A frase do título, retirada da letra de “Como nossos pais”, escrita por Belchior em 1976 e eternizada na voz de Elis Regina, define muito bem o efeito Kimi Antonelli na F-1 e particularmente na Itália. Até a semana passada a última vitória de um italiano no GP da Itália tinha acontecido em 1966, quando Ludovico Scarfiotti liderou a dobradinha da Ferrari, consumada com o segundo lugar do inglês Mike Parkes. No último domingo o jovem piloto nascido em Bolonha aos 25 de agosto de 2006 apôs fim a esse tabu de uma forma dolorosa para os fanáticos tifosi da Scuderia de Maranello: depois de largar na 19ª posição no grid, Antonelli assumiu a ponta a 3 voltas do final, superando seu companheiro de equipe, que saiu duplamente derrotado. Não bastasse tudo isso, na última das 53 vezes o circuito de 5,793 km, localizado nos arredores de Milão, a 57 km, fez a melhor volta da prova: 1’23”504.

Tamanha exibição de gala foi celebrada com a torcida invadindo a pista e entoado o hino nacional da Itália executado quando Antonelli, Russell e Max Verstappen, os três primeiros colocados, nessa ordem, subiram ao pódio.

A cena foi novo capítulo de significado marcante nesse domingo 6 de setembro. Primeiro, Kimi arrasou novamente o inglês George Russell, cada vez mais predestinado a viver como um segundo piloto de primeira qualidade. Segundo, a forma alegre e descontraída como Verstappen se dirigiu ao jovem italiano revela o respeito de um tetracampeão consagrado frente a uma estrela em franca ascensão.

Com dez etapas ainda por serem realizadas este ano, os 66 pontos de vantagem de Antonelli sobre Russell (267 a 201), não permitem cravar que o título de 2026 será o primeiro do jovem italiano. Pelo andar das velozes carruagens alemãs, porém, será difícil que ao final da temporada essa ordem seja invertida. Mas como o próprio Antonelli demonstrou em Monza, o novo sempre vem.
Ferrari tipicamente Ferrari
Os fanáticos torcedores italianos eram maioria absoluta nas arquibancadas do autódromo construído no Parco Reale di Monza, uma generosa área verde nos subúrbios da capital industrial da Itália. Se chegam dispostos a torcer pela Ferrari, não demorou muito para enxergarem a realidade da F-1 2026: Mercedes dominante e Ferrari decepcionante.

Logo após a largada Charles Leclerc e Lewis Hamilton se estranharam na primeira chicane, manobra que foçou o inglês a sair da pista e perde inúmeras posições. Poucas voltas depois o monegasco perdeu o controle do seu carro ao percorrer a mítica curva Parabólica, incidente que forçou a interrupção da prova para retirar o carro das danificadas barreiras de proteção. Leclerc não sofreu danos físicos, mas não se pode dizer o mesmo sobre seu estado mental.

Piloto rápido, porém inconstante, o monegasco é uma aposta dupla da Ferrari e do francês Fred Vasseur, atual chefão do time de Maranello. Ocorre que a convivência entre Leclerc e Hamilton é um fato consumado, agravado pelas estratégias praticadas durante as corridas. O heptacampeão (2014/15/17/18/19/20) trabalha de maneira mais planejada, algo que na temporada passada permitiu descobrir discrepâncias entre os resultados mostrados no simulador da equipe os obtidos na pista. O monegasco correspondeu à aposta da Ferrari vencendo o campeonato de F-3 de 2016 — ano em que foi aceito na Academia Ferrari) e o de F-2 em 2017. A partir de então foram 176 largadas, 21 delas na Sauber ainda cliente dos motores italianos. Esses números incluem três vitórias em 2022, outro tanto em 2024, 27 pole positions e 52 pódios. Índices que impressionam, mas não condizentes a quem é tratado como futuro campeão mundial.
O resultado completo e todas as decisões dos comissários técnicos e desportivos do GP da Itália você encontra aqui.
WG
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