Durante boa parte da minha vida profissional na indústria automobilística, vi muitos carros de teste serem destruídos ao final de seu ciclo de desenvolvimento. Eram veículos que haviam cumprido uma função essencial para a engenharia — testes de durabilidade, desenvolvimento, calibração e validação — mas que, depois disso, deixavam de ser considerados veículos comercializáveis. O destino era, muitas vezes, a destruição.
Por isso, vejo com bastante interesse o trabalho que a Stellantis vem desenvolvendo com o Centro de Desmontagem Veicular (CDV) em Osasco, SP. Um ano depois de sua inauguração, o centro já desmontou 1.150 veículos, recuperou mais de 20 mil peças para comercialização e vendeu mais de 11 mil componentes reutilizados. Cerca de 862 toneladas de materiais também tiveram destinação adequada.
O interessante aqui não é simplesmente reciclar um automóvel. É mudar a maneira de enxergá-lo quando ele deixa de cumprir sua função original.

Um veículo pode ter sido condenado por uma seguradora, mas isso não significa que todos os seus componentes tenham chegado ao fim da vida. Uma roda, um componente de suspensão, uma peça de acabamento, um módulo eletrônico ou mesmo componentes mecânicos podem continuar perfeitamente utilizáveis. A questão é separar o que ainda tem valor, verificar sua condição e garantir procedência e rastreabilidade.
É justamente esse processo que torna a iniciativa diferente do tradicional mercado de peças usadas. A Circular Auto Peças trabalha com reuso, reparo, remanufatura e reciclagem, fazendo com que cada componente tenha um destino compatível com sua condição. O resultado é uma espécie de segunda cadeia de produção, na qual aquilo que seria descartado volta a gerar valor.

E isso pode ser particularmente interessante para a própria indústria. Penso novamente nos carros de teste que acompanhei durante minha carreira. Muitos deles eram veículos praticamente novos quando deixavam de ser necessários para a engenharia. Transformá-los em fonte de componentes reaproveitáveis significa preservar parte do valor que ainda existe naquele automóvel, em vez de simplesmente destruí-lo.
Há também uma consequência econômica importante. Para o proprietário de um carro mais antigo, uma peça original reutilizada e devidamente inspecionada pode representar uma alternativa mais acessível à compra de um componente novo. Para o fabricante, cria-se um produto a mais para o mercado de pós-venda. E para a indústria como um todo, reduz-se a necessidade de extrair matéria-prima para fabricar novamente aquilo que ainda pode ser utilizado.
A Stellantis informa que o reaproveitamento de componentes pode reduzir em até 80% o consumo de matérias-primas e em até 50% as emissões de CO2 em comparação com peças novas equivalentes. O CDV de Osasco tem capacidade para desmontar até 8 mil veículos por ano, mostrando que a operação ainda está longe de atingir seu potencial.

Mais do que uma iniciativa ambiental, portanto, vejo a Circular Autopeças como uma evolução na própria lógica da indústria automobilística. E as peças podem ser compradas através das plataformas de comercio eletrônico (Mercado Livre e Shopee) além da plataforma própria e loja física em Osasco.
Durante décadas, aprendemos a fabricar carros cada vez melhores. Agora estamos começando a aprender também que, quando um carro chega ao fim, nem tudo o que existe nele precisa chegar junto.

GB

