Na foto de abertura estão Tiddo Bresters e sua esposa Marianna, em 2023, no pico Edelweiss, na Áustria, numa altitude de 2.571 metros, parte da histórico Grossglockner Hochalpenstrasse — Estrada Grossglockner de Passo de Montanha dos Alpes, onde na década de 1930 Ferdinand Porsche levava os protótipos de KdF’s para testes.
Esta viagem à Áustria organizada por Tiddo partindo da Holanda, fez parte da celebração do Jubileu de 50 Anos do LVWCN – Luchtgekoelde VW Club Nederland (Clube Holandes de VW Arrefecido a Ar). E o carro que aparece em primeiro plano é um VW Super Beetle 1303 S, ano 1973.
Nesta matéria apresento uma entrevista com Tiddo Bresters, originalmente em inglês, na qual ele se classificou como Beetlefreak, que traduzo, considerando o contexto da própria entrevista, como “Fuscaentusiasta”.
Tiddo Bresters é um cidadão holandês com formação em Direito e Relações Internacionais. Antes de se tornar presidente da FIVA, ele atuou por nove anos como vice-presidente, liderando a Comissão de Legislação da entidade. Durante esse período, foi responsável por negociações importantes com a União Europeia para proteger os direitos dos proprietários de veículos históricos. Atualmente, Tiddo está em seu segundo mandato de presidente da FIVA.
O que é a FIVA?

FIVA é sigla de Fédération Internationale des Véhicules Anciens (Federação Internacional de Veículos Antigos), a entidade mundial que representa o universo dos veículos históricos.
Fundada em 1966, em Paris, reúne hoje mais de 85 países através de clubes, federações e associações dedicadas ao antigomobilismo. Seu objetivo principal é preservar, proteger e promover os veículos históricos sejam carros, motocicletas, utilitários ou até tratores, como parte integrante do patrimônio cultural e social da humanidade.
A sede da FIVA fica em Turim, Itália, de onde coordena ações globais, incluindo a defesa de direitos junto a governos e organismos internacionais.
Entre suas atividades destacam-se a elaboração de diretrizes de preservação, a organização de eventos mundiais e a interlocução com instituições como a Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Culura) que reconhece os veículos históricos como patrimônio cultural móvel.
No Brasil, a FIVA é representada pela FBVA — Federação Brasileira de Veículos Antigos, entidade que congrega clubes e colecionadores de todo o país e atua ativamente em defesa da preservação da história automobilística nacional.
Entrevista
Meu objetivo é mostrar aos leitores um lado menos conhecido do Tiddo Bresters, destacando sua paixão pelos veículos clássicos da Volkswagen — uma travessura sincera dentro do universo dos tesouros automobilísticos mais raros celebrados pela FIVA
Alexander Gromow (AG)– Vamos começar voltando no tempo: Você se lembra do nosso primeiro contato nos anos 1990? Como foi fazer parte do movimento inicial que levou à criação do Dia Mundial do VW Fusca?
Tiddo Bresters (TB)– Sim, claro que tenho boas lembranças disso. Nós nos encontramos então no famoso VW Veteranentreffen em Bad Camberg, perto de Frankfurt, organizado pelo saudoso Heinz Willy Lottermann.

Lembro-me vividamente de quando a ideia do Dia Internacional do VW Fusca foi anunciada na grande tenda armada no terreno do festival e como ela foi recebida com grande entusiasmo. Fiquei emocionado em conhecer tantos entusiastas do VW Fusca de todo o mundo e fiquei especialmente feliz em conhecer alguém do país do VW Fusca, o Brasil, Alexander Gromow, o homem que iniciou o Dia Mundial do Fusca.

AG– Falando da famosa data, 22 de junho, agora celebrada anualmente, como você viu a ideia do Dia Mundial do VW Fusca quando foi lançada em Bad Camberg em 1995?
TB– Apoiei a ideia desde o início. Afinal, o VW Fusca é conhecido em todo o mundo e tem uma enorme base de fãs em todos os lugares. A própria data está ligada a um evento histórico de 1934 que teve um impacto enorme na mobilidade de dezenas de milhões de pessoas em todo o mundo, pois lhes permitiu adquirir um meio de transporte que realmente possibilitava explorar o mundo ao redor.
AG– Você esteve envolvido nos bastidores dessa criação histórica:
Que lembranças você tem das discussões sobre a definição da data e do nome do evento?
TB– Várias datas foram consideradas. No entanto, a data escolhida simboliza melhor a história da Volkswagen e também homenageia o grande homem por trás do projeto, o Prof. Ferdinand Porsche (cujo 150º aniversário celebramos em 3 de setembro!).
[Nota: o Tiddo foi um dos representantes internacionais que eu contatei para fazer as definições do Dia Mundial do Fusca, portanto ele participou dos trabalhos preparatórios para esta data mundial. Desde então mantemos contato]
AG– Agora falando como entusiasta, não como jornalista:
Qual foi o seu primeiro Volkswagen arrefecido a ar? Como começou sua paixão pela marca?
TB– Sem dúvida, foi meu avô alemão que despertou meu interesse pelos Volkswagens arrefecidos a ar. Ele, pai da minha mãe, teve seu primeiro VW em 1949. Até sua morte em 1968, um dia depois do fafecimento do lendário diretor-superintendente da VW, Heinz Nordhoff. ele permaneceu um ávido fã da VW. Ele teve um total de seis Volkswagens, três Fuscas e três modelos Tipo 3. Quando criança pequena, fiz muitas viagens curtas e longas com ele, o que eu sempre gostei imensamente.

O primeiro carro do meu pai também foi um VW Fusca. Quando a família adquiriu um segundo carro em fevereiro de 1969, tinha que ser um Fusca. E eu ainda tenho esse carro! É um Fusca azul Diamante, com motor 1500-cm³, e está em perfeito estado, apesar da idade e do uso intenso, especialmente nos primeiros anos.

O hodômetro agora marca 320.000 km. Meu pai me ensinou a dirigir nele quando eu tinha 15 anos, e eu compartilhei o carro com meu irmão quando éramos ambos estudantes. Se algum carro tem uma história para contar, é esse!
AG– Sabemos que você ainda tem seu VW 1303 S de 1973.
Qual é a história por trás desse carro? Ele está na sua família há mais de 50 anos, certo?
TB– Sim, esse é outro carro com muitas histórias para contar. E esse “Big Bug” Super Beetle também foi registrado pela primeira vez por minha família, em janeiro de 1974. Um detalhe notável sobre esse carro é que, desde o início, foi equipado na Holanda com um teto solar de aço corrediço. Esse teto solar é muito maior que o fornecido pela fábrica da VW. Provavelmente não há outro Fusca com um teto solar assim.

O carro percorreu muitas estradas em toda a Europa, do Cabo Norte na Noruega até a Romênia. E esteve rodando até em três países que já não existem mais: a RDA (Alemanha Oriental), a União Soviética e a Iugoslávia! Portanto, é um carro também cheio de experiências, já rodou 325.000 km até agora.
AG– E como tem sido viver essa paixão ao lado da sua família ao longo dos anos? Sua esposa Marianna compartilha seu amor pelos Volkswagens antigos?
TB– Felizmente, minha esposa Marianna sempre gosta de me acompanhar, mesmo quando fazemos uma viagem longa ao exterior. A partir de 1992 ela me acompanhou em todas as sete viagens do clube holandês de Volkswagens arrefecidos a ar que organizei à Alemanha, aos Alpes, geralmente tendo o Passo do Grossglockner como destino final, onde os primeiros protótipos da Volkswagen, então chamados de KdF, foram testados ao longo dos anos — à República Tcheca (terra natal de Ferdinand Porsche) e à França. Não acho que haja muitas mulheres que possam dizer que conheceram a Europa do Cabo Norte na Noruega a Gibraltar, da Irlanda ao leste da Polônia, em um VW Fusca ou num Tipo 3, já que também tenho uma VW 1600 Variant 1965.

AG– Dentro da FIVA, que tradicionalmente celebra raridades automobilísticas de alto nível, como você concilia seu gosto pessoal pelos Volkswagens “populares” com sua função de liderança na organização?
TB– Não vejo nenhum conflito aqui. A FIVA representa os interesses de todos os proprietários de veículos históricos no mundo, independentemente da marca, modelo ou, certamente, do valor. Um de nossos principais objetivos é proteger o direito de possuir e usar um veículo histórico nas vias públicas. E como sempre digo: o dono de um Lamborghini Miura tem que lidar com o mesmo quadro legislativo para uso viário que o dono de um Trabant, não existem regimes jurídicos diferentes para carros populares e exclusivos. Além disso, quando você olha para o nosso Calendário de Eventos da FIVA, certamente não encontrará apenas eventos de alto padrão, mas também eventos de orçamento mais modesto. Nossa inclusão também é demonstrada pelos Eventos Mundiais da FIVA para Motocicletas e Veículos Comerciais. Em 2023, houve até um Evento Mundial da FIVA para Tratores.
AG– Você já enfrentou algum tipo de preconceito ou surpresa de membros da FIVA ao revelar sua afeição pelos Volkswagens arrefecidos a ar?
TB– A resposta é curta: não! E não sou o único no atual Comitê Geral que tem apenas alguns— digamos — veículos “meio termo” em suas garagens. O que considero mais importante é que minha preferência pelos Volkswagens arrefecidos a ar mostra que um Presidente da FIVA não precisa ser um colecionador rico! Nós também não moramos numa mansão, mas sim n uma casa geminada comum, embora com uma garagem grande. Minha preferência por veículos de produção em massa para o consumidor médio também sublinha que a FIVA é, antes de tudo, voltada para o que no esporte se conhece como “esporte de base”. É como no futebol: há muito mais jogadores amadores do que profissionais que ganham milhões por mês! Da mesma forma, há muito mais entusiastas com um ou dois veículos históricos de valor relativamente baixo do que indivíduos com grandes coleções valendo milhões.
AG– Se você pudesse incluir um modelo Volkswagen entre as raridades automobilísticas mais celebradas do mundo, qual escolheria, e por quê?
TB– A resposta óbvia é o VW Fusca Split Window. Certamente, a versão cabriolé de quatro lugares da Karmann que eu adoro, até mais do que o Hebmüller! Mas o modelo que melhor responde à sua pergunta é a VW 411E Variant, membro da família Tipo 4. Considerado um carro feio e fracassado em sua época, mas quão mais bonito é agora, com suas linhas funcionais e grandes janelas, se comparado aos monstruosos suves que hoje são tão populares!

AG– Você acha que o VW Fusca ainda sofre de preconceito injusto dentro da comunidade de carros antigos de elite? Ou isso está mudando?
TB– Não, não acho que exista esse preconceito. E se as pessoas não gostam do VW Fusca, paciência! Provavelmente nunca experimentaram como é maravilhoso ter um carro na garagem que você sabe que pode ligar todos os dias e dirigir até os lugares mais remotos! E, acima de tudo, o VW Fusca é muito popular entre o público em geral, goza de enorme simpatia, e é tão bom ver como até crianças pequenas começam a sorrir quando veem nosso VW Fusca, e muitas até sabem que é um VW Fusca!
AG– O que você diria a um jovem colecionador que quer começar sua trajetória com um VW Fusca ou um VW Kombi em vez de mirar num Alfa Romeo 6C ou num Bugatti?
TB– Acredito que um VW Fusca ou um VW Kombi são veículos ideais para todos que têm paixão por veículos clássicos. Ambos têm uma aparência muito simpática, gozam de enorme simpatia na sociedade, também são exemplos significativos da história mundial do automóvel e, não menos importante, são bastante acessíveis. Além disso, são um campo de treinamento ideal para se familiarizar com a tecnologia analógica de um carro clássico, e ainda há muitas peças disponíveis para eles. Um aspecto interessante também é que a cena do VW Fusca e do VW Kombi atrai, em geral, pessoas mais jovens do que os carros anteriores à guerra. Claro, como em qualquer outro veículo histórico sobre o qual não se tenha conhecimento completo, é recomendável pedir a opinião de um especialista antes de se tornar vítima de uma decisão muito impulsiva.
AG– Mudando a marcha para o trabalho institucional, durante seu longo período na FIVA — especialmente liderando a Comissão de Legislação — quais foram os maiores desafios na defesa dos direitos dos proprietários de veículos históricos?
TB– Quando eu liderava a Comissão de Legislação, surgiu o conceito de zonas ambientais. Carros que cumpriam totalmente todos os requisitos de emissões eram, mesmo assim, proibidos de circular nos centros das cidades para “melhorar a qualidade do ar”. A medida não tinha como alvo específico os veículos históricos, mas eles poderiam ser vítimas disso se nenhuma regra de isenção fosse introduzida. Tal regra foi introduzida em vários países graças aos esforços de nossas organizações-membro nacionais. Infelizmente, ainda não existem regulamentos internacionais que facilitem o argumento, em todos os lugares, por uma isenção geral para veículos históricos. Mas como a FIVA reúne todas as informações sobre regulamentos legais e, portanto, tem uma boa visão geral de todas as melhores práticas, conseguimos ajudar a proteger os veículos históricos de proibições absolutas de circulação em áreas urbanas. Hoje em dia o maior desafio é lidar com as medidas da União Europeia para banir a venda de novos carros com motores de combustão interna. Claro, os veículos históricos não são afetados diretamente, mas a longo prazo, quando a frota de veículos de um país for majoritariamente elétrica, deve-se estar alerta para novas proibições sobre veículos históricos. Para enfrentar esse desafio é muito importante ter Federações nacionais fortes, unindo todos os entusiastas de um país, e vê-las apoiadas pela FIVA como a única organização global de veículos históricos para todas as categorias de veículos clássicos.
AG– Ainda sobre sua atuação de defesa, como você vê o futuro da circulação de veículos históricos nas grandes cidades, considerando as novas regulações ambientais?
TB– Como já afirmei na resposta anterior, a circulação de veículos clássicos em alguns lugares pode se tornar um prazer pelo qual será preciso lutar. O fato de que a quilometragem e, portanto, a emissão dos veículos clássicos é desprezível em comparação com a frota total de veículos (incluindo a quilometragem de caminhões e ônibus!) deve, espero, convencer os legisladores de que banir carros clássicos seria, como diz uma expressão holandesa, “como matar um mosquito com um canhão”! O trabalho da FIVA e de suas organizações representantes nacionais resultou no reconhecimento geral de que os veículos históricos fazem parte do patrimônio cultural que precisa ser protegido.
AG– Na sua visão, qual é o papel cultural e social dos Volkswagens clássicos na cena global de carros antigos?
TB– Vejo-os como excelentes embaixadores da cena dos carros clássicos. Porque eles mostram que essa cena não se trata apenas de carros exclusivos, mas também inclui os veículos com os quais as pessoas cresceram e que contam a história da motorização individual em massa, um fenômeno que provavelmente foi um dos principais pontos de virada do século passado.
AG– E finalmente, uma pergunta leve: se você pudesse fazer uma última grande viagem em seu VW Beetle Cabriolé a qualquer lugar do mundo, com Marianna ao seu lado e sua música favorita tocando. para onde seria?
TB– Certamente espero que não seja minha última viagem no VW Beetle, no meu Cabriolé ou em qualquer outro VW arrefecido a ar, mas sempre retornarei com muito prazer aos passos de montanha dos Alpes, como a Grossglockner Hochalpenstrasse, para apreciar a paisagem maravilhosa, a sensação das curvas em ziguezague e, é claro, o som saudável do motor boxer arrefecido a ar na traseira do carro.

Agradeço ao Tiddo por me conceder essa interessante e importante entrevista. Registro que suas respostas completas devem ter demandado bastante de seu tempo. Desejo a ele muito sucesso em suas atividades na FIVA bem como que ele tenha muitas oportunidades para curtir seus Volkswagens arrefecidos a ar pelas estradas do mundo!
AG
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