Há algumas semanas contamos aqui a história de uma jovem que ouviu “faça Medicina” e entendeu “Oficina”. Fernanda Araújo transformou a paixão de infância por carros em profissão, tornou-se engenheira mecânica e deu vida a um Fuscão 1971 preparado com rigor técnico e sensibilidade rara: o Beethoven.
Mas a história ainda não estava completa.
Enquanto Fernanda iniciava uma nova fase profissional em São Paulo, seu inseparável Fuscão permanecia em Goiânia. Faltava unir novamente engenheira e máquina — e essa união teria de acontecer da forma mais autêntica possível: pela estrada. Como na canção de Willie Nelson, era hora de estar “on the road again” — “na estrada novamente”.
Antes de acompanharmos essa viagem, vale relembrar a trajetória que trouxe Fernanda até aqui.
Fernanda Carolina Araújo: de menina apaixonada por graxa a engenheira que rege sinfonias em motores arrefecidos a ar
Desde cedo, Fernanda Carolina parecia não trilhar os caminhos esperados para uma criança comum. Aos três anos, quando outras crianças se apegavam a chupetas e ursinhos, ela fez uma troca inusitada: entregou todos os seus bicos para ganhar um Mercedes-Benz de pedal. Não era apenas um brinquedo — naquele gesto simples estava plantada a semente de uma paixão que unia instinto e engenharia.

Enquanto outras crianças desenhavam casas e árvores, Fernanda rabiscava carros. Aos 10 anos, copiava à mão os traçados dos automóveis que apareciam nas páginas da revista Quatro Rodas que seu pai assinava. O amor pelos carros não era apenas estético; era visceral. Isso ficou marcado na pele: o traçado do Autódromo de Interlagos no braço e, no peito, um coração metade humano, metade mecânico, pulsando com engrenagens e pistões.
Quando chegou a hora de escolher uma carreira, o conselho familiar foi direto: “Filha, faça Medicina.” Mas Fernanda ouviu outra coisa — “Oficina”. Com determinação, inscreveu-se em Engenharia Mecânica na Universidade Federal de Goiás. Não bastava teoria; queria sentir o cheiro da graxa, ouvir o som do metal, entender o que acontecia sob cada capô. Para complementar a formação, buscou o Senai (Serviço Nacional de Aprendizagem Industral), aprendendo na prática o que os bancos acadêmicos não ensinam sozinhos.
Aos 20 anos, realizou um sonho clássico de entusiasta: comprou um BMW E36 preto, do mesmo ano de seu nascimento. Pouco depois, trabalhando na oficina Mamede Haus, em Goiânia, tomou uma decisão que muitos consideraram ousada: vendeu o BMW para comprar um VW Fuscão 1971. Mais que retorno às raízes, foi um gesto de quem reconhece no motor arrefecido a ar uma sinfonia a ser explorada.
Batizado de “Beethoven”, o Fuscão revelou caráter artístico e técnico. O chassi foi restaurado, o “chapéu de Napoleão” (peça na extremidade dianteira do chassi) rlecuperado com precisão, e o motor 1800 preparado com cilindros de 90,5 mm de diametro, comando de válvulas Engle FK-8 e dupla carburação Weber 40 IDA — detalhes que, para um aficionado, soam como acordes perfeitamente executados. Não era carro de exposição; era máquina pensada para rodar, com rigor técnico e coerência mecânica.
Sua competência abriu portas além da oficina. Passou a atuar na gestão técnica de coleções importantes, cuidando de mais de 45 carros. O conhecimento demonstrado ao avaliar produtos chamou a atenção da LIQUI MOLY, rendendo convite para integrar a equipe técnica da marca em São Paulo.
Hoje, Fernanda Araújo não é apenas uma engenheira apaixonada por Fusca. Tornou-se referência técnica na conscientização de antigos e novos entusiastas sobre manutenção preventiva, uso de materiais corretos e estudo constante. Em palestras e eventos, combate a maior vilã dos motores: a desinformação. “Óleo não é tudo igual”, afirma com firmeza — lembrando que longevidade mecânica não depende de milagres, mas de disciplina, conhecimento e escolhas técnicas responsáveis.
Apesar do avanço profissional — agora em São Paulo — um capítulo ainda estava em aberto: seu querido Beethoven permanecia em Goiânia, aguardando o reencontro com sua dona na nova casa em Arujá, região metropoligana de São Paulo.
E foi essa jornada — simples e simbólica — que colocou o Beethoven novamente na estrada
O resgate do Beethoven
Aqui quem toma a palavra é a própria Fernanda que narra como foi trazer o Beethoven rodando para Arujá:
“Recapitulando: mudei-me para Guarulhos no início de janeiro de 2025. A última vez que havia andado de Fusca tinha sido em dezembro do ano anterior. Durante todo o ano de 2025 ele funcionou apenas duas vezes.
Depois que me estabeleci melhor por aqui e, já instalada em Arujá, onde fica a Liqui M
oly, meu emprego atual, decidi que era hora de trazer o Beethoven para perto. A ideia inicial era buscá-lo no recesso de fim de ano, mas não consegui revisá-lo a tempo. Então fiz dar certo no Carnaval.
Na semana anterior ao feriado, um amigo mecânico foi buscá-lo na antiga casa, em Goiânia. Para minha felicidade, mesmo parado por tanto tempo, ele nunca apresentou dificuldade para funcionar — e não foi diferente no “resgate”.
A revisão foi simples e objetiva, como deve ser quando o carro está em ordem:
- Troca do óleo e do filtro do sistema full-flow instalado
- Substituição de uma coifa de câmbio que havia rasgado
- Carga lenta na bateria
- Troca do fluido de freio
- Conferência geral dos sistemas
Basicamente, só isso foi necessário.
A rota estava definida: Goiânia, Itumbiara, Uberlândia, Uberaba, Ribeirão Preto, São Paulo e, finalmente, Arujá.

Foram 1.057 quilômetros da porta da antiga casa até a porta da nova.
Saí às 7h30 da manhã e cheguei às 20h30. Treze horas de estrada, com três paradas estratégicas para abastecimento, alimentação e o indispensável “pipibreak”.

Mas o que realmente marcou essa viagem não foram os números.
A felicidade transbordava num sorriso de orelha a orelha. Depois de mais de um ano sem dirigir o Beethoven, voltar à estrada com ele era mais do que uma viagem — era uma realização.
E ele veio como se nada tivesse acontecido.

Motor redondo, temperatura estável, comportamento firme. Beethoven atravessou Goiás, Minas e São Paulo compondo sua própria sinfonia mecânica, do jeito que sempre fez.

A escolha de sair na quarta-feira de Cinzas ajudou. A maioria já havia retornado ao trabalho e a estrada estava tranquila. Ao cruzar a Marginal Tietê por volta das 19h30, encontrei fluxo normalizado — um pequeno milagre paulistano.


Quando finalmente estacionei em Arujá, não era apenas um Fusca que havia chegado.
Era um ciclo que se fechava.
E outro que começava.”
AG
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