Tenho sensação de haver pessoas que têm prazer em ter inimigos. Ou em criá-los. O que o AE vem batendo há anos, e com dia certo, 22 de setembro, é um exemplo. O automóvel nosso de cada dia virou inimigo porque alguém achou que é e tratou de criar o que cunhei de Dia Mundial da Imbecilidade. Como pode tamanha insensatez? Provar o quê?
Que o carro é supérfluo, luxo, pode ser dispensado das nossas vidas? Que não precisamos dele? Será que uma noiva no dia do seu casamento precisa tomar um ônibus para se dirigir ao local da cerimônia? Ou ser levada na garupa de uma motocicleta?
O mundo tem hoje seu inimigo público nº 1, um gás inerte e inodoro chamado dióxido de carbono que atende pela sigla CO2. Chamam-no de gás de efeito estufa, em que o calor do sol o atravessa e não sai, fica preso na atmosfera e isso está elevando a temperatura média da Terra e causando mudanças climáticas.
A lógica dessa turma é: se a queima de combustíveis de origem fóssil — leia-se petróleo — produz CO2, então que se proíba vender veículos de motor a combustão a partir de 2030 (virou 2035) na Europa. Como se essa região tivesse procuração do mundo para uma medida drástica como essa.
É claro que os senhores do Parlamento Europeu (foto de abertura) sabiam — de burros não têm nada — as consequências da “descarbonização” resultante da venda de carros movidos a energia elétrica apenas: caos econômico e social que já começou antes mesmo de a medida vigorar, venda de automóveis em queda e desemprego significativo (30 mil só no Grupo Volkswagen). Por isso acredito num plano, e não estou sozinho nisso, que infelizmente está dando certo. Plano para mostrar que capitalismo não dá certo. Bem coisa de esquerdopata.
O Brasil também está nesta toada do CO2 como se nossa frota fosse significativa diante da mundial, quando é apenas 4,8%. E toca a cometer tolices & abusos como o “combustível do futuro”, gasolina com 30% de álcool e em rumo para igualmente desvairados 35%.
Enquanto isso o Brasil tem uma enorme “fábrica de CO2” em pleno funcionamento, as lombadas que exigem forte aceleração para retomar velocidade após transpô-las. Não conheço nenhuma voz contrária a esse absurdo e creio que o leitor ou leitora também não.
Caso parecido ocorreu em 1997 em São Paulo. A Cetesb, que cuida do meio ambiente do Estado, resolveu melhorar a qualidade do ar nos meses frios, maio a setembro, e restringiu a circulação de veículos em toda a região metropolitana das 7 às 20 horas usando o critério do final de placa para definir o dia da semana em que o veículo não pode circular. Só que em setembro começou a Fase 3 do Programa de Controle da Poluição do Ar por Veículos Automotores (Proconve) e a restrição tornou-se desnecessária para o ano seguinte. Foi aí que o espertalhão prefeito Celso Pitta provavelmente achou o rodízio “boa ideia” e o introduziu no município que administrava, para isso obtendo a essencial autorização da Câmara Municipal mediante lei.
O rodízio tinha inicialmente a justificativa esfarrapada de evitar ou reduzir congestionamentos nas horas de pico — 7h00 às 10h00 e 17h00 às 20h00 — e se chamava Operação Horário de Pico, nome que nem existe mais. O mais incrível é os municípios só poderem restringir circulação quando se tratar da redução global de poluentes (CTB art. 24 Inciso XVI), sendo implícito caber aos órgãos ambientais determinar tal necessidade.
Deste modo, entra prefeito, sai prefeito e o automóvel está a dois meses de completar 28 anos no papel de inimigo útil para os cofres da prefeitura paulistana. Mas fica a pergunta: por que os carros eletrificados são isentos do rodízio, se não são invisíveis e ajudam a encher as ruas?
Em contrapartida, os veículos de aplicativo de motor a combustão, um serviço público, têm que cumprir o que chamo de vergonha da maior cidade brasileira. É muito estranho o Ministério Público Estadual não abrir os olhos para esse desserviço da Prefeitura de São Paulo.
BS
A coluna “O editor-chefe fala” é de exclusiva responsabilidade do seu autor.
Foto de abertura: brasilparalelo.com.br






