Hoje há muita confusão sobre o que é uma marca de luxo. Há também inúmeras tentativas de definir o luxo em uma frase, ou de rotular o chamado luxo moderno. Repete-se com frequência que luxo não é mais ostentação, o que é verdade em parte, mas ainda insuficiente para explicar algo que está mais ligado a tempo, sensibilidade, refinamento e, sobretudo, coerência. Acredito que não exista uma definição universal do que é luxo. O que existe são marcas que se expressam por meio dele, que constroem um universo em torno de uma visão de perfeição e de propósito.
É por isso que, quando se fala em Rolls-Royce, não há margem de dúvida: trata-se de uma marca de luxo. Mas um luxo tão absoluto que poucas pessoas conseguem compreender sua dimensão real. E talvez a melhor maneira de explicar o que é o luxo para a Rolls-Royce seja com um exemplo. E o melhor exemplo é o Phantom Centenary Private Collection.

Mas antes de começar, eu reconheço que o que vem a seguir talvez se encaixasse melhor em um site chamado ARTEentusiastas. Ainda assim, como aqui no AE prezamos pela cultura automobilística em todas as suas formas, acredito que nossos leitores vão gostar de conhecer esta peça única de arte sobre rodas.
É importante notar que o texto, por si só, não consegue transmitir plenamente o significado e o trabalho envolvidos na criação dessas unidades. Por isso, ao final, em complemento às fotos, há vídeos que revelam seus detalhes, acompanhados das respectivas transcrições em português.
Para quem aprecia arte, tenho certeza de que será um deleite.

Phantom Centenary Private Collection
Criado para celebrar os 100 anos do icônico Phantom, o modelo mais emblemático da Rolls-Royce, o Centenary Private Collection é uma série de apenas 25 exemplares. Um tributo à história de um automóvel que atravessou gerações como símbolo de sucesso, poder e opulência. Segundo Chris Brownridge, executivo-chefe da Rolls-Royce:
“Trata-se de uma obra de arte que usa o Phantom VIII como tela para contar a história de um século de criação, inovação e excelência artesanal.”
Foram mais de 40 mil horas de trabalho, envolvendo designers, engenheiros e artesãos que traduziram em forma e matéria a alma do Phantom.
Os profissionais da divisão Bespoke (sob medida), responsável por transformar cada Rolls-Royce numa peça única, mergulharam nos arquivos da marca, estudando as gerações do modelo desde os anos 1920. Investigaram as histórias dos proprietários mais emblemáticos, as viagens, os lugares e os momentos que marcaram sua trajetória. Desse trabalho nasceram 77 desenhos à mão que serviram de base para os elementos visuais incorporados no Centenary, como se o automóvel fosse um livro aberto contando a própria história.

Do lado de fora, o Phantom Centenary Private Collection evoca a elegância clássica da era dourada de Hollywood. Sua pintura combina tons de Super Champagne Crystal sobre branco Ártico e preto, criando uma superfície com brilho metálico profundo obtido com partículas de vidro triturado misturadas à camada de verniz. É uma carroceria que parece mudar de tonalidade conforme a luz, transmitindo uma sensação quase líquida de movimento.
No topo da grade, a Spirit of Ecstasy aparece como nunca antes: feita em ouro maciço de 18 quilates e revestida por uma camada de ouro 24-quilates, com base esmaltada em branco e um selo criado especialmente para a ocasião. Até a cobertura do motor V-12 de 6,75 litros recebeu detalhes em ouro, como um tributo à força silenciosa que define o Phantom há um século.


O emblema “RR” na dianteira e na traseira também é apresentado em ouro 24-quilates e esmalte branco, reforçando a ideia de celebração. As rodas do tipo disco exibem 25 linhas gravadas em cada uma, totalizando 100 linhas nos quatro conjuntos, uma referência simbólica ao centenário do Phantom. Tudo no automóvel é pensado para transmitir uma sensação de solenidade, de tempo condensado em objeto.
Mas é ao abrir as portas que se entende o que a Rolls-Royce quis realmente dizer com luxo. O interior é uma homenagem aos Phantoms do passado, quando o motorista se sentava em bancos de couro resistentes e o passageiro, na parte traseira, era envolvido por tecidos nobres. Essa distinção entre controle e contemplação é preservada, mas reinterpretada numa linguagem contemporânea.

Os bancos traseiros são uma obra-prima. Inspirados no lendário “Phantom of Love” de 1926, apresentam uma composição de três camadas: um fundo impresso em alta resolução com imagens de locais e objetos históricos da marca, uma segunda camada que retrata Phantoms marcantes e uma terceira formada por bordados que representam sete proprietários notáveis.
Cada tecido foi desenvolvido em colaboração com um ateliê de moda, levando doze meses para atingir o nível de durabilidade, textura e fidelidade cromática exigido pela Rolls-Royce. O conjunto soma mais de 160 mil pontos de costura e 45 painéis individuais montados com precisão milimétrica, como num terno feito sob medida em Savile Row (o berço da alfaiataria sob medida em Londres). O resultado é uma tapeçaria viva, tridimensional, que convida o olhar a percorrer a história do modelo ponto a ponto.
As poltronas dianteiras, por sua vez, trazem desenhos a laser inspirados nos esboços originais dos designers da época. Há símbolos escondidos em meio ao couro, como o coelho que remete ao codinome “Roger Rabbit”, usado no projeto de relançamento da marca em 2003, e a gaivota que fazia referência ao protótipo do Phantom I, de 1923. Cada detalhe tem um significado e remete a um momento da história da Rolls-Royce.


No painel, o elemento central é o chamado Anthology Gallery, uma instalação artística feita com 50 lâminas de alumínio escovado que se cruzam como páginas de um livro. As lâminas formam letras e frases com elogios e citações publicadas ao longo de cem anos de Phantom. A iluminação interna muda sutilmente conforme o ângulo, criando reflexos dourados que lembram fogos de artifício. É uma peça que mistura arte, poesia e engenharia.
As portas são um espetáculo à parte. Produzidas em madeira Blackwood tingida, contam histórias por meio de marchetaria tridimensional, gravações a laser, camadas de tinta em relevo e aplicações de folhas de ouro. Cada uma retrata uma paisagem marcante da vida de Henry Royce, como a costa de Le Rayol-Canadel-sur-Mer, no sul da França, onde o engenheiro passava os invernos, ou West Wittering, seu refúgio de verão, próximo à atual sede da Rolls-Royce em Goodwood.
Há também uma referência à travessia da Austrália feita por um Phantom do início dos anos 2000, um dos maiores percursos já realizados pela marca. Os caminhos esculpidos no mapa são cobertos por ouro 24-quilates e cada ponto é inserido manualmente. Até a vegetação das regiões retratadas foi incluída, em relevo, como pinheiros e palmeiras.


O mesmo tema se repete nas mesas de piquenique, que trazem gravadas as silhuetas do primeiro Phantom I e do atual Phantom VIII. O verniz Piano Black que cobre o painel é misturado com pó de ouro, refletindo a luz como se o interior fosse iluminado de dentro para fora.
O teto estrelado, uma das marcas registradas da Rolls-Royce, ganhou um novo significado. Com 440 mil pontos de luz e bordados, ele reproduz uma cena inspirada numa fotografia de Henry Royce sentado sob uma amoreira em sua casa, cercado por engenheiros e colegas. No desenho aparecem abelhas que simbolizam o apiário mantido nos jardins da fábrica de Goodwood, árvores quadradas que representam o pátio da sede e a rosa Phantom, cultivada exclusivamente nos terrenos da marca. Há também uma pequena referência ao cofre secreto onde o primeiro Phantom da era moderna foi projetado. Cada uma dessas minúcias foi bordada com precisão microscópica, transformando o teto em um universo de significados.

O Phantom Centenary Private Collection é um manifesto sobre o que significa luxo em seu estado mais puro: tempo, paciência, significado e ofício. Cada centímetro do carro foi concebido para provocar admiração, não apenas pelo valor material, mas pela dedicação quase devocional com que foi criado.
A Rolls-Royce não está tentando reinterpretar o luxo. Ela continua a defini-lo. E o Phantom, ao completar 100 anos, reafirma sua condição de referência máxima. Um automóvel que não precisa provar nada, porque cada detalhe fala por si. O luxo, afinal, é isso: o domínio do tempo, a busca pela perfeição e a beleza que nasce quando a arte e a engenharia decidem coexistir.
E aí, gostou de saber o que é o luxo da Rolls-Royce?
PM
Vídeos:
Transcrição:
Na época da criação do Phantom I, a sede da Rolls-Royce ficava em Londres, na Conduit Street. Foi ali que nasceu o codinome Seagull, usado para identificar o primeiro protótipo do Phantom I, em 1923.
Quando o modelo foi lançado, em 1925, já trazia diversas características marcantes, como a Spirit of Ecstasy. Em homenagem a seus antecessores, o Phantom Centenary apresenta o mesmo perfil da escultura original do Phantom I, reproduzido com precisão e em escala reduzida.
A estátua original, inspirada em Eleanor Thornton, é finalizada em ouro 24-quilates, representando a Rolls-Royce como o ápice do luxo.
O Phantom I, ostentando a icônica Spirit of Ecstasy, foi testado ao longo da pitoresca costa de Canadel-sur-Mer, local onde Sir Henry Royce passava seus invernos. Essas experiências ajudaram a definir o Phantom I como um pilar de excelência automobilística, estabelecendo um novo padrão de luxo e desempenho.
Após o sucesso do Phantom I, há registros de Henry Royce refletindo sobre os automóveis do futuro em sua casa em West Wittering. Sentado sob a amoreira de seu jardim, nascia ali o futuro do Phantom.
Hoje, a Rolls-Royce convida os proprietários a se sentarem exatamente onde Royce se inspirava, agora sob as folhas bordadas no teto estrelado do Phantom Centenary.
Transcrição:
Tão icônica hoje quanto um dia foi a Conduit Street, a atual sede da Rolls-Royce inspira e acompanha a criação de cada Phantom moderno.
De nossas abelhas produzindo o próprio mel Rolls-Royce às árvores de copa quadrada no pátio, são lembranças únicas que cada visitante leva consigo.
As rosas Phantom, cultivadas exclusivamente para a marca Rolls-Royce, foram representadas no teto estrelado (Starlight Headliner), um elemento distinto inspirado no lago central do pátio da fábrica.
A história da Rolls-Royce Motor Cars foi profundamente moldada pelo Phantom. Assim como o Phantom faz parte do DNA da Rolls-Royce, esse mesmo DNA — o coração da marca — está presente na Anthology Gallery, que expressa tudo o que hoje a marca representa.
Execução artesanal impecável, elegância e sofisticação são as qualidades que definem o auge da nossa criação.
Icônico e majestoso, o Phantom Centenary é uma verdadeira forma de arte a ser celebrada nos 100 anos do automóvel.
Cem anos de perfeição.
Transcrição:
Após o sucesso do Phantom I, Sir Henry Royce continuou sua busca pela perfeição.
As sete gerações seguintes do Phantom são homenageadas nos detalhes sob medida da coleção exclusiva Phantom Centenary. Elas podem ser admiradas no mural artisticamente trabalhado sobre os bancos traseiros, assim como nas portas compostas por diferentes materiais e texturas.
Entre os elementos ocultos, há referências a proprietários influentes de Phantoms, além de conquistas históricas do automobilismo e insígnias reais, todas destacadas por delicados fios de ouro.
Juntas, essas composições criam uma narrativa imersiva que celebra o legado da Rolls-Royce. Esta coleção privada é, de fato, uma celebração da cultura, realizada da forma mais luxuosa possível.
E não poderia haver maneira mais apropriada de marcar esse momento do que com detalhes em ouro 24-quilates em todo o automóvel. Esse acabamento se estende até a tampa do motor, ressaltando a evolução entre arte e engenharia que culmina no atual Phantom VIII.
Tudo isso faz pensar no que virá a seguir na trajetória do Phantom, exatamente como Henry Royce costumava fazer, sentado sob as amoreiras de seu jardim.
Galeria adicional:





