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Home Portal AE ELETROentusiastas

QUESTIONANDO O CAMINHO DA ELETRIFICAÇÃO

AO DEFENDER UMA RENAULT MAIS RÁPIDA, GLOBAL E COMPETITIVA, FRANÇOIS PROVOST APONTA O QUE A INDÚSTRIA EUROPEIA PODE APRENDER COM A CHINA E POR QUE OS AUTOMÓVEIS ELÉTRICOS PRECISAM FICAR MAIS ACESSÍVEIS E COMO PARCERIAS ESTRATÉGICAS PODEM AJUDAR A TRANSFORMAR ESSES DESAFIOS EM OPORTUNIDADES

identicon por Paulo Manzano
14/09/2026
em ELETROentusiastas, Front Page, Notícias, Opinião, PM, Substance
Renault 5 BEV, um sucesso da Renault (foto: divulgação Renault)

Renault 5 BEV, um sucesso da Renault (foto: divulgação Renault)



 

 



A indústria automobilística europeia começa a dar sinais de que a discussão sobre a eletrificação entrou em uma nova fase. Não porque alguém esteja defendendo a permanência dos motores a combustão, mas porque cresce a preocupação com os efeitos que uma transição excessivamente acelerada pode produzir sobre a própria indústria europeia já que estamos observando demissões em massas em vários fabricantes.

Essa percepção ficou evidente em uma entrevista recente de François Provost, executivo-chefe do Renault Group, à CNBC. Em determinado momento, ele fez uma afirmação importante:

“Vejo a Europa organizando o declínio de sua própria indústria automobilística.”

A frase chama atenção pela contundência, mas o restante da entrevista mostra que ela não representa uma crítica ao automóvel elétrico. Provost reconhece a eletrificação como o caminho da indústria. O que ele questiona é a forma como essa transição vem sendo conduzida.

“O carro elétrico é algo positivo, mas não devemos penalizar, em primeiro lugar, os fabricantes europeus.”

Esse ponto merece atenção. Há poucos anos discutíamos se o futuro seria elétrico ou não. Hoje essa pergunta praticamente deixou de existir. Os investimentos já foram feitos, novas plataformas estão sendo desenvolvidas e praticamente todos os grandes fabricantes possuem uma estratégia consistente para automóveis elétricos. O debate mudou de natureza. Ele deixou de ser tecnológico e passou a ser industrial.

Provost defende duas medidas objetivas. A primeira é uma maior flexibilidade nas metas de eletrificação. A segunda é um período de dez anos de estabilidade regulatória, permitindo que os fabricantes concentrem recursos naquilo que realmente agrega valor ao consumidor: desenvolver produtos melhores, reduzir custos e ampliar o acesso ao automóvel.

É um argumento interessante. Durante décadas, a indústria europeia construiu sua liderança combinando engenharia, inovação e escala de produção. Hoje, uma parcela significativa dos investimentos é consumida pela adaptação constante a novas exigências regulatórias, enquanto fabricantes chineses avançam com ciclos de desenvolvimento menores, custos inferiores e uma velocidade de execução que impressiona toda a indústria.

Ao ser questionado sobre a presença das fabricantes chinesas na Europa, Provost não defendeu simplesmente barreiras comerciais ou aumento de tarifas.

“Apliquem o mesmo modelo que a China utilizou com tanto sucesso há 30 anos. Quer vender na Europa? Então invista profundamente no continente. Não apenas em fábricas, mas também na cadeia de fornecedores, em pesquisa e desenvolvimento e em parcerias locais.”

É uma visão interessante porque desloca a discussão do comércio para a política industrial. Em vez de impedir a entrada das fabricantes chinesas, a proposta é exigir investimentos locais, desenvolvimento tecnológico, fortalecimento da cadeia de fornecedores e geração de empregos, exatamente como a própria China fez ao longo das últimas décadas.

Esse debate também leva a uma reflexão importante sobre os diferentes caminhos da eletrificação. Curiosamente, enquanto governos e reguladores procuram acelerar a transição para o automóvel elétrico, o mercado parece seguir um caminho um pouco diferente. Os veículos híbridos vêm ganhando participação nos principais mercados automobilísticos. Na Europa e nos Estados Unidos, crescem principalmente os híbridos convencionais. Na China, avançam os híbridos plugáveis e os modelos elétricos com extensor de alcance. Esse movimento mostra que consumidores enxergam valor em soluções intermediárias entre o motor térmico e o automóvel totalmente elétrico.

Article content
Novo Renaul Twingo BEV desenvolvido em 21 meses (foto: divulgação Renault)

Pessoalmente, nunca fui um grande entusiasta dos veículos híbridos. Eles representam um compromisso tecnológico complexo, reunindo dois sistemas de energia completos em um mesmo automóvel. Isso significa maior complexidade construtiva, mais componentes, mais peso, maior ocupação de espaço com perda de espaço interno. Além disso, continuam emitindo dióxido de carbono.

Como o próprio nome diz, são híbridos. Não representam o melhor de cada tecnologia, mas uma combinação entre elas. Ainda assim, seu crescimento mostra que a transição para a eletrificação não depende apenas da oferta de novos produtos. Ela depende, principalmente, das condições de uso que o consumidor encontra no dia a dia.

Ao mesmo tempo, também não acredito que seja possível simplesmente virar a chave e substituir os automóveis térmicos por elétricos da noite para o dia. A mudança envolve muito mais do que uma nova motorização. Ela exige uma transformação completa da infraestrutura que sustenta o uso do automóvel. Há sete anos eu acreditava que essa infraestrutura seria implementada mais rapidamente. Mas a questão “ovo OU galinha” foi respondida com ovo E galinha a passos lentos. Ou seja a infraestrutura e as vendas de elétricos vão andar juntas e a lentidão de uma influencia na lentidão da outra.

Durante mais de um século foi construída uma rede de abastecimento extremamente eficiente (para o consumidor, pois se pensar da extração do petróleo até o tanque é algo bem complexo). Agora precisamos construir uma rede de carregamento capaz de oferecer o mesmo nível de comodidade, disponibilidade e confiança. Essa é uma tarefa muito mais complexa do que simplesmente lançar novos automóveis elétricos.

Esse aspecto costuma receber menos atenção do que merece. A decisão de compra do consumidor não depende apenas da qualidade do produto. Ela depende da facilidade de utilizá-lo no dia a dia.

Eu mesmo me considero um entusiasta dos automóveis elétricos. Gosto da tecnologia, do silêncio, da eficiência e da forma como entregam desempenho. Ainda assim, hoje eu não teria um carro elétrico como automóvel principal. Não por falta de interesse, mas porque minha realidade não oferece uma solução de carregamento suficientemente prática.

Acredito que essa ainda seja a realidade de milhões de consumidores e, em boa parte, explique por que os híbridos continuam conquistando espaço mesmo em mercados que caminham rapidamente para a eletrificação.

É justamente aí que a entrevista de François Provost ganha relevância. Seu alerta não é contra a eletrificação. É contra a ideia de que basta desenvolver bons automóveis elétricos para que a transição aconteça naturalmente.

Ela depende de infraestrutura, de política industrial, de competitividade, de investimentos e, principalmente, da capacidade de convencer o consumidor de que a nova tecnologia é, de fato, a melhor solução para sua realidade. Enquanto essa equação não estiver resolvida, é natural que soluções intermediárias continuem ocupando um espaço importante na transição para a eletrificação.

A indústria automobilística não será transformada apenas pelos automóveis que produz. Ela será transformada pelo ecossistema que conseguir construir ao redor deles.

 

Article content
François Provost (foto: divulgação Renault)

OUTRAS IDEIAS DEFENDIDAS POR FRANÇOIS PROVOST

Além dos temas abordados nesta entrevista à CNBC, François Provost tem defendido outras posições interessantes em entrevistas recentes à RTL, Bloomberg e Financial Times.

A velocidade chinesa pode ser aprendida
Provost acredita que a maior vantagem dos fabricantes chineses não está apenas no custo ou na tecnologia, mas na velocidade com que conseguem desenvolver novos produtos. Segundo ele, esse modelo de trabalho pode ser incorporado pela indústria europeia sem que ela abra mão de sua identidade.

Projetos em menos de dois anos
Um dos exemplos é o novo Renault Twingo E-Tech, desenvolvido em cerca de 21 meses. A experiência servirá de referência para reduzir significativamente o tempo de desenvolvimento dos próximos modelos da marca.

Aprender com a China não significa copiar a China
O executivo afirma que a Renault quer absorver métodos de engenharia, organização e desenvolvimento utilizados pelos fabricantes chineses, mantendo seus centros de engenharia, pesquisa e desenvolvimento na Europa. A ideia é tornar a engenharia europeia mais rápida e eficiente.

Automóveis elétricos precisam ficar mais acessíveis
Provost defende que o sucesso da eletrificação depende da redução dos preços dos automóveis elétricos. Para ele, a tecnologia só ganhará escala quando deixar de ser percebida como um produto premium e passar a competir em igualdade com os modelos convencionais.

Parcerias pontuais em vez de grandes alianças
Na visão do executivo, o futuro da indústria passa por parcerias específicas para tecnologias, plataformas e mercados, em vez de grandes alianças permanentes entre fabricantes.

A Renault precisa crescer fora da Europa
Outra prioridade é ampliar a presença da Renault em mercados como América Latina, Índia, Turquia e Norte da África, reduzindo a dependência do mercado europeu e equilibrando melhor seus negócios globalmente.

PM

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