Uns dias atrás meu amigo e ex-colega Hermann Weege, de Pomerode, SC, me enviou o link de uma matéria do Jornal de Pomerode que, na verdade, se enquadra no que eu chamo de “causo” aqui na coluna “Falando de Fusca & Afins”.
Fiquei interessado em publicar este material e entrei em contato com a redatora Isadora Brehmer que permitiu a publicação de seu material. Ela também enviou algumas fotos que não foram originalmente usadas na publicação do Jornal de Pomerode, e que eu acabei usando duas delas.
O Hermann entrou em contato com o Duan, personagem deste causo, que contou que seu avô chamava o seu VW Fusca de Herbie, como veremos adiante no texto.
Uma das fotos adicionais que a Isadora me enviou acabou sendo a foto de abertura. Ela mostra o Duan, talvez com uns sete anos de idade, ao lado do Herbie, segurando, feliz da vida, um saco com guloseimas.
Pomerode: onde o Brasil encontra a Alemanha
Imagine uma pequena cidade cercada por morros verdes, rios tranquilos e casas que parecem saídas de um vilarejo europeu. Essa é Pomerode, em Santa Catarina, conhecida como a cidade mais alemã do Brasil. Fundada no século XIX por imigrantes vindos da Pomerânia, ao norte da Alemanha, ela guarda até hoje o sotaque, os costumes e o espírito comunitário de seus primeiros habitantes.

Ao caminhar por suas ruas, o visitante encontra construções no estilo enxaimel, com madeira aparente e telhados inclinados, que dão a sensação de estar em uma aldeia germânica.

Mas não é só a arquitetura que encanta: em Pomerode, a cultura pulsa em cada detalhe. Muitos moradores ainda falam alemão ou pomerano, e as festas típicas — como a Festa Pomerana — enchem a cidade de música, dança e trajes coloridos, celebrando tradições que atravessaram o oceano.
A mesa pomerodense também é um convite à convivência. Cuca fresquinha, strudel de maçã, linguiças artesanais e cervejas locais fazem parte da rotina, e cada refeição é uma oportunidade de compartilhar histórias. É nesse ambiente acolhedor que o visitante percebe: Pomerode não é apenas um destino turístico, mas um lugar onde se vive o valor da família e da comunidade.

Entre o canto dos pássaros e o aroma de pão saindo do forno, Pomerode transmite uma sensação de lar. Talvez seja por isso que histórias singelas, como a de um VW Fusca que acompanhou gerações da família Lueders, ganhem tanto significado. Afinal, em Pomerode, cada memória é preservada com carinho, como parte de um grande álbum coletivo que mistura Brasil e Alemanha em páginas de afeto e tradição.
Agora passamos para a reprodução da matéria do Jornal de Pomerode:
Um VW Fusca, uma vida inteira de memórias: a história da família Lueders
O carro, do ano 1978, é parte das recordações mais especiais da família
Por: Isadora Brehmer
Na garagem da família Lueders, em Pomerode, descansa um VW Fusca 1978 que, para qualquer olhar desatento, pode parecer apenas mais um carro antigo. Mas para Duan Lueders e sua avó, Irene, o veículo guarda mais de quatro décadas de histórias, memórias e afetos. Ele chegou à família em 1981, comprado por Ronaldo Lueders, já falecido, e desde então nunca mais saiu de perto.

“O meu Opa (NR. avô em alemão) comprou o VW Fusca como segundo dono, ele tinha rodado menos de 20 mil quilômetros. Era praticamente novo, uma grande sorte nossa. Esse carro nunca nos incomodou muito e sempre foi especial. Eu lembro das viagens de família, das vezes em que eu aprendi a dirigir com ele ainda na frente de casa, e até dos sustos, quando ele não queria ligar e a gente precisava dar tranco. É como se cada lembrança da nossa família estivesse guardada dentro desse carro”, conta Duan.

O esforço para conquistar
O VW Fusca foi adquirido com muito trabalho e perseverança. Irene recorda que, na época, a família vivia de uma rotina simples, mas cheia de dedicação. “Nós plantávamos arroz na frente de casa, batíamos no rancho (para separar os grãos das espigas) que tínhamos aqui e, também, vendíamos leite. Era um tempo muito difícil, porque o Ronaldo ficou doente quase a vida inteira. Ele sofreu um acidente, bateu a cabeça, precisou de próteses dos dois lados, passou por três cirurgias e depois ainda enfrentou o Alzheimer e um derrame que o deixou paralisado. Mesmo assim, nós conseguimos juntar dinheiro, mês a mês, para pagar o carro. Quando penso nisso, vejo que o VW Fusca é mais do que um bem material. Ele representa a nossa força, a nossa perseverança e tudo o que construímos juntos, apesar das dificuldades.”

Memórias do avô Ronaldo
Mesmo após o derrame que o deixou 13 anos dependente do uso das muletas e às vezes da cadeira de rodas, Ronaldo não deixava de visitar o carro. “Ele ia até a garagem, de muletas, e ficava parado olhando o VW Fusca. Aquilo sempre me marcou muito, porque mostrava que, mesmo doente, ele não perdia o amor pelo que tinha conquistado. Ele chamava o VW Fusca de ‘meu Herbie’. Aquela cena dele olhando para o carro todas as manhãs é uma imagem que nunca mais saiu da minha memória”, relata Irene.
Para Duan, o VW Fusca também é um elo direto com o avô. “Eu fecho os olhos e consigo ver meu Opa dirigindo com uma almofada embaixo do banco, porque ele era baixinho. Foi uma das últimas vezes que o vi ao volante. Essas imagens ficam na nossa cabeça são memórias que não dá para apagar. Cada vez que entro no VW Fusca, é como se estivesse revivendo um pedacinho da vida dele.”
O VW Fusca como herança afetiva
Depois da morte de Ronaldo, em 2018, o carro passou a ser cuidado por Duan. Ele tirou a habilitação em 2020 e teve um ano inteiro de experiências com o veículo. “Eu fiquei um ano inteiro só andando com ele, era só meu. Claro que, com o tempo, ele foi cobrando, pedindo manutenção, mas sempre manteve sua essência. É engraçado, porque muitas vezes amigos meus vinham em casa só para dar uma volta de VW Fusca. O carro tem uma magia própria, que faz a gente se apegar de um jeito que não dá para explicar.”

A avó reforça o quanto o automóvel foi fundamental no dia a dia da família. “Uma vez fomos para Massaranduba e a estrada estava toda alagada. Saímos de casa às dez e meia da manhã e só chegamos no destino depois das duas e meia da tarde. Ficamos horas parados esperando a água baixar, e o VW Fusca lá, firme, nos levando. Outra vez, em 2011, também enfrentamos uma enchente quando ele precisou levar o Duan para a escola. O carro passou pelo meio da água, e deu tudo certo. Ele sempre nos serviu com fidelidade”, recorda Irene.
Entre sustos e risadas
A juventude de Duan também foi marcada por momentos divertidos com o carro. “Teve uma vez que fui buscar lanche com uma amiga e o carro não pegava de jeito nenhum. Eu falei: ‘Hoje tu vai aprender a ligar no tranco’. Empurramos ele no estacionamento até ligar. São memórias que não têm preço. O VW Fusca tem dessas histórias que a gente não esquece.”
Um sonho de restauração
Hoje, mesmo parado há cerca de um ano, o veículo continua funcionando. Duan faz questão de mantê-lo ativo. “Uma vez por semana eu ligo ele, às vezes dou uma lavada, só para não deixar que se acabe. Não quero que chegue ao ponto de não ter mais o que fazer. Eu sei que vai dar trabalho, mas acredito que ainda vamos restaurar o VW Fusca. Ele merece continuar conosco, porque representa a nossa família, nossa luta e nossa memória.”
A ideia da restauração já virou até vaquinha virtual. O jovem sonha em devolver ao carro o brilho de outros tempos e garantir que ele siga fazendo parte da vida da família. “Algumas pessoas já vieram oferecer, dizendo que queriam transformar em gaiola ou usar as peças, mas como vender um carro que acompanhou uma vida inteira? O VW Fusca é uma parte de nós, não apenas um bem material. Por isso, quero restaurá-lo. Meu sonho é que meus filhos e netos um dia tenham com ele as mesmas experiências que eu tive.”
Mais que um automóvel
Mais do que um carro antigo, o VW Fusca 78 é um símbolo de perseverança e afeto. Para os Lueders, cada detalhe do veículo carrega uma lembrança: uma viagem de família, uma manhã de chuva, ou simplesmente o olhar carinhoso de Ronaldo ao vê-lo na garagem.
Restaurá-lo, para Duan e Irene, é manter viva uma herança. Uma herança feita não apenas de metal e rodas, mas de amor, superação e pertencimento.
Agradeço ao Hermann Weege por ter enviado o link que resultou neste causo. Agradeço em especial à Isadora Brehmer por ter dado a permissão para o uso do material dela e por ter enviado o excedente de fotos que tinha em seu acervo.
AG
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