Começo explicando a relação entre acidentes de trânsito e estratégia pois aparentemente são temas que não se relacionam. Quem assim pensa se engana, pois a receita gasta em hospitais públicos para o atendimento de vítimas de acidentes é monstruosa. É uma clara falta de visão e investimentos que levam dinheiro público para a lata do lixo. E investimentos que não trazem visibilidade ao público não são, em geral, relevantes a quaisquer governos.
O Brasil foi signatário da Década de Ação pela Segurança no Trânsito da ONU (2011-2020), um movimento global que visava reduzir a mortalidade no trânsito em 50%. Movimento que teve a continuidade com o Acordo de Redução de Mortes no Trânsito, de 2018, em que o Brasil também o assinou, igualmente internacional, com a intenção de reduzir o número de mortes no trânsito, com metas a serem alcançadas até 2030.
Mas é intrigante como o Brasil está “bonito na foto” nos relatórios de segurança sobre o trânsito disponibilizados pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Até parece outro país. Veja exemplo abaixo:


Não que não tenha ocorrido qualquer ação governamental no combate às mortes no trânsito brasileiro, mas num país continental a fiscalização é precária, a polícia muitas vezes mal equipada, mal treinada para preencher formulários colossais durante um atendimento, despreparada para atender o cidadão comum.. E ainda com respeito ao tema, as estatísticas são, na maioria das vezes, sempre questionáveis por faltar transparência.
A morte no trânsito sob o número total da frota é um dos principais indicadores de mortes acidentes de trânsito e um dos critérios utilizados pela ONU na mensuração dos avanços do país.
No Brasil são considerados como óbito no trânsito aquelas vítimas fatais no momento do acidente ou aquelas que falecem em até 30 dias, segundo os padrões internacionais alinhados com a OMS. Entretanto, a prática é distinta da teoria e como resultado final estes números são bem questionáveis.
Quanto a frota circulante nacional, ninguém na indústria automobilística utiliza os números oficiais do governo federal, via Senatran. Não os utilizam para absolutamente quase nada. Quem necessita de números reais da frota circulante utiliza números do SindipeçasS ou de consultorias particulares. A diferença é gritante e beira o amadorismo na metodologia do governo ou mesmo uma tentativa hipócrita de enganação! Eu não tenho essa respost,a mas dou alguns elementos.
Tive um veículo roubado que demorou 7 anos para sair da base de dados do governo, ou seja, por 7 anos este veículo foi considerado como ativo na frota circulante nacional.
E a explicação é matemática. A fórmula de mortes sob o número total da frota é a divisão simples do número de mortes sobre a frota circulante. Com um número de mortes menor e uma frota circulante maior teríamos números dignos de países do primeiro mundo. Triste mas conhecemos o Brasil em que vivemos!
No relatório da OMS sobre segurança de trânsito, disponível apenas em inglês, observamos isto em diversos cenários.
A tabela abaixo, criada com fontes de informação diversas, expõe a dificuldade de encontrar dados sobre o tema:

Foram gastos R$ 449,8 milhões em 2024 com custos hospitalares de dados provenientes de estimativas do SUS (Sistema Único de Saúde), mas as fontes divergem entre dezenas a centenas de milhões reais por ano dependendo do método. Falta transparência.
Já os custos socioeconômicos totais, que incluem a perda de produção, invalidez, funerais, entre outros, chegam a absurdos R$ 50 bilhões segundo estimativas do Ipea/ONSV.
Considerando apenas a primeira situação, os custos hospitalares, o montante seria equivalente a aproximadamente:
– construção de 139 escolas públicas; ou
– aumento de 5% no salário dos 1,83 milhão de professores de escolas públicas no Brasil; ou
– 4.300 médicos em hospitais públicos; ou
– 3.000 policiais rodoviários; ou
– 1.300 juízes de direito em instância estadual.
Ou seja, daria para se utilizar este dinheiro para fazer muita coisa melhor.
Amo o nosso país, mas podemos fazer mais e melhor. Falta transparência e ações mais eficazes no combate à violência no trânsito brasileiro que está entre os mais violentos no mundo há décadas!
MKN
A coluna “Visão estratégica” é de exclusiva responsabilidade do seu autor.





