No dia 3 de setembro de 1875 nascia em Maffersdorf (hoje Vratislavice nad Nisou, na atual República Tcheca) aquele que se tornaria um dos nomes mais influentes da engenharia automobilística do século XX: Ferdinand Porsche. Filho de um modesto mestre de oficinas, Porsche desde cedo demonstrou fascínio pela eletricidade, então novidade em expansão.
Adolescente, chegou a montar em casa um pequeno sistema de geração de energia, com máquina a vapor e dínamo, iluminando o lar familiar com lâmpadas incandescentes — um feito impressionante para a época.

Primeiros projetos inovadores
Esse espírito inventivo seria o fio condutor de toda a sua vida. Ainda jovem, em Viena, Ferdinand Porsche envolveu-se com projetos pioneiros de veículos elétricos e híbridos, muito antes de o termo se tornar moda. Em 1901, apresentou o “Semper Vivus”, dentre outros, um veículo com rodas acionadas por motores elétrico no cubos, alimentados por um gerador acionado por motor a acombustão. Era, de fato, o primeiro híbrido funcional da história.

O nascimento do carro do povo
Nas décadas seguintes, Porsche consolidou-se como engenheiro de destaque.
Sua genialidade chamou a atenção das autoridades alemãs nos anos 1930.
Foi nesse contexto que recebeu a incumbência de projetar um automóvel popular acessível, robusto e barato. Algo novo, que não fosse apenas um carro comum diminuído de tamanho.. Assim nasceu o embrião do que seria o Volkswagen Käfer (Fusca), carro que viria a se tornar um dos maiores fenômenos da história do automóvel, com mais de 21,5 milhões de unidades produzidas até 2003.

As sombras do passado
O projeto do Fusca está indissociavelmente ligado ao regime nacional-socialisata. Sob encomenda direta de então chanceler Adolf Hitler, Porsche desenvolveu o chamado Kraft-durch-Freude-Wagen (“Carro da Força pela Alegria”). Durante a guerra, a produção desviou-se para veículos militares como o Kübelwagen e o Schwimmwagen. Após o conflito, Porsche foi preso por quase dois anos por autoridades francesas, acusado de utilizar trabalho forçado, mas nunca chegou a ser julgado por crimes de guerra.

De Stuttgart para o mundo
Em 1931, ainda antes da guerra, Ferdinand havia fundado em Stuttgart seu próprio escritório de engenharia, que serviu de base para a consolidação posterior da marca Porsche. Após sua morte, em 30 de janeiro de 1951, seu filho Ferry Porsche assumiu os negócios e lançou os primeiros carros esportivos que fariam da marca um ícone mundial de desempenhoe elegância. Enquanto isso, o Fusca ganhava as ruas do planeta, incluindo o Brasil, onde se tornou parte inseparável da vida cotidiana e da memória afetiva de milhões de pessoas.

A dinastia Porsche-Piëch
Passadas gerações, os descendentes de Ferdinand Porsche continuam a ocupar posição central no destino do Grupo Volkswagen. Por meio da holding Porsche SE, as famílias Porsche e Piëch controlam a maioria das ações com direito a voto do conglomerado, que é hoje um dos maiores da indústria global, reunindo marcas como VW, Audi, Porsche, Škoda, Seat, Lamborghini, Bentley e até Bugatti.

Entre luzes e sombras
A figura de Ferdinand Porsche permanece marcada por um paradoxo histórico.
De um lado, o engenheiro visionário, criador de soluções pioneiras como os primeiros veículos elétricos e híbridos, e responsável pelo carro mais popular do século XX.
De outro, o colaborador do regime nacional socialista, beneficiado pelo sistema e envolvido em decisões controversas. Essa dualidade acompanha a memória de Porsche até hoje. Entende-se como colaborador o fato dele ter trabalhado para o governo, porém não há evidências concretas de que Ferdinand Porsche tenha se filiado ao Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães (NSDAP, a sigla em alemao).

O olhar do antigomobilista
Para nós, apaixonados pelo universo Volkswagen, a data de 150 anos de nascimento de Ferdinand Porsche não é apenas uma efeméride alemã. Ela nos lembra como o Fusca e seus derivados — Kombi, Karmann-Ghia, Brasília e tantos outros — foram muito mais que automóveis: foram parte da cultura e da história social de países como o Brasil.
Sem o engenheiro tcheco-austríaco que sonhava em iluminar a casa dos pais, não teríamos visto o Fusca cruzar gerações, unir famílias, inspirar clubes e criar uma das mais sólidas comunidades de entusiastas do mundo.

AG
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