Muito além de um discurso de moda ou de ESG, a decisão de compra por um modelo eletrificado diz bastante sobre o atual momento do mercado. Trata-se de uma decisão estratégica, financeira e regulatória que tem uma frieza imensurável por trás da decisão.
O recente anúncio da BYD e da Localiza sobre a aquisição, da segunda, de dez mil veículos da primeira em dois anos, expõe além de um mercado crescente, de 7,1% em 2024 para 8,8% em 2025 (do mercado total), o interesse do consumidor neste segmento.
A economia operacional com menor consumo de energia por quilômetro, a menor manutenção em função da simplicidade dos elementos, em especial nos elétricos puros e uma diminuição das paradas por falta de operação, compensam o preço inicial de aquisição superior. Os efeitos benéficos são ainda mais nítidos no uso urbano previsível nas entregas de última milha, nas locações corporativas e nas locações de longo prazo e menos evidentes no uso eventual comumente encontrado nas situações de turismo em que os benefícios são notoriamente outros.
A operação de uma locadora é, teoricamente, simples. São três pilares que precisam ser bem trabalhados: compra, operação e venda.
Exemplificando o processo de compra, existem uma série de incentivos fiscais e regulatórios para a aquisição de veículos eletrificados no Brasil como a redução ou a isenção do IPVA, incentivos municipais como a isenção do rodízio de São Paulo (obrigatório mesmo para veículos emplacados fora do município) ou mesmo a eliminação da restrição de acesso a determinadas zonas de acesso restrito por questões de ruído ou mesmo por emissão de poluentes. Por estes motivos clientes corporativos passaram a pressionar as locadoras por veículos que atendam a tais critérios. Além disso, grandes corporações normalmente seguem metas de ESG (Governança Sócioambiental), pressionando de forma adicional as locadoras no processo de aumento das ofertas destes produtos.
Trazendo em números, para a Localiza que hoje possui mais de 630 mil veículos, 10 mil unidades representam muito pouco, apenas 1,6% de sua frota total. Se lembrarmos que estes veículos ainda serão divididos em dois anos, estes números cairão ao menos pela metade. Para a BYD não seria diferente. Com base nos números de 2025, 10 mil unidades representariam 8,9% de incremento nas suas vendas; números elevados, mas a BYD cresceu 46,9% entre 2024 e 2025.
Então o ponto mais relevante a ser explorado diz respeito ao laboratório e à vitrine que uma locadora pode propiciar a uma fabricante. A locadora consegue ter o entendimento e reportar o comportamento do cliente, coletar dados de uso, monitorar custos, o valor residual, bem como capacitar profissionais no atendimento de demandas futuras deste tipo de veículo para ela, para a fabricante e para o mercado.
É claro que fatores externos ajudam e o marketing também atrai novos consumidores que ainda estão receosos em adquirir veículos eletrificados, mas poder experimentá-los por períodos restritos em férias ou em viagens de trabalho tem grande força de convencimento. Então além de mídia espontânea e da percepção de marca, o marketing e o teste do produto apoiam na captação de novos contratos.
Contratos com locadoras ajudam as fabricantes a escoar volumes (eletrificados ou não) e a ampliar seus volumes de vendas. Atualmente as vendas diretas, que incluem uma parcela maior do que apenas as locadoras, fecharam 2025 com 52,3% do mercado; o restante é o varejo tradicional.
Entender os movimentos e o momento das fabricantes é fundamental para os ganhos na locação e o equilíbrio entre colocar uma novidade nas ruas (que pode ser benéfico para as duas partes) também deve ser mensurado. Um veículo recém-lançado pode não ter grandes descontos o que não é bom para a operação de locação, mas manter este veículo nas ruas, aos olhos dos consumidores, pode ser uma boa estratégia e uma boa barganha neste processo. Na maioria das vezes, um novo modelo, ou mesmo a sua atualização por um ano-modelo atualizado não possuem descontos representativos devendo as locadoras focarem nos mesmos veículos com ano-modelo anterior onde as margens são sempre maiores.
A regra de ouro para uma locadora é comprar bem. O maior risco é também a maior oportunidade.
O mercado como um todo é dinâmico, cíclico e aberto a novidades. Por este motivo a diversificação do portfólio é importante para não se apostar em apenas uma única tecnologia. Atualmente as duas marcas eletrificadas mais relevantes no Brasil, BYD e GWM, possuem veículos elétricos e híbridos em seu portfólio, mas não podemos deixar de citar as outras tecnologias que batem à nossa porta como os extensores de alxancd, tecnologia hoje presente na Leapmotor ou nas novas baterias de estado sólido que ainda não são sequer comercializadas ou mesmo nos híbridos leves (sem-hibridos) que serão cada vez mais comuns em nossas ruas.
Os pontos críticos dos veículos eletrificados ainda dizem respeito a depreciação e a alcance. Não são todos os segmentos em que a depreciação se aproxima dos veículos a combustão sendo comum uma depreciação mais elevada. O brasileiro ainda não se acostumou ao veículo eletrificado e as questões de infraestrutura ainda limitada, o tal medo da bateria é grande (infundado, mas alto) e risco de obsolescência tecnológica é representativo no imaginário do consumidor.
São questões inerentes a momentos de mudanças a que estamos passando.
MKN
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