O ano recém findo entrou para a história da indústria automobilística brasileira como o momento da grande “inversão”. Pela primeira vez, os emplacamentos de motocicletas, que atingiram 2.197.308 unidades, superaram as vendas de automóveis de passeio, que fecharam em 1.996.531 licenciamentos. Esse crescimento de 17,1% em relação a 2024 não é apenas um pico cíclico, mas, segundo análises da Fenabrave e da Consultoria K.LUME, uma transformação estrutural da mobilidade nacional.
As engrenagens do crescimento em 2026
Para 2026, a projeção da Fenabrave aponta para um novo avanço de 10%, levando o mercado ao patamar de 2.416.980 unidades. Três fatores principais sustentam esse otimismo:
1. A economia do uso para entregas e trabalho: aA motocicleta consolidou-se como a principal ferramenta de geração de renda, com o uso profissional representando mais de 65% das vendas.
2. Custo operacional: num cenário de combustíveis caros, a moto oferece custos por quilometro até 60% menores que o dos automóveis, atraindo famílias que buscam um segundo veículo ou a substituição do transporte público.
3. O “Efeito Ciclomotor”: A obrigatoriedade — retroativa — do emplacamento de ciclomotores (motor de até 50 cm³) gerará um aumento estatístico acentuado logo nos primeiros meses de 2026.
Honda: a estratégia de defesa do trono
A Honda encerrou 2025 mantendo uma liderança hegemônica de 67,4% de participação de mercado. No entanto, a marca enfrenta uma erosão gradual provocada pela concorrência com novos entrantes. Para 2026, a gigante japonesa aposta em num ciclo de investimento recorde de R$ 1,6 bilhão até 2029 para a modernização da fábrica de Manaus, AM.
• Produtos, foco: a família CG 160 foi a líder absoluta de mercado com 21,8% de participação, e a Biz, que terminou 2025 com 12,1% do mercado, continuarão sendo a espinha dorsal. A novidade estratégica será o lançamento de sete modelos em 2026, visando preencher nichos de média cilindrada e defender margens contra marcas como as indianas Royal Enfield e Bajaj, esta já com fábrica em Manaus.
• Ação comercial: a Honda deve intensificar o uso do consórcio, que já representa 30% a 33% de suas vendas, como alternativa ao Crédito Direto ao Consumidor provido pelos bancos tradicionais.
Yamaha: foco em valor e conectividade
Consolidada na vice-liderança com 14,2% de share, a Yamaha foca no conceito Kando — oferecer emoção e design diferenciado.
• Produtos foco: As linhas Factor 150, FZ25 e NMAX são os pilares. A marca planeja liderar a transição tecnológica urbana com a Fluo Hibrida e expandir a conectividade via Bluetooth, já presente em 65% dos novos modelos do setor.
• Ação Comercial: Parcerias para infraestrutura de serviços digitais (telemetria e gestão de frotas) para atrair o público empresarial (B2B) que busca eficiência operacional.
O fenômeno Mottu e a revolução da locação
A maior surpresa de 2025 foi a consolidação da Mottu como a 4ª maior marca do país (4,3% participação de mercado). O modelo de locação operacional cresceu 89%, provando que a posse está dando lugar ao uso.
• Produtos foco: a Mottu Sport 110i, fabricada pela indiana TVS, tornou-se o fenômeno das metrópoles.
• Ação comercial: expansão de contratos diretos com plataformas como iFood, transformando concessionárias tradicionais em centros de manutenção rápida para frotas de alta rodagem.
As Indianas e o segmento de média cilindrada
Bajaj e Royal Enfield são os verdadeiros artífices da virada do jogo. Elas ocuparam espaços vazios deixados pelas líderes, especialmente entre 250 cm³ e 450 cm³, segmento que cresceu 19,2% em 2025.
• Bajaj: Investe R$ 50 milhões para dobrar sua capacidade produtiva em Manaus para 48 mil motos/ano. O modelo Dominar D400 e a nova NS 400 Z (com controle de tração e modos de pilotagem) são as apostas para 2026.
• Royal Enfield: criou um nicho de “clássicas modernas” com a Himalayan e a Super Meteor 650, focando no estilo de vida e lazer, onde a margem de lucro por unidade é maior.
O novo mapa geográfico: Nordeste e Sul no comando.
A K.LUME destaca uma redistribuição geográfica vital para investimentos em 2026:
• Nordeste: é o motor de crescimento atual (20,5%), com estados como o Piauí registrando apenas 4 habitantes por moto. O foco aqui deve ser o baixo custo e a durabilidade para o uso rural e de serviços.
• Sul: registrou um aumento explosivo de 44,1%. Impulsionado pelo agronegócio digital e pelo turismo de aventura, há uma demanda crescente por modelos premium e Trail.
• Sudeste: Embora lidere em volume absoluto, mostra sinais de saturação na mobilidade básica, migrando para modelos de lazer de alta cilindrada (35% de crescimento acima de 300 cm³).
Fronteira tecnológica e sustentabilidade
Embora as motos elétricas ainda representem apenas 0,53% do mercado total, o crescimento de 52,5% no primeiro semestre de 2025 sinaliza uma tendência irreversível para 2026.
• Infraestrutura: o investimento em redes de troca de baterias (estilo VMoto/Vammo) será o divisor de águas para a viabilidade das entregas em domicílio por motociletas elétricas.
• Regulamentação: a entrada em vigor da segunda fase do Promot M5 em 2025 e as discussões sobre o M6 para 2027 estão acelerando o fim dos motores a carburador e elevando o preço médio das motos em até R$ 1.200 devido à eletrônica embarcada.
Conclusão para o investidor e entusiasta
O mercado brasileiro de motocicletas em 2026 será definido pela diversificação. A Honda e a Yamaha não estão mais sozinhas; a chegada de marcas como CFMoto, Hero e Moto Morini aumentará a disputa por tecnologia e preço. Para quem busca receita e acordos comerciais, o caminho passa pela interiorização das redes no Nordeste, por soluções de fintechs para crédito facilitado e pela especialização em pós-venda para frotas de locação.
A motocicleta deixou de ser o “veículo de quem não pode ter carro” para se tornar o protagonista da eficiência econômica e da liberdade individual no Brasil. 2026 será o ano em que essa maturidade será colocada à prova através da inovação e da escala produtiva.
CG



