Caro leitor ou leitora,
Anunciamos a chegada de um novo editor ao AE. Seu foco será veículos de duas rodas e afins (MOTOentusiastas), mas falará de automóveis também, nos quais tem vasta experiencia.
Claudio Tivirolli Giusti (foto) é executivo sênior, engenheiro e entusiasta das duas rodas, com mais de 20 anos de atuação em posições de liderança nas principais marcas do setor. Desenvolveu estratégias de vendas, pós-vendas, marketing e expansão em multinacionais como a Yamaha, atuando na estruturação comercial, no relacionamento com concessionários e no fortalecimento de peças e acessórios. Na Royal Enfield Brasil, teve papel central na implantação da subsidiária, na formação de equipes e na consolidação da marca no país, lançando produtos, serviços e eventos que ampliaram sua relevância no mercado.
Sua experiência inclui programas de fidelização, gestão multicultural de equipes e planejamento estratégico para o segmento de motocicletas urbanas e clássicas. A vivência como motociclista complementa a atuação executiva, trazendo leitura de mercado e da cultura motociclística. Especialista em gestão, operações e relacionamento com dealers, Claudio representa o espírito inquieto do setor e acrescenta ao AUTOentusiastas uma visão completa da indústria, das tendências globais e da paixão pelas motos icônicas de marcas como Yamaha e Royal Enfield.
Bem-vindo ao AE, Claudio!
Paulo Manzano – editor-geral Bob Sharp – editor-chefe
A REVOLUÇÃO SILENCIOSA: MOTOS ELÉTRICAS ENFRENTAM O DESAFIO DA INFRAESTRUTURA
O mercado brasileiro de motocicletas vive um momento paradoxal em 2025. Enquanto as vendas de motos convencionais batem recordes históricos, com projeção de ultrapassar 2,15 milhões de unidades emplacadas no ano, um movimento silencioso, porém significativo, acontece nas ruas: a chegada das motos elétricas. O crescimento desse segmento impressiona, mais de 100% no primeiro trimestre de 2025 em comparação ao ano anterior, com 3.452 unidades licenciadas contra apenas 1.686 em 2024.
Para quem acompanha a indústria motociclística brasileira há décadas, esse cenário traz à tona questões fundamentais sobre mobilidade urbana, sustentabilidade e os desafios estruturais que ainda impedem uma transição energética mais acelerada no país. A pergunta que muitos entusiastas e consumidores fazem é: estamos realmente prontos para essa mudança?
O contexto do crescimento explosivo
Os números impressionam, mas precisam ser contextualizados. Mesmo com crescimento de 104% no primeiro trimestre, as motos elétricas ainda representam menos de 0,5% do mercado total de duas rodas no Brasil. Para efeito de comparação, a Honda CG 160, campeã de vendas há 48 anos consecutivos, emplacou sozinha mais de 367 mil unidades até outubro de 2025, volume que supera em quase 55 vezes todo o mercado de motos elétricas do ano.

Esse crescimento acelerado das elétricas é impulsionado principalmente por parcerias estratégicas entre empresas de aplicativos de entrega e transporte. A aliança entre 99, Vammo e Riba Brasil colocou milhares de motos elétricas nas ruas de grandes centros urbanos, com a 99 projetando alcançar 10 mil unidades até o fim do ano. O modelo CPX Comfort, com 23% mais potência que antecessores e alcance de até 100 km, exemplifica como a tecnologia evolui para atender demandas operacionais específicas, especialmente no segmento de entrega em domicílio.
Os desafios estruturais que travam a expansão
A euforia com os números de crescimento esconde uma realidade onde a infraestrutura brasileira ainda não está preparada para suportar uma adoção massiva de veículos elétricos. O Brasil conta atualmente com aproximadamente 15 mil eletropostos públicos e semipúblicos, concentrados majoritariamente nas regiões Sudeste e Sul. Para motos elétricas, a situação é ainda mais crítica, já que a maioria dos modelos depende de tomadas convencionais, limitando seu uso a percursos urbanos curtos.
O desafio da recarga vai além da quantidade de pontos disponíveis. A velocidade de carregamento continua sendo um gargalo significativo. Enquanto abastecer uma moto convencional leva poucos minutos, recarregar uma bateria pode demorar horas, dependendo do tipo de carregador utilizado. Sistemas de troca rápida de baterias (battery swap), como os implementados pela Vammo, representam soluções promissoras, mas ainda estão longe de ser universalizados.
A distribuição geográfica desigual agrava o problema. Norte e Nordeste apresentam cobertura insuficiente, criando verdadeiros desertos energéticos que inviabilizam o uso de motos elétricas para deslocamentos mais longos ou viagens intermunicipais. Para um país continental como o Brasil, essa fragmentação representa um obstáculo considerável à popularização da tecnologia.
Segurança: um tema importante
O aumento exponencial de motos elétricas nas ruas trouxe à tona uma discussão frequentemente negligenciada: a segurança no trânsito. Segundo especialistas, as características particulares dessas motocicletas exigem adaptação tanto dos condutores quanto dos demais usuários das vias.
O torque imediato e a aceleração linear facilitam arrancadas fortes, comportamento que pode surpreender pilotos acostumados com a resposta progressiva dos motores a combustão. Mais preocupante é o silêncio quase absoluto dessas motos em baixas velocidades, que reduz drasticamente a percepção por pedestres e outros motoristas, aumentando especialmente o risco de atropelamentos em áreas urbanas movimentadas.

A frenagem regenerativa, sistema que converte energia cinética em elétrica durante a desaceleração, altera completamente a sensação de resposta do veículo. Pilotos inexperientes podem ser pegos de surpresa, gerando situações de risco. Especialistas do setor recomendam treinamentos específicos de adaptação, incluindo práticas de arrancadas suaves, frenagens progressivas e planejamento cuidadoso de alcance.
Vale ressaltar que, embora dispensem troca de óleo, as motos elétricas não são isentas de manutenção. Pneus, freios e suspensão seguem essenciais, e as baterias requerem cuidados especiais na recarga e armazenamento para garantir durabilidade e segurança.
Regulamentação chega em dezembro
Um fator que adiciona urgência ao debate é o prazo estabelecido pela Resolução nº 996/2023 do Contran. Até 31 de dezembro de 2025, todos os proprietários de ciclomotores e motos elétricas devem regularizar seus veículos no Renavam. A partir de 1º de janeiro de 2026, veículos irregulares não poderão mais circular nas vias públicas, sob pena de apreensão e multa.
A resolução diferencia claramente três categorias de veículos autopropelidos: bicicletas elétricas (até 1.000 W (, com pedal assistido, velocidade máxima de 32 km/h, sem necessidade de emplacamento); equipamentos autopropelidos como patinetes (até 1.000 W/1,32 cv e 32 km/h, sem emplacamento, mas com normas de segurança); e ciclomotores (acima de 1.000 W, até 4.000 W/5,3 cv, velocidade máxima de 50 km/h, exigindo registro no Renavam e habilitação categoria A ou ACC).
Essa regulamentação busca organizar um mercado que cresceu de forma desordenada nos últimos anos. No entanto, ela também expõe a falta de preparo de muitos condutores e a ausência de fiscalização efetiva. O desafio agora é garantir que os órgãos de trânsito tenham estrutura para processar o volume de regularizações e que haja campanhas educativas para conscientizar a população sobre as novas exigências.
Custo-benefício: a conta ainda não fecha para todos
Um dos maiores entraves à popularização das motos elétricas no Brasil continua sendo o preço. Modelos básicos custam entre R$ 8 mil e R$ 10 mil, enquanto motocicletas intermediárias podem facilmente ultrapassar os R$ 30 mil. Para comparação, uma Honda Biz 125 2025, modelo consagrado de baixo consumo, sai por R$ 12.600, enquanto a campeã CG 160 Start custa R$ 16.194.
A diferença de preço reflete dois problemas estruturais: tributação elevada e escala de produção reduzida. Enquanto países como China e Índia produzem milhões de unidades por ano, o Brasil trabalha com lotes pequenos, frequentemente importados. O custo das baterias, componente mais caro de uma moto elétrica, ainda não atingiu patamares competitivos no mercado nacional.
A economia operacional, porém, é inegável. O custo por quilômetro rodado de uma moto elétrica pode ser até 70% inferior ao de modelos a combustão. Para quem roda muitos quilômetros diariamente, especialmente profissionais de entregas em domicílioo, o retorno do investimento pode vir em menos de dois anos. A manutenção simplificada, sem troca de óleo, filtros ou velas, também contribui para reduzir o custo total de propriedade.
O problema é que o consumidor brasileiro típico não tem capital inicial para fazer esse investimento de longo prazo. Com taxas de juros básicas em 15% e crédito restrito, a maioria opta por modelos convencionais financiados ou adquiridos via consórcio, modalidade que responde por mais de 30% das vendas de motos no país e não é afetada pelos juros altos.
O contraste com o mercado convencional
Enquanto as motos elétricas lutam por espaço, o mercado convencional vive seu melhor momento. Outubro de 2025 registrou crescimento de 26% nas vendas de motos a combustão, com o acumulado do ano chegando a 1.823.552 unidades, alta de 15,6% sobre 2024. O setor deve fechar o ano com recorde histórico, superando as 2 milhões de unidades pela primeira vez.
Esse desempenho robusto é impulsionado por fatores estruturais: baixo custo de aquisição, facilidade de crédito via consórcio, uso intensivo por profissionais de entregas em domicílio e mototáxi, e uma rede de concessionárias e assistência técnica consolidada em todo o país. A Honda domina o mercado com aproximadamente 70% de participação, seguida por Yamaha e Shineray.
Os lançamentos de 2025 confirmam que as fabricantes tradicionais não estão paradas. A Honda apresentou renovações completas na CG 160, com novo design, lanterna LED, painel digital com indicador de marcha e freios ABS na versão topo de linha. A Yamaha trouxe a aguardada Ténéré 700, enquanto a Royal Enfield confirmou cinco novos modelos, incluindo a linha com motor 450-cm³. São pelo menos 41 lançamentos de 15 marcas diferentes previstos apenas para 2025.
Esse contraste revela uma indústria em dois tempos: de um lado, a evolução incremental de tecnologias maduras e consolidadas; de outro, a experimentação com alternativas disruptivas que ainda buscam viabilidade comercial e aceitação do mercado.
Perspectivas e o caminho à frente
A transição para a mobilidade elétrica no Brasil não será rápida nem linear. Os dados de 2025 mostram que o crescimento percentual impressionante das motos elétricas parte de uma base muito pequena. Mesmo mantendo taxas de crescimento de 100% ao ano, levaria uma década para que esse segmento representasse uma fatia significativa do mercado.
O futuro depende de três pilares fundamentais: políticas públicas de incentivo fiscal, expansão maciça da infraestrutura de recarga e ganho de escala na produção que permita reduzir preços. Iniciativas como a Aliança pela Mobilidade Sustentável, que reúne 23 companhias comprometidas com a eletrificação, sinalizam que há interesse e mobilização do setor privado. Mas sem apoio governamental estruturado, os avanços serão lentos.
A experiência internacional mostra que a transição energética no setor de duas rodas pode ser mais rápida que a dos automóveis, especialmente em países em desenvolvimento onde motos representam o principal meio de transporte. China e Índia já contam com milhões de motos elétricas em circulação. O Brasil tem potencial para seguir esse caminho, especialmente considerando nossa matriz energética majoritariamente renovável.
Para os entusiastas de motocicletas, esse é um momento de observação atenta. As motos elétricas ainda não replicam a experiência sensorial da combustão, o ronco do motor, a vibração, o cheiro da gasolina, elementos que fazem parte da paixão pelo motociclismo. Mas oferecem algo novo: silêncio, aceleração instantânea, economia operacional e a satisfação de contribuir para cidades menos poluídas.
Conclusão: entre a revolução e a realidade
O crescimento de 104% nas vendas de motos elétricas no Brasil em 2025 é, simultaneamente, motivo de celebração e reflexão. Celebrar o progresso é necessário, mas reconhecer os desafios é fundamental para superá-los.
A infraestrutura de recarga insuficiente, o custo inicial elevado, a necessidade de treinamento específico para pilotos, a regulamentação em fase de implementação e a distribuição geográfica desigual são obstáculos concretos que precisam ser enfrentados com seriedade por governo, indústria e sociedade.
Por outro lado, o Brasil demonstra capacidade de inovação quando há convergência de interesses. A parceria entre empresas de aplicativos e fabricantes de motos elétricas, a entrada de novas marcas no mercado, o interesse crescente dos consumidores urbanos e a pressão global por sustentabilidade criam um cenário favorável para avanços nos próximos anos.
A revolução elétrica nas duas rodas está apenas começando no Brasil. Ainda é uma revolução silenciosa, tanto pelo baixo ruído dos motores quanto pela pequena participação de mercado, mas que pode ganhar volume rapidamente se as condições adequadas forem criadas. Para quem acompanha a indústria motociclística, esse é um capítulo fascinante de transformação que está apenas começando a ser escrito.
O futuro da mobilidade urbana brasileira será elétrico? Provavelmente sim. Mas a pergunta mais importante é: quando e como chegaremos lá? As respostas estão sendo construídas agora, nas ruas de nossas cidades, nos escritórios das fabricantes, nas mesas de negociação entre governo e setor privado, e nas decisões de cada consumidor que considera trocar a combustão pela eletricidade. O que é certo é que não podemos nos dar ao luxo de chegar atrasados nessa corrida.
CG




