Há seis anos eu publiquei a matéria “Dois “Schwimmwagen” para o Brasil”. Nela eu conto como o VW Schwimmwagen de Walter Bernhardsgrütter e o de Dieter Schnur vieram para o Brasil.
Há uns meses eu recebi um e-mail de um jovem de 89 anos, fã de VW Schwimmwagens e VW Kübelwagens, Giulio Vogliano, que tinha lido a matéria sobre os VW Schwimmwagens “brasileiros”. O primeiro contato foi em italiano, depois passamos para o inglês para finalmente chegarmos ao alemão que é sua língua natal.
Giulio contou que conheceu de perto a história dos dois VW Schwimmwagens “brasileiros” e eu pedi que ele me enviasse um relato sobre isto e foi o que ele fez:
A história do VW Schwimmwagen resgatado na Itália
por Giulio Vogliano
É realmente verdade que posso lhe contar a história sobre os primeiros proprietários dos VW Schwimmwagen, especialmente a partir de abril e maio de 1945, quando amigos meus tomaram posse dos primeiros VW Schwimmwagens diretamente das ruas de Berlim, logo após o fim da Segunda Guerra Mundial na Europa, em 8 de maio de 1945.
Quando a guerra terminou, um amigo — que mais tarde se tornaria próximo — adquiriu três VW Schwimmwagen e alguns caminhões, que ele precisava para sua empresa. Esses veículos foram vendidos pelas autoridades a um preço muito baixo. Esse homem foi a primeira pessoa a se tornar proprietária legal desses antigos veículos do Exército alemão.
Dez anos depois, conheci esse homem e, aos poucos, fui me familiarizando com os veículos.
Em 1958, encontrei e comprei três VW Schwimmwagen na Itália. Também consegui adquirir em Berlim um estoque completo de peças de reposição, que durante a Segunda Guerra Mundial era usado para reparar Volkswagen Schwimmwagen e Kübelwagen danificados no conflito.
Na mesma época, eu e meu amigo “Jonny”, que compartilhava comigo a paixão por VW Schwimmwagen e VW Kübelwagen, começamos a procurar outras pessoas na Alemanha com o mesmo hobby. Encontramos Dieter Schnur, em Hannover, que possuía um VW Schwimmwagen. Lá também conhecemos o Sr. Bernhard Bernitz, que estava montando um VW Schwimmwagen a partir de peças coletadas para Walther Benrhardsgrütter. Nessa mesma ocasião, conhecemos pessoalmente o próprio Walter Benrhardsgrütter, que também estava em Hannover.


Esse VW Schwimmwagen foi embarcado por Dieter Schnur no mesmo navio que ele junto com sua namorada, Siegrid Klockemann, partiram de Bremerhaven rumo a Santos, no Brasil, em janeiro de 1960. Esse é o VW Schwimmwagen que Walter Benrhardsgrütter possuiu por muito tempo. Mas vamos por partes.
Dieter Schnur e Siegrid chegaram a Santos e São Paulo, mas poucas semanas (ou dias) depois, receberam a notícia de que o pai de Dieter havia falecido. Os dois retornaram imediatamente a Hannover.

Mais tarde, encontramos Dieter e Siegrid na Áustria, onde participaram do 1º Encontro Internacional de VW Schwimmwagen, em Burgau, às margens do lago Attersee. Uma conversa levou à outra, e decidimos procurar outros VW Schwimmwagens — pois o veículo que o Dieter possuis então havia sofrido um acidente, e a carroceria estava deformada na parte dianteira.




Decidimos buscar na Itália novos exemplares, especialmente na minha próxima viagem aquele país, quando eu traria para a Alemanha os carros que havia comprado em 1958. Juntamos esforços, alugamos um caminhão e fomos à Itália. Lá, carregamos dois VW Schwimmwagen e aproveitamos para procurar um carro anfíbio para Dieter.

Em Bobbio, uma pequena cidade e comuna italiana nas montanhas da província de Piacenza, em Emilia-Romagna, norte da Itália., encontramos um. Era meia-noite quando chegamos. Paramos num bar e perguntamos quem conhecia o dono daquele carro anfíbio guardado numa garagem pública. Era o professor Martini, que morava ali perto. Tocamos a campainha, o Sr. Martini saiu da cama e nos mostrou o VW Schwimmwagen.
Era o exemplar mais perfeito que já tínhamos visto, mas não havia documentos. Dieter ficou tão feliz que fechou negócio imediatamente por 1.200 marcos alemães — o equivalente a 300 dólares na época.

Continuamos a viagem com o caminhão e chegamos a Hannover um dia depois.

Fizemos uma pausa de alguns dias e, em seguida, retornamos a Bobbio com nosso Volkswagen comum. Pegamos o VW Schwimmwagen com um reboque e, dois dias depois, estávamos de volta a Hannover.
Dieter fez a revisão completa no “novo” VW Schwimmwagen, trocou o estofamento e outros componentes, vendeu o antigo (danificado) e, no início de 1961, ele e Siegrid embarcaram no navio SANTA ISABEL, saindo de Bremerhaven rumo a Santos.
Essa, em poucas palavras, é a aventura desse VW Schwimmwagen — o que agora está no CARDE – Arte Design Museu e que está descrito no seu artigo que eu tinha visto por acaso.
Foi por pouco…
Durante o Natal de 1961, Giulio Vogliano viajou a São Paulo acompanhado de seu amigo berlinense Friedemann Walter-Schmidt. A dupla permaneceu por quase dois meses em Santo André, hospedada na Manuplast, na casa de Walter Bernhardsgrutter. Nesse período, conviveram intensamente com Dieter Schnur, sua noiva, Siegrid, e o casal Bernhardsgrutter, inclusive passando fins de semana juntos em Bertioga — então uma vila costeira com poucas casas.

Durante essa estadia, Vogliano e Walter-Schmidt tiveram a oportunidade de se reunir com o então diretor técnico da Volkswagen do Brasil, Sr. Fischer. A conversa girou em torno da possibilidade de produzir localmente o VW Kübelwagen, veículo leve de origem militar, para o mercado brasileiro. Fischer demonstrou interesse imediato na proposta, reconhecendo o potencial do modelo para as condições sul-americanas.
O VW Kübelwagen, com apenas 550 kg de peso, possuía uma altura livre do solo cerca de 10 cm superior à do VW Fusca, o que o tornava ideal para terrenos difíceis, mesmo sem tração nas quatro rodas. Equipado com pneus especiais 200-16, semelhantes aos usados no VW Schwimmwagen, o veículo se destacava por sua capacidade de enfrentar areia e lama, características comuns em diversas regiões do Brasil.
Apesar do entusiasmo local, a ideia foi barrada pela matriz em Wolfsburg. O então presidente da Volkswagen na Alemanha, Prof. Heinrich Nordhoff, rejeitou categoricamente a proposta, alegando que relançar um veículo associado à Segunda Guerra Mundial não era apropriado para o mercado brasileiro. A decisão foi considerada lamentável por Vogliano, que via no Kübelwagen uma solução prática e robusta para o país.
Vogliano manteve contato com Dieter Schnur até seu falecimento em 1981. Após isso, perdeu o contato com a família Schnur em Santo André, encerrando um capítulo que poderia ter mudado a história da Volkswagen no Brasil — antes mesmo do lançamento do VW 181, conhecido como “a Coisa” nos EUA.
Quem é o Giulio Vogliano e que carros tem hoje em dia
Pedi ao Giulio que contasse algo sobre ele:

“Agora, um pouco sobre mim — ou melhor, sobre nós. Fui casado com Dorit Vogliano, de 1964 até seu falecimento em 2023. Ela compartilhava da mesma paixão pela Volkswagen que eu. Seu VW Kübelwagen Tipo 82, fabricado em 1944, ainda está guardado em nossa garagem aqui em Buchholz in der Nordheide, onde vivemos desde 1968.
Somos originalmente de Berlim, sendo minha esposa natural de Potsdam. Após concluir o ensino médio em Berlim, estudei Direito na Freie Universität. Em 1963, comecei a trabalhar em Hamburgo na Unilever, primeiro como pesquisador de mercado, depois como desenvolvedor de produtos e até 1973 como diretor de marketing. Em seguida, entre 1973 e 1980, fui responsável pela área de marketing de diversas empresas do grupo Dr. Oetker.
Em 1981, fundei minha própria empresa, a Unternehmensberatung Giulio Vogliano (Consultoria de empresas), com a qual atuei até 2001 prestando consultoria a fabricantes do setor alimentício na Alemanha. Meu trabalho envolvia estratégias de sortimento e posicionamento, além de treinamentos voltados à criatividade.
Minha paixão pessoal sempre foi a vela, tanto em águas interiores quanto em alto-mar. Já minha esposa era apaixonada por animais: tivemos seis Dachshund, um pastor alemão, quatro porquinhos-da-índia, cinco ovelhas da raça Heidschnucke e 36 galinhas. Durante 40 anos, cuidamos deles com muito carinho em nossa propriedade, que incluía até um estábulo com aquecimento no piso.
O lado triste dessa história é que não tivemos filhos. Hoje, sigo sozinho aos 89 anos. Mas quem sabe um dia nos encontremos para nos conhecer melhor, sonhar com o futuro — e certamente não faltará assunto para conversar.
P.S.: No próximo outono, voltarei à África e participarei de escavações no Egito, onde meu pai trabalhou como papirólogo e professor da Universidade de Milão desde 1931.”
Aí eu perguntei sobre a sua “frota de veículos”:
“Sobre minha “frota” de VW Kübelwagen e VW Schwimmwagen, posso dizer que já não possuo mais os veículos militares — com exceção do Kübelwagen que descobri próximo à minha casa, em Berlin-Zehlendorf, logo após o fim da Segunda Guerra Mundial. No entanto, não adquiri esse veículo imediatamente, pois em 1945 eu tinha apenas nove anos. Só consegui comprá-lo em 1958, em Hannover, onde o Kübel voltou a ser comercializado após o conflito.
Adquiri o Kübelwagen naquela ocasião, levei-o para Berlim e iniciei sua restauração, preparando-o especialmente para minha futura esposa. O veículo recebeu um novo chassi, derivado do VW Fusca, já equipado com freios hidráulicos, câmbio totalmente sincronizado com diferencial autoblocante e um moderno sistema de suspensão com quatro amortecedores Koni ajustáveis.
Utilizamos o Kübel como carro do dia a dia, equipado com um motor de 34 cv de potência — presente que minha esposa recebeu do próprio professor Nordhoff, então diretor da fábrica da Volkswagen. Até hoje o veículo continua em uso, tendo passado recentemente por uma revisão completa e restauração.
Atualmente, minha garagem é composta por esse VW Kübelwagen, dois Suzuki Samurai e um Mercedes 300 SE 4Matic com tração integral. O Kübel já rodou 180.000 km ao longo de 65 anos, o Mercedes acumula 360.000 km desde 1988, e os dois Suzuki, adquiridos em 1997, têm apenas 50.500 km cada — já que os usamos basicamente para fazer compras.”
Agradeço ao Giulio Vogliano por ter feito contato e depois por ter enviado todas estas informações que completaram a história dos dois VW Schwimmwagens “Brasileiros”. Nada como ter informações de quem participou ativamente da história destes icônicos veículos antigos que o destino acabou trazendo para o Brasil.
Comparando com a foto de abertura
Depois da publicação desta matéria, no dia 28 de outubro, a Karin Schnur, filha do Dieter, me enviou a foto abaixo. Ela foi tirada em Bertioga onde o pessoal costumava a curtir seus VW Schwimmwagens. A casa à direita é do tio da Karin.

Comparando esta foto com a foto de abertura dá para perceber que hoje em dia este VW Schwimmwagen está bem conservado e agora, fazendo parte do acervo do Carde, ficará preservado para a admiração das gerações futuras.
AG
(Atualizada em 28/10/25 às 14h30 com o acréscimo da foto de Bertioga)
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