Dizem que o destino é traçado por escolhas, mas, no caso de Fernanda Carolina, ele parece ter sido fundido em liga de magnésio e usinado com precisão alemã.
Para muitos, a paixão pelos carros é um hobby que chega com a CNH; para Fernanda, foi a moeda de troca para encerrar a primeira fase da infância.
A história, resgatada recentemente por sua mãe, Dona Lúcia, é digna de nota: aos três anos, diante da resistência da pequena em largar as chupetas, surgiu uma proposta irrecusável. O “Papai Noel” de uma loja de brinquedos sugeriu que, se ela entregasse todos os seus “bicos” para serem derretidos, eles se transformariam em um reluzente Mercedes-Benz de pedal.

No dia seguinte, sem qualquer relutância, as chupetas foram entregues. O conforto do colo deu lugar ao prazer do volante. O destino estava selado.
De Interlagos ao chassi
Fernanda é o que podemos chamar de “entusiasta completa”. Não se trata apenas de estética; trata-se de entranhas. Enquanto outras crianças desenhavam casas e árvores, ela, aos 10 anos, copiava os traços dos carros (muitos deles VW) das páginas da Quatro Rodas que o pai assinava.
O amor cresceu tanto que transbordou para a pele: hoje, ela carrega tatuagens que explicam sua essência — o traçado de Interlagos no braço e, no peito, um coração que é metade humano, metade mecânico, pulsando com engrenagens e pistões.


Quando chegou a hora de escolher a carreira, o conselho paterno foi clássico: “Filha, faça Medicina”. No que ela, em um ato de sutil e maravilhosa rebeldia interpretativa, entendeu: “Oficina!”. Matriculou-se em Engenharia Mecânica na Federal de Goiás.
Mas a teoria dos bancos acadêmicos parecia silenciosa demais para quem queria o som da graxa e do metal. Buscou o Senai para aprender o que os livros não ensinavam: como as coisas realmente funcionam sob o capô.

A sinfonia de Beethoven
Aos 20 anos, Fernanda realizou o primeiro sonho: um BMW E36 preto, do mesmo ano de seu nascimento (1995).

Mas o “vírus” do Volkswagen arrefecido a ar é persistente. Trabalhando na renomada Mamede Haus*, em Goiânia, ela decidiu cometer o que muitos amigos chamaram de loucura: vendeu o refinado BMW para comprar um VW Fuscão 1971.

Batizado de “Beethoven”, o VW Fuscão não recebeu esse nome por acaso. “Ele faz lindas sinfonias”, justifica Fernanda. Mas para a música ser perfeita, a engenheira não aceitou atalhos

O carro foi “desencarroçado”, o chassi restaurado do zero e o “chapéu de Napoleão” devidamente recuperado.

Por fora, a pátina e os sinais do tempo contam a história do carro. Por dentro, a engenharia fala alto: o motor 1800 é uma joia preparada com pistões de 90,5 mm, comando FK8 e dupla carburação 40. Tudo montado com o capricho da “capela” de 1200 deslocada — um detalhe técnico que é puro charme para quem entende do riscado.

O salto para o asfalto paulista
A competência de Fernanda a levou para a curadoria de coleções impressionantes, cuidando da gestão e manutenção de mais de 45 carros. Foi nesse ambiente de alto nível que ela encontrou um galão de óleo verde chamativo com os dizeres: LIQUI MOLY – Made in Germany.

A conexão foi imediata. “Se é alemão, é bão”, brinca ela, com seu sotaque goiano. A paixão pela marca e a profundidade técnica que demonstrou ao testar e indicar os produtos chamaram a atenção da diretoria da empresa no Brasil. O convite para mudar-se para o estado de São Paulo e assumir a frente de marketing, eventos e parcerias da marca foi a coroação de uma trajetória de dedicação.
Hoje, Fernanda assessora clientes e dá palestras, combatendo a maior vilã dos motores: a desinformação. Ela ensina que óleo não é “tudo igual” e que a manutenção preventiva é a única forma de garantir que histórias sobre rodas continuem sendo escritas.

Atualmente, Fernanda vive a fase de adaptação à cidade de Arujá (onde a empresa fica localizada). O “Beethoven” ainda está em Goiânia, mas o plano já está traçado: em breve, o motor 1800 voltará a reger sua sinfonia pelas avenidas da região da Grande São Paulo, provando que, para uma engenheira que trocou um hábito infantil por engrenagens, o amor pelo VW Fusca é o combustível que nunca acaba.
Dicas da Engenheira: O Caminho para a Longevidade do seu Antigo
Aproveitando o conhecimento técnico de quem cuida de coleções e lida diariamente com a química dos lubrificantes, Fernanda deixa um recado valioso para os leitores:
“A manutenção preventiva é sempre a melhor escolha; a corretiva cobra um preço alto demais em dinheiro, tempo e, principalmente, dor de cabeça”, alerta Fernanda. Segundo ela, o segredo para a vida longa do motor não é nenhum mistério, mas sim disciplina: usar o óleo correto e respeitar o prazo de troca. “O lubrificante certo reduz atrito, controla a temperatura e mantém o motor limpo. E nunca se esqueçam do filtro de óleo!”
Para quem está começando agora a se aventurar no mundo das ferramentas e da graxa, a engenheira é enfática: estudem.
“Hoje temos oportunidades incríveis na internet com profissionais sérios, além de cursos fundamentais como os do Senai. A experiência, seja ela vivida ou ouvida de fontes confiáveis, é o que vai transformar o seu interesse em competência.”
Palavras de agradecimento
À frente da coluna “Falando de Fusca & Afins” há onze anos, registro aqui uma alegria particular. É sempre gratificante — e, infelizmente, ainda raro — ter a oportunidade de reportar histórias onde o protagonismo feminino e o VW Fusca se encontram de forma tão técnica e apaixonada.
A trajetória de Fernanda Carolina não é apenas uma “história de entusiasta”; é o relato de uma profissional que conduz outros antigomobilistas a tratarem suas relíquias com o rigor que elas merecem, promovendo o uso de materiais de primeira linha e a preservação consciente.
Ver o carinho com que ela trata o “Beethoven” e a seriedade com que assessora seus clientes é a prova de que a paixão pelo VW Fusca não conhece barreiras, apenas bons caminhos.
Meu profundo agradecimento à Fernanda por ter aceito o convite para abrir seu “arcabouço” emocional e compartilhar sua história conosco. Que o exemplo dela inspire mais mulheres a ocuparem seus espaços nas oficinas, nas faculdades de engenharia e, claro, ao volante de seus próprios sonhos arrefecidos a ar.
(*) – A oficina Mamede Haus, sediada em Goiânia, GO, é amplamente reconhecida no cenário do antigomobilismo como um centro de excelência na restauração e preparação de Volkswagens arrefecidos a ar. Sob o comando de Vinicius Mamede, esta oficina estabeleceu um padrão de rigor técnico e fidelidade histórica que a projeta internacionalmente, sendo um dos poucos redutos onde o conhecimento profundo sobre motores ‘aircooled’ veteranos é tratado com precisão de engenharia e acabamento de alta qualidade.
A Fernanda trabalhou por quatro anos nesta renomada oficina.

AG
As fotos desta matéria, a não ser indicado em contrário, pertencem ao acervo da Fernanda e foram enviadas por ela.
Nossos leitores são convidados a dar seu parecer, fazer perguntas, sugerir material e, eventualmente, apontar correções, as quais poderão ser consideradas e incorporadas em futuras revisões deste trabalho.
Em alguns casos, são utilizados materiais pesquisados na Internet e amplamente disponibilizados em meios públicos, empregados exclusivamente com finalidades históricas, culturais e didáticas, em consonância com o espírito de preservação histórica que norteia este trabalho.
Caso qualquer pessoa física ou jurídica se identifique como titular de direitos autorais de determinado material aqui utilizado — independentemente de ter sido ou não mencionada nos créditos — e deseje a inclusão de créditos específicos ou a retirada do referido conteúdo, solicitamos que entre em contato pelo e-mail alexander.gromow@autoentusiastas.com.br, para que sejam tomadas, de boa-fé, as providências cabíveis.
Ressaltamos que não há qualquer intenção de infringir direitos autorais, tampouco de auferir ganhos comerciais com o material apresentado, sendo sua utilização restrita ao registro histórico e à divulgação cultural junto a entusiastas e interessados no tema.
A coluna “Falando de Fusca & Afins” é de exclusiva responsabilidade do seu autor.





