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Home Portal AE ELETROentusiastas

iCAUR CHEGA AO BRASIL EM 2027 E APOSTA NO DESIGN CLÁSSICO PARA SE DESTACAR

identicon por Paulo Manzano
06/08/2026
em ELETROentusiastas, Front Page, Luxo, PM, Substance
Fotos: autor

Fotos: autor



 

 



Durante muitos anos, o desenho dos utilitários foi consequência direta da função. Capô alto, para-brisa quase vertical, carroceria de linhas retas e grandes áreas envidraçadas eram soluções técnicas antes de se tornarem uma identidade visual. Com o tempo, boa parte dos suves passou a privilegiar formas mais arredondadas, aerodinâmicas e inspiradas em automóveis de passeio.

A iCAUR nasceu seguindo outro caminho.

Sua chegada também representa outra tendência interessante da indústria chinesa: a multiplicação de marcas dentro de um mesmo grupo. O objetivo é criar identidades muito específicas para diferentes públicos, permitindo que cada marca desenvolva uma personalidade própria. A estratégia faz sentido sob o ponto de vista de posicionamento, mas também aumenta a complexidade da operação e pode dificultar o entendimento do consumidor sobre quem fabrica o quê.

Dependendo da estrutura adotada, até concessionárias do mesmo grupo passam a disputar clientes entre si. A GWM vem mostrando um caminho interessante ao integrar Haval, Tank, Ora, Poer e Wey sob uma única operação. Resta saber se a Chery seguirá uma lógica semelhante ou se manterá redes independentes para cada marca. Minha observação fica para as marcas premium dessas empresas que devem sempre ter tratamento diferenciado e mais foco no cliente.

No caso da iCAUR, a proposta gira em torno de um conceito bastante claro: recuperar a linguagem clássica dos utilitários e combiná-la com propulsão eletrificada, tecnologia e possibilidades de personalização.

O primeiro modelo apresentado no Brasil foi o V27, um suve equipado com sistema elétrico de alcance estendido (REEV). Hoje é o modelo topo de linha da marca. Foi muito acertado começar por ele. Isso já sinaliza que a marca não vai buscar a base do mercado. Mas mais importante do que o próprio veículo foi o posicionamento adotado pela marca. A empresa quer ocupar um segmento formado por suves de desenho clássico, carrocerias mais quadradas, aparência robusta e forte apelo emocional. E de certa forma, mais premium.

A estratégia acompanha uma mudança do mercado. Segundo dados apresentados pela empresa, os suves já representam 55% das vendas brasileiras. Dentro desse universo, os modelos de linhas retas deixaram de ser exclusivos de veículos tradicionais como Defender, Classe G ou Wrangler e passaram a despertar o interesse de praticamente todas as fabricantes.

Em um dos slides da apresentação, a iCAUR colocou lado a lado Jeep, Land Rover, Mercedes-Benz, Ford, Toyota, Tank, Jetour e diversos fabricantes chineses. A intenção não era comparar produtos equivalentes, mas mostrar que o chamado suve clássico deixou de ser um nicho e começa a se consolidar como uma categoria própria. Para mim já está mais do que na hora de termos subcategorias de suves. Começando pelos pseudo-suves, como muitos hatches do mercado.

A chegada da iCAUR faz parte de uma estratégia muito mais ampla da Chery. O grupo pretende atuar no Brasil como uma House of Brands (Casa de Marcas), em que cada marca ocupa um território específico. A Omoda continuará ligada ao design e à tecnologia. A Jaecoo ocupará um espaço mais sofisticado, voltado aos suves. A Lepas falará com um consumidor interessado em elegância e qualidade de vida. Já a iCAUR ficará responsável pelos utilitários eletrificados de inspiração clássica. O planejamento estratégico também contempla Exeed e faz referência às marcas Freelander e Luxeed, embora seus planos para o mercado brasileiro ainda não tenham sido detalhados.

Toda a apresentação da iCAUR foi construída sobre três pilares: design clássico, tecnologia pensada e ecossistema de acessórios.

O NOME DA MARCA

Na China, a marca chama-se simplesmente iCar. A grafia iCAUR foi adotada exclusivamente para os mercados internacionais por questões de registro de marca, já que o nome iCar apresenta potenciais conflitos em diversos países, principalmente por causa de registros relacionados ao antigo projeto automobilístico da Apple, conhecido como Apple iCar. A solução evita problemas jurídicos e facilita a expansão global da marca, mas levanta uma questão do ponto de vista de marketing. Enquanto iCar é um nome simples, intuitivo e imediatamente associado ao automóvel, iCAUR perde essa naturalidade e exige uma explicação.

O primeiro pilar da marca é o mais evidente. A empresa apresentou uma linha do tempo que começava no Willys, passava por Jeep, Land Rover, Chevrolet e Mercedes-Benz até chegar ao V27. Muita gente poderá enxergar nisso uma simples cópia de elementos conhecidos. Na prática, a história dos utilitários sempre foi feita de evoluções sobre soluções consagradas. Depois de modelos como Land Cruiser, Land Rover Series e Wagoneer, praticamente todos os fabricantes incorporaram, em maior ou menor grau, características que se mostraram eficientes tanto do ponto de vista funcional quanto estético. Podemos achar que são apenas cópias. Mas se olharmos outros segmentos sempre foi assim. Boas ideias servem de “inspiração” para novos produtos. Mas na verdade alguns são cópias mesmo.

O segundo pilar também merece atenção. Enquanto boa parte das fabricantes chinesas concentra sua comunicação em telas, inteligência artificial e conectividade, a iCAUR preferiu falar de arquitetura mecânica, distribuição de torque, tração integral e engenharia. É curioso perceber uma fabricante chinesa colocar esses aspectos no centro da apresentação justamente no momento em que grande parte da indústria parece disputar quem oferece a maior tela, o assistente virtual mais sofisticado ou o processador mais potente.

O terceiro pilar talvez seja o mais ambicioso. A marca pretende criar um verdadeiro ecossistema de acessórios, com pontos de fixação incorporados ao projeto do veículo para instalação de suportes, compartimentos, equipamentos de camping e diversos outros itens. A ideia é excelente. Minha experiência, porém, recomenda cautela. Toyota, MINI, Land Rover e outras fabricantes também apostaram fortemente nesse conceito, mas os acessórios quase sempre acabavam caros demais para gerar o volume esperado. A vantagem da iCAUR pode estar justamente na origem chinesa e na possibilidade de oferecer uma relação custo-benefício mais competitiva para os itens disponíveis.

O V27 resume bem essa filosofia.

Seu sistema REEV (Range Extended Electric Vehicle, ou veículo elétrico com extensor de alcance) utiliza motores elétricos para movimentar as rodas, um motor nas versões 4×2 e dois motores nas versões 4×4, enquanto o motor a combustão funciona exclusivamente para acionar um gerador de energia para a bateria. Na prática, o motorista dirige um veículo elétrico, mas não depende exclusivamente de pontos de recarga.

É uma arquitetura mais complexa do que a de um elétrico convencional, mas praticamente elimina a principal preocupação de muitos consumidores: o alcance.

A marca também apresentou o sistema i-AWD, uma tração integral inteligente capaz de distribuir automaticamente o torque entre os eixos e adaptar o veículo a diferentes tipos de piso. Pela arquitetura apresentada, o V27 parece ter sido concebido para ir além da aparência aventureira. Se essa impressão será confirmada na prática, só um teste completo poderá responder.

Curiosamente, a comunicação da empresa evita falar em trilhas extremas. O foco está em situações muito mais próximas da realidade brasileira: praia, serra, estradas de terra, camping e atividades ao ar livre.

Visualmente, o V27 impressiona. Tem dimensões próximas às de um Land Rover Defender, um desenho muito bem resolvido e um interior de padrão elevado. As especificações divulgadas também chamam atenção. Sem dirigi-lo, ainda é cedo para qualquer conclusão, mas a impressão inicial é positiva. Pela arquitetura apresentada, parece haver um projeto mais voltado ao uso severo do que aquele adotado pelos Jetour T1 e T2. A confirmação, naturalmente, dependerá dos testes dinâmicos.

Outro detalhe que me chamou atenção foram as rodas de 21 polegadas com pneus 265/45. Para um veículo com proposta aventureira, eu preferiria rodas menores e pneus de perfil mais alto, capazes de oferecer maior proteção e desempenho fora do asfalto. Mas essa é uma análise técnica. O mercado frequentemente demonstra que emoção e estilo pesam tanto quanto a lógica. Basta observar quantos Defender e Jeep passam a vida inteira sem nunca sair do asfalto.

Existe também um aspecto estratégico interessante. Durante alguns anos, parecia que boa parte das fabricantes chinesas caminhava para uma mesma linguagem: linhas futuristas, superfícies limpas, interiores minimalistas e uma comunicação centrada em telas, inteligência artificial e conectividade.

A iCAUR faz praticamente o movimento inverso. Resgata formas conhecidas, aposta em personalidade e procura colocar o automóvel novamente como objeto de desejo antes de transformá-lo em uma vitrine de tecnologia.

Ainda é cedo para saber se essa estratégia será suficiente para construir uma marca forte em um segmento que promete crescer rapidamente nos próximos anos. Mas existe um mérito evidente: a iCAUR entendeu que, para muita gente, a relação com um automóvel continua começando pela emoção que ele desperta.

A CHERY DESENHA SUA CASA DE MARCAS

O lançamento da iCAUR foi apenas uma parte da apresentação. Na prática, a Chery revelou um plano de longo prazo para sua operação brasileira, baseado no conceito de Casa de Marcas, em que cada marca passa a ocupar um território próprio, com identidade, posicionamento e público bem definidos.

Hoje, a operação brasileira já conta com Omoda e Jaecoo. A Omoda continuará associada ao design, à tecnologia e aos veículos eletrificados de perfil mais urbano. A Jaecoo ocupará um espaço mais sofisticado, voltado aos suves e ao consumidor que busca um visual robusto aliado à maior versatilidade de uso.

A partir de 2027, chegarão duas novas marcas. A iCAUR ficará responsável pelos utilitários eletrificados de desenho clássico, combinando aventura, personalização e novas tecnologias de propulsão. A Lepas seguirá um caminho completamente diferente. Inspirada na elegância e na agilidade dos felinos, terá como foco consumidores que valorizam design refinado, conforto, qualidade de vida e um estilo de vida mais sofisticado. A marca pretende ocupar um espaço próprio, sem disputar diretamente o território da iCAUR.

Na etapa seguinte, prevista para 2028, a Chery pretende ampliar sua presença no segmento premium com a Exeed. Durante a apresentação também apareceram as marcas Luxeed e Freelander, indicando que elas fazem parte da estratégia internacional do grupo. Ainda não foi explicado, porém, como essas operações serão estruturadas no Brasil.

PM

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