Dia 6 de novembro último participei do Seminário Internacional Frotas e Fretes Verdes, promovido pelo Instituto BESC e achei muito relevante a palestra da Danielle Bernardes, da CNT (Confederação Nacional dos transportes).
Entre a apresentação dela e o material disponibilizado no site da própria CNT, escrevi a coluna desta semana para indicar os impactos de um dos elementos que denominamos: “Custo Brasil”.
O Brasil possui um total de 1.720.909 km de rodovias e destes, 157.309 km (9,1%) são rodovias planejadas, ou seja, nem saíram do papel. 1.350.100 km são de rodovias não pavimentadas, totalizando o elevado número de 78,5% e apenas 12,4% ou 213.500 km são pavimentados.
Isto se torna crítico quando observamos os dados de outros países:
– EUA: 6,586,610 km de rodovias pavimentadas
– Índia: 6,371,847 km
– China: 5,200,000 km
– Rússia: 1,579,291 km
– França: 1,090,059 km (o país cabe no Estado de São Paulo)
– Argentina: 703,087 km (com um território 1/3 do Brasil)
Usando um outro critério, o de malha rodoviária pavimentada por mil quilômetros, teríamos outro fator negativo a comparar:
– China: 447,0 km
– EUA: 437,8 km
– África: 129,7 km
– Austrália: 94,0 km
– México: 89,4 km
– Rússia: 54,3 km
– Uruguai: 43,9 km
– Argentina: 42,3 km
– Canadá: 41,6 km
– Equador: 31,4 km
– Brasil: 25,1 km
– Paraguai: 21,1 km
– Bolívia: 8,9 km
E ainda pior quando lembramos que nossa economia escoa fundamentalmente pelas estradas. Pouco, ou quase não utilizamos outros meios de transporte como navios ou trens para movimentar a nossa economia internamente. Segundo documento da própria CNT, “o modo rodoviário tem um papel de destaque na matriz de transporte nacional, tanto no segmento de passageiros quanto de cargas. Isso se deve ao fato deste modo ser responsável por movimentar 95% dos passageiros e 65% das cargas no país.”
E a falta de investimento nesta área é tão gritante que, observando os dados públicos disponíveis de frota circulante brasileira disponibilizados pela Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran) e a malha rodoviária federal asfaltada, disponíveis em 2013 e em 2023, chegaremos nos seguintes números: 
Foram 2,2% de aumento na malha contra 46,1% de aumento na frota circulante.
(Nota técnica: apesar de oficiais, os números de frota circulante acima são superdimensionados pela Senatran e não são utilizados por ninguém com o mínimo conhecimento na iniciativa privada; outras empresas privadas atuam com competência no oferecimento destes números; como, por exemplo, a IDFACTS. Neste contexto, vamos nos atentar apenas as diferenças percentuais observadas).
Um último indicador vale ser citado. Num ranking triplo, composto por qualidade, conectividade e infraestrutura rodoviária, o Brasil ficou mal na foto. O ranking, elaborado com dados de 2019 do Fórum Econômico Mundial e igualmente disponibilizado pelo estudo da CNT, teve os seguintes resultados:
– País: Qualidade / Conectividade / Infraestrutura Rodoviária
– Brasil: 116º / 69º / 93º
– Equador: 35º / 100º / 63º
– Uruguai: 86º / 25º / 54º
– Argentina: 92º / 12º / 42º
– Chile: 25º / 9º / 16º
Os dados não são atuais mas exemplificam o momento de nossas estradas e de certa forma explicam os acidentes com mortes numa das estradas que mais matam no mundo.
Consequências
O aumento da frota, poucas rodovias pavimentadas (12,4%) e a baixa qualidade das que são asfaltadas causam efeitos indesejados para a sociedade e meio ambiente. Não vou considerar o fator morte acima citado, mas explorarei o aumento do consumo de combustível, aumento das emissões de gases tóxicos e aumento dos custos para o transportador.
Segundo estudos indicados no estudo, o Brasil alcançou no ano de 2023 a marca de 313,9 meg toneladas equivalentes de petróleo (Mtep). Deste total, 35% é destinado ao setor de transportes. E, olhem só, 93,9% de todo este setor de transportes tem seu consumo vinculado ao modo rodoviário, seguido pelo aéreo (3,5%), ferroviário (1,4%) e hidroviário (1,2%) corroborando a afirmação acima de que nossa economia escoa pelas estradas.
Dentro do setor de transporte, o modo rodoviário registrou o maior consumo de diesel com 96,7% (46,2 bilhões de litros) seguido pelo setor ferroviário (2,4%) e pelo hidroviário (0,9%).
As proporções certamente mudaram levemente nos últimos dois anos, mas as fontes fósseis utilizadas pelo setor com relação ao consumo de energia no transporte rodoviário brasileiro em 2023, o óleo diesel foi o maior consumidor com 44,7% do total (39.170 x 10³ tep), seguido pela gasolina (29,5%), etanol (18,4%), Biodiesel (5,4%) e o gás natural (2,0%).
No mesmo trabalho, estudos da Universidade de São Paulo (USP) indicaram que um pavimento classificado como regular, ruim ou péssimo aumenta em até 5,0% o consumo de diesel dos veículos que por ela trafegam quando comparados às rodovias de boa ou ótima qualidade.
As irregularidades nas rodovias obrigam os motoristas a frear de forma muito mais frequente e ter que reacelerar toda aquela massa de ferro e sua carga, acarretando um aumento do consumo de combustível e de componentes mecânicos como pneus, óleos lubrificantes, suspensão e do próprio sistema de freios.
O Centro de Economia Energética e Ambiental (Cenergia) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) fez um teste com um caminhão Volvo FH 540 6×4 e indicou que o alcance do caminhão foi reduzida em 14,7% ao passar de uma rodovia de ótima qualidade de dirigibilidade para uma rodovia classificada como péssima no mesmo quesito; e segundo o Protocolo Greenhouse Gas Emission, os veículos passaram a emitir 17,3% a mais de CO2 por quilômetro rodado. Se a forma de condução tivesse sido modificada para um padrão de supereconomia, os ganhos em relação ao alcance poderiam atingir valores ainda superiores, de 30,6%.
Ainda segundo o estudo, veículos que trafegam em rodovias com pavimento classificados como “muito bom” e “excelente” apresentam, em média, uma redução de 2,5% nas emissões de CO, NOx, MP e SO2, em relação aos que trafegam por rodovias classificadas como “muito ruins”.
A Pesquisa CNT de Rodovias 2024 também observou que 56,9% dos pavimentos das rodovias avaliadas (de um total de 111.853 quilômetros) estão com algum tipo de problema:
– 31,2% Ótimo
– 11,9% Bom
– 34,7% Regular
– 16,3% Ruim
– 5,9% Péssimo
Com base em todos estes números desanimadores, o estudo da CNT apresentou a perda de 1,184 bilhão de litros de diesel (1.184.288 m³£) por caminhões e ônibus rodoviários pelo uso de pavimentos de baixa qualidade e indicou a emissão de 3,13 milhões de toneladas de gases de efeito estufa na atmosfera (MtCO,e), considerando o dióxido de carbono (CO2), o óxido nitroso (N2O) e o metano (CH4) queimados desnecessariamente.
A conclusão que faltava…
A Associação Brasileira de Operadores Logísticos estimou em 2024 que, como consequência direta das perdas financeiras na infraestrutura rodoviária brasileira, levar a soja do Brasil à China chega a custar US$ 62,50 a mais por tonelada em relação ao transporte do mesmo produto proveniente dos concorrentes baseados no estado de Illinois, EUA.
Esta é a exemplificação prática do que denominamos por Custo Brasil e é o quen no fimn deixa o país menor competitivo.
MKN
A coluna “Visão estratégica” é de exclusiva responsabilidade do seu autor.





