.

O EX2 pode ser um carro muito bom para aplicativo. Não sei se todo motorista considera o conforto do passageiro como fator de decisão, mas deveria. Quem vai atrás é cliente. E há carros que, quando aparecem no aplicativo, dão vontade de cancelar a corrida. No EX2, a experiência no banco traseiro é bem melhor do que o tamanho externo sugere.
Na frente, o carro também passa boa impressão. O painel tem desenho orgânico, com formas suaves, e a tela central de 14,6 polegadas fica integrada ao painel. Isso é muito melhor do que aquele tablet simplesmente colocado na frente do motorista. O quadro de instrumentos digital de 8,8 polegadas é simples, mas bem posicionado e funcional.

O desenho do painel tem uma divisão entre motorista e passageiro que me lembrou, guardadas as proporções, os Corvette antigos. Principalmente pela ideia de envolver os ocupantes, com um desenho simétrico e mais acolhedor. Quem gosta de carro esportivo antigo vai entender a referência. O EX2 não tenta ser esportivo por dentro, mas tem um interior agradável, menos intrusivo e menos frio.
Os detalhes de acabamento reforçam esse caráter urbano. Nas portas e no painel há desenhos de prédios iluminados, como uma cidade à noite. É um recurso simples, mas simpático. O carro inteiro segue essa ideia. Ele não tenta vender luxo. O acabamento tem plástico duro em algumas partes, como é esperado em um carro dessa proposta, mas onde se apoia o braço o material é macio e o conjunto parece bem montado.
A posição de dirigir é boa. O volante tem diâmetro relativamente pequeno, tem um segmento levemente achatado e comandos muito fáceis de usar. De um lado ficam áudio e assistente por voz. Do outro, o controle de cruzeiro adaptativo. Tudo simples, direto, sem complicação. Esse é um mérito do EX2. Ele é tecnológico, mas não intimida quem tem receio de usar tecnologia.

A versão Max traz um bom pacote de equipamentos. Tem banco elétrico para o motorista, carregador por indução, sistema de som com seis alto-falantes, porta-luvas em formato de gaveta de 10 litros, câmera 540 graus, controle de cruzeiro adaptativo, frenagem autônoma de emergência, alerta de saída de faixa e farol alto inteligente. A câmera 540 graus é excelente para manobras e ajuda muito no uso urbano.
O sistema de assistência ao motorista funciona bem, mas o aviso de saída de faixa pode aparecer demais em estradas sinuosas. No vídeo, ele ficou evidente porque eu estava em uma estradinha mais travada, com muitas curvas. É um ponto de calibração. Não compromete o carro, mas poderia ser menos insistente.
O sistema multimídia usa software Flyme Auto, da Meizu, empresa que faz parte do grupo Geely. A tela é boa, o sistema é rápido e fácil de usar. O som também surpreende para um carro dessa faixa de preço. Não é um sistema sofisticado, mas tem boa regulagem, boa presença e entrega mais do que o esperado. O problema é que Android Auto e Apple CarPlay ainda dependem de cabo ou de solução por espelhamento. Em um carro elétrico, urbano e tecnológico, isso precisa ser resolvido.

A bateria é LFP (fosfato de ferro e lítio) de 39,4 kW·h, e o alcance Inmetro é de 289 km com bateia totalmente carregada. Para uso urbano, é suficiente. Para pequenas viagens, também funciona, desde que haja planejamento. O consumo é muito bom. Em uso normal, dá para ficar abaixo de 7,7 kW·h/km (ou 13 kW·h/100 km), o que é excelente. Rodando com atenção à eficiência, é possível passar do alcance homologado. E esse é um prazer próprio de elétrico: dirigir bem também significa gastar pouca energia.
Há três modos de condução: Eco, Comfort e Sport. O Comfort combina muito bem com o carro, porque mantém a suavidade. O Eco é interessante para quem gosta de dirigir com foco em eficiência. O Sport deixa o EX2 mais vivaz e mostra melhor a vantagem da tração traseira. Não transforma o carro em esportivo, mas deixa a condução mais viva.
Por fora, o EX2 tem proporções corretas e um desenho honesto. A versão Max traz o teto preto, criando o efeito bitom. As rodas têm desenho inspirado em trevos de quatro folhas, segundo a Geely, e essa referência dá para perceber. Os faróis seriam inspirados em penas de aves, referência mais abstrata, mas coerente com a proposta orgânica do carro. As maçanetas embutidas ajudam na limpeza visual, e as estrelinhas na coluna C são um detalhe simpático, ligado ao nome chinês Xingyuan.

A frente tem uma linha que quase parece um sorriso. A traseira segue a mesma linguagem, sem exagero. É um carro bem-acabado, bem feito e com personalidade própria. Poderia ter mais opções de cores. Um carro assim pede cores mais alegres. O verde Pistachio combina muito com ele.
O porta-malas traseiro tem 375 litros e chega a 1.320 litros com o banco rebatido. É um bom volume para o tamanho do carro. A única coisa que incomodou foi a solução da tampa interna, com batentes que se soltam com facilidade. Poderia ser melhor. Não é nada grave, mas é aquele detalhe simples que a Geely pode corrigir rapidamente.
Na frente, o porta-malas de 70 litros é uma ótima solução. Serve para mochila, compras, cabos de recarga e pequenos volumes. Em um carro urbano, isso facilita a vida. Também gostei do cuidado no acabamento do cofre dianteiro e das molas a gás do capô. São pequenos sinais de cuidado que dão prazer de ver.

O EX2 também é importante para a Geely porque faz parte da nova fase global da fabricante. Junto com os EX5, ele representa uma linha de produtos feita para agradar fora da China, com desenho, tecnologia e acerto pensados para diferentes mercados. Na China, como Xingyuan, foi o carro mais vendido do país em 2025, com quase 466 mil unidades. É um volume muito forte, que ajuda em escala, peças, aprendizado de campo e evolução do produto.
No Brasil, ele chega em duas versões, Pro e Max. A diferença de preço entre elas precisa ser analisada pelo pacote. A Max adiciona itens que fazem sentido no uso diário, como câmera 540 graus, banco elétrico, carregador por indução, sistema de som melhor e os assistentes de condução. Eu não pensaria duas vezes. Ficaria com a Max.
Entre os concorrentes, o mais próximo é o BYD Dolphin GS. Também dá para considerar Dolphin Mini, GWM Ora 03 e Chevrolet Spark, cada um com sua proposta. O EX2, porém, tem uma combinação muito própria: tamanho compacto, bom espaço interno, tração traseira, suspensão traseira multibraço, conforto, eficiência e uma simpatia visual que o diferencia.
Depois de uma manhã e começo de tarde com o Geely EX2, a impressão foi muito positiva. Há dois pontos a corrigir: Android Auto e Apple CarPlay sem fio, e a solução simples da tampa do porta-malas. Fora isso, gostei bastante do carro.
O EX2 merece dois selos AE/Rhodar. O primeiro pelo uso urbano e familiar. Ele tem tamanho externo compacto, ótimo espaço interno, câmera 540 graus, bom conforto, silêncio e eficiência. Para uma família urbana, faz muito sentido. Com planejamento, também encara pequenas viagens sem drama.
O segundo selo Rhodar vem pelo prazer ao volante. O EX2 tem tração traseira, direção muito bem calibrada e uma condução mais interessante do que seus 116 cv sugerem. Não é um carro esportivo, mas entrega prazer para o autoentusiasta que aceita olhar para o elétrico com atenção.
No fim, ele também reforça uma causa que eu proponho: Save the hatchbacks. Salve os hatchbacks. Num mercado que correu demais para os suves, o EX2 mostra como um hatch bem projetado ainda pode ser inteligente, espaçoso, eficiente e gostoso de dirigir.
O garoto simpático acertou.
A volta do Clio com essa arqutetura seria interessante! Fica a dica para a Renault!
PM
| FICHA TÉCNICA DO GEELY EX2 | |
| MOTOR E DESEMPENHO | |
| Tração | Traseira |
| Motor elétrico | Síncrono de ímã permanente — arquitetura “11 em 1” |
| Potência máxima (cv) | 116 |
| Torque máximo (m·kgf) | 15,3 |
| Velocidade máxima (km/h) | 140 |
| Aceleração 0–100 km/h (s) | 10,2 |
| Modos de condução | Eco / Comfort / Sport |
| Freio regenerativo (níveis de inensidade) | Très |
| Bateria & Recarga | |
| Tipo de bateria | Fosfato de ferro e lítio (LFP) |
| Capacidade (kW·h) | 39,4 |
| Alcance (km Inmetro) | 289 |
| Potência de carga (kW, AC) | 6,6 |
| Potência de carga (kW, DC) | 70 |
| Tempo carga lenta AC (h,10~100%) | 6,5 |
| Tempo carga rápida DC (min, 30~80%) | 21 |
| V2L (Vehicle to Load, KW) | 3.300 |
| Agendamento remoto | Com App Geely |
| SUSPENSÃO,DIREÇÃO E FREIOS | |
| Suspensão dianteira | Independente McPherson |
| Suspensão traseira | Independente multibraço |
| Direção | Pinhão a cremalheira eletroassistida |
| Diâmetro mínimo de giro (m) | 9,9 |
| Freios | |
| dianteiros | Disco ventilado |
| Traseiros | Disco |
| Freio de estacionamento | Eletromecânico + aplicação automática nas paradas |
| DIMENSÕES (mm) | |
| Comprimento | 4.135 |
| Largura sem/com espelhos (mm) | 1.805 / 2.005 |
| Altura | 1.580 |
| Distância entre-eixos | 2.650 |
| Altura mínima do solo | 160 |
| CAPACIDADES & PESOS | |
| Porta-malas traseiro (L) | 375 / 1.320 com banco traseiro rebatido |
| Porta-malas dianteiro (L) | 70 L |
| Peso em ordem de marcha (kg) | 1.300 |
| RODAS & PNEUS | |
| Rodas | Liga de alumínio, 15″ ou 16″ |
| Pneus | 205/65 R15 ou 205/60 R16 |
| PRINCIPAIS EQUIPAMENTOS DO GELLY EX2 | |
| SEGURANÇA E ASSISTÈNCIA AO MOTORISTA | |
| Bolsas infláveis (6, 2 dianteiras e 4 de cortina) | |
| ABS e distribuição eletrônca das forças de frenagem | |
| Assistência de partida em aclives | |
| Câmera 540º | |
| Controle de estabilidade e tração | |
| Engates Isofix e pontos de fixação superior para dois bancos infantis | |
| Monitoramento de pressão dos pneus | |
| Permanência na faixa | |
| Sensores de ré (2) | |
| INTERIOR & EQUIPAMENTOS | |
| 2x USB dianteiras (A + C) e 1x USB traseira (A); carregador por indução | |
| Bancos e acabamentos premium (versão Pro Max) | |
| Carregador de bateria de telefine celular por indução | |
| Central multimídia Flyme Auto 14,6? | |
| Conectividade Carbitlink, Bluetooth, App Geely (controle remoto) | |
| Luz ambiente dinâmica (256 cores) na versão Pro Max | |
| Quadro de instrumento digital 8,8? | |

