A cada início de temporada a Fórmula 1 revive um período de perguntas, incertezas e decepções. Este ano o campeonato inicia dia 8 de março, em Melbourne, e como sempre sobram dúvidas desde se as equipes mostraram todo o potencial de suas máquinas, até resultados temperados com pitadas de desastre e crise. O fato de Charles Leclerc ter sido o melhor nos seis dias de ensaios no Bahrein, quase um segundo mais rápido que Kimi Antonelli e seu Mercedes, e o desempenho decepcionante de Cadillac e Aston Martin. abrem espaço para tentar entender como está a força de cada equipe.

O primeiro ponto a ser analisado após cinco dia de testes em Barcelona e seis no Bahrain é o desempenho geral e o progresso de cada equipe. O fato de sete equipes aparecerem entre os 10 melhores serve como ponto de partida e indicam Ferrari, Mercedes e McLaren com alguma vantagem: as duplas dessas escuderias ocuparam os sete primeiros lugares nesse recorte do resultado geral dos testes.

Único intruso nesse grupo é o sempre presente Max Vertappen, que marcou o quinto melhor tempo. Três pilotos de três equipes diferentes completam a lista de dez melhores desempenhos: Pierre Gasly (Renault-Mercedes), Oliver Bearman (Haas-Ferrari) e Gabriel Bortoleto (Audi).

Os melhores tempos de Leclerc (1’31”992 ) e Antonelli (1’32”803) ainda estão distantes da marca de 1’29”841 que garantiu a pole position a Oscar Piastri no GP do Bahrein de 2025. Espere que essa diferença fique bem menor na prova barenita marcada para 12 de abril: até lá o gerenciamento dos motores térmico e elétrico já terá evoluído e os pilotos estarão mais habituados à técnica de aproveitar melhor a potência gerada por esse conjunto. Some-se a isso as melhorias de aerodinâmica e suspensão, algo que jamais para de evoluir.

Outro fato interessante na análise dos 10 carros mais rápidos no teste da semana passada é a presença de cinco monopostos equipados com motor Mercedes: Antonelli, Piastri (McLaren, 1’32”861), Norris (McLaren, 1’32”871), Russell (1’33”197) e Gasly (Renault, 1m 33”421). Apenas a Williams não conseguiu capitalizar o potencial da unidade de potência da marca alemã, que equipa oito monopostos: Sainz foi apenas o décimo-sexto (1’34”342), duas posições à frente de Albon (1’34”555). Colapinto, companheiro de Gasly, ficou em décimo primeiro.

No universo Ferrari a Haas manteve acesa a esperança de se consolidar no segundo pelotão. Nesse grupo o desempenho paupérrimo da Cadillac já era esperado: Bottas e Pérez ficaram respectivamente em 19º e 20º, na ordem com 1’35”290 e 1’35”369. Isso reforça a necessidade do grau de planejamento necessário para estrear na categoria: a equipe americana teve menos de dois anos para garantir sua vaga, projetar e construir seus carros partindo do zero.

Tal retrospecto valoriza ainda mais o décimo tempo de Gabriel Bortoleto e o décimo-segundo de Hulkenberg. Ao adquirir paulatinamente o controle acionário da equipe Sauber, a Audi teve condições de montar sua equipe a partir de uma base conhecida. Mesmo assim não faltaram decisões que amaçaram o fim prematuro desse projeto: uma disputa interna de poder entre Andreas Seidl e Oliver Hoffmann causou uma profunda reestruturação do time alemão, que passou a ser comandado por Mattia Binotto (ex-Ferrari). O progresso paulatino e regular do desempenho do Audi R26 comprova que a mudança foi bem sucedida. Importante notar que o projeto da marca dos quatro anéis entrelaçados inclui um inédito motor de F-1.

Outro motor inédito na categoria é o Red Bull-Ford DM01, engenho usado por Verstappen, Hadjar (15º), o único estreante de 2026 Lindblad (13º) e Lawson (17º), os dois últimos inscritos pela Racing Bull, equipe satélite da marca dos energéticos. Tal como o motor Mercedes M17 E, essa máquina também marca a estreia do time entre os fabricantes de motores.

Ponto crítico é que essas duas marcas estão envolvidas numa solução técnica que explora o regulamento técnico no seu limite. Pelas regras atuais, a taxa de compressão dos motores deve ser de 16:1, índice que é medido com o motor em temperatura ambiente. Ocorre que as duas exploraram a capacidade de dilatação de materiais usados na fabricação de pistões e bielas para aumentar esse número para 18:1 em regime de corrida. O segredo em torno desse conceito durou pouco e as demais equipes protestaram junto à Federação Internacional do Automóvel (FIA), e espera-se que a regra seja alterada ao final da primeira metade da temporada.

Motor por motor, impossível não comentar o fracasso do tão esperado Aston Martin-Honda AMR 26. Projetado pelo mago Adrian Newey, o engenheiro que personifica o sucesso da profissão no mundo da F-1, o conjunto anglo-nipônico até agora não mostrou confiabilidade, desempenho e eficiência. Considerando o investimento feito pelo bilionário Lawrence Stroll na infraestrutura da equipe e a capacidade de Newey e da Honda, chega a ser surpreendente o medíocre resultado obtido por Alonso e Stroll nos testes de pré-temporada.
Confira os melhores tempos nos últimos testes livres de 2026:
1) Charles Leclerc (Ferrari) 1m31s992
2) Kimi Antonelli (Mercedes) 1m32s803
3) Oscar Piastri (McLaren-Mercedes) 1m32s861
4) Lando Norris (McLaren-Mercedes) 1m32s871
5) Max Verstappen (Red Bull) 1m33s109
6) George Russell (Mercedes) 1m33.197s
7) Lewis Hamilton (Ferrari) 1m33s408
8) Pierre Gasly (Alpine-Mercedes) 1m33s421
9) Oliver Bearman (Haas-Ferrari) 1m33s487
10) Gabriel Bortoleto (Audi) 1m33s755
11) Franco Colapinto (Alpine-Mercedes) 1m33s818
12) Nico Hulkenberg (Audi) 1m33s987
13) Arvid Lindblad (Racing Bulls-Ford) 1m34s149
14) Esteban Ocon (Haas-Ferrari) 1m34s201
15) Isack Hadjar (Red Bull-Ford) 1m34s260
16) Carlos Sainz (Williams-Mercedes) 1m34s342
17) Liam Lawson (Racing Bulls-Ford) 1m34s532
18) Alex Albon (Williams-Mercedes) 1m34s555
19) Valtteri Bottas (Cadillac-Ferrari) 1m35s290
20) Sergio Perez (Cadillac-Ferrari) 1m35s369
21) Lance Stroll (Aston Martin-Honda) 1m35s97
22) Fernando Alonso (Aston Martin-Honda) 1m36s536
WG
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