Está aí uma questão que durante décadas foi alvo de discussões, muitas vezes acirradas. Apreciadores de uma delas em sua defesa e atacando a outra, e vice-versa.
Há décadas elejo tração pelo resultado, não onde ela está. O que importa é ela ser boa no carro, o que tem relação com outros elementos do veículo como suspensão, direção e distância entre eixos.
Um bom exemplo desse critério é o Passat B1, o que chegou aqui em junho de 1974. Foi o primeiro Volkswagen produzido no Brasil com tração dianteira. O sistema era perfeito tomando como base o que se conhecia, o DKW-Vemag e o Citroën 11.
Ao contrário desses dois, a direção do VW era absolutamente insensível à potência que chegava às rodas dianteiras. Era como se elas não fossem motrizes. Isso fora o excelente comportamento dinâmico e equilíbrio irrepreensíveis, antítese dos carros da marca até então. Muitos clientes da minha concessionária VW, no Rio de Janeiro, confessavam não saber que a tração do Passat era dianteira.
O Corcel, lançado em outubro de 1968, também tinha tração dianteira. Era boa, mas a suspensão dianteira tinha curso de distensão praticamente zero e à menor rolagem numa curva a roda interna saía do chão e patinava, desabonando a tração dianteira, inocente neste caso. Falei sobre isso no segundo parágrafo.
Quem, como nós, teve oportunidade de dirigir o Renault Mégane RS se surpreendeu com seu comportamento preciso que absolutamente não denunciava ser um carro de tração dianteira.

O calcanhar de aquiles da tração dianteira sempre foi a junta universal das semiárvores da tração, uma peça que, por sua construção, tem aceleração positiva e negativa entre suas duas partes a cada volta da semiárvore, o que ocasionava oscilação do volante nas curvas quando se aplicava potência. Além disso, a junta universal não permitia grande ângulo de esterçamento das rodas e era relativamente frágil. Com o advento da junta homocinética, palavra derivada do grego homos + kinein, velocidades iguais, todos esses problemas desapareceram. E mais, essa junta é extremamente robusta e durável, e não requer manutenção senão verificar se a coifa protetora, de borracha, não se danificou.
Vale salientar que a junta homocinética é necessária até na motorização elétrica, seja a tração dianteira ou traseira, pelo fato de a suspensão destes veículos ser invariavelmente independente nas quatro rodas.
O dirigir
Do ponto de vista de dirigir há apenas um caso em que a tração traseira é essencial: o drifting. Nessa modalidade esportiva a tração dianteira é inservível, pois a saída de traseira inicial é provocada pela aplicação do freio de estacionamento e a atitude para ser mantida exige muita potência nas rodas traseiras.
Fora essa necessidade específica, é indiferente a tração ser dianteira ou traseira. Sua escolha, pelo fabricante, ser questão apenas de construção e utilização. Hoje há vans e furgões tanto de tração dianteira quanto traseira.
Na questão da tração em duas rodas ser deficiente quando o piso é escorregadio, seja no plano ou em subidas, o que prevalece é o conjunto motriz, motor e transmissão, estar junto das rodas motrizes, sejam elas dianteiras ou traseiras.
Com tração dianteira é possível avançar em piso escorregadio esterçando para um lado e para o outro em sucessão, recurso impossível com tudo atrás, como também com motor dianteiro e tração traseira. Nesse ponto, quanto maior for a distância entre eixos, melhor, pois a transferência de peso para a traseira é menor e assegura mais peso sobre as rodas dianteiras.
Deve ser lembrado que Saabs e Minis, de tração dianteira, colecionaram várias vitórias na classificação geral no Rali de Monte Carlo, sempre realizado no começo do ano, no inverno e com neve.
O que importa no final das contas é o projeto do carro, mais do que a localização da tração. Por isso o título desta matéria.
BS
A coluna O editor-chefe fala é de exclusiva responsabilidade do seu autor.






