Hoje publico esta matéria exatamente no dia do meu aniversário. Não como um ponto final, mas como uma pausa consciente para olhar pelo retrovisor e perceber que minha trajetória foi conduzida por duas linhas paralelas: a engenharia profissional e o Fusca como paixão, compromisso e construção cultural.
Alemanha, pós-guerra e o início da viagem
Nasci numa manhã nevada de domingo, em 2 de março de 1947, na pequena cidade de Weingarten, no sul da Alemanha. A Segunda Guerra Mundial havia terminado apenas dois anos antes.

Em 1949, minha família embarcou em Gênova rumo ao Brasil em busca de novas oportunidades. A travessia no Charlton Sovereign, antigo cargueiro adaptado para passageiros, foi difícil. Mas chegamos.

Houve quarentena na Ilha das Flores, no Rio de Janeiro, como era praxe na época. Nossa primeira cidade foi Governador Valadares, MG.

Depois veio Ribeirão das Lages, no complexo Rio Light, RJ, onde moramos no acampamento de obra de uma usina hidroelétrica onde meu pai trabalhou.

Depois a última parada antes de Porto Alegre, RS, a Ilha de Morretes, no Rio dos Sinos, no Rio Grande do Sul. Lá meu pai trabalhou em uma fábrica de cimento.
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As condições eram simples. Escola com uma única sala. A professora, uma verdadeira heroína, vinha de barco. A “condução” era uma égua chamada Nega. Era outro Brasil.

Finalmente, Porto Alegre, onde permaneci mais tempo e que foi a última cidade gaúcha onde vivi. Lá fiz o primário, o ginásio e iniciei o científico — que depois concluí em São Paulo. Foi uma parte importante da minha infância.

O primeiro contato com o Fusca
Em Porto Alegre tive meu primeiro contato com um Fusca. Colegas de meu pai possuíam exemplares trazidos da Alemanha. Andei muitas vezes no bagagito de um deles, pertencente ao Dr. Leicher. Tenho até hoje uma foto de 1955.

Nosso primeiro carro foi um Citroën 11CV preto, o “Pata-choca”. O Citroën 11CV, era famoso por sua estrutura monobloco e tração dianteira (daí o nome Traction Avant).

Aprendi a dirigir observando motoristas de ônibus — e me orgulho disso. Quando meu pai decidiu me ensinar formalmente, tirei o carro da garagem, andei de ré cerca de 25 metros, dei duas voltas na quadra com subidas e descidas e o coloquei novamente na garagem sem dificuldade. Sou um motorista autodidata.

Em 1958 ganhei meu primeiro Fusca de brinquedo. Minha saudosa mãe venceu o programa de rádio “Dê asas à sua Inteligência”, respondendo sobre Leon Tolstoi e Guerra e Paz — ela ainda tinha um sotaque muito forte, mesmo assim o público gaúcho adorou a participação dela naquele programa. O prêmio foram duas viagens a Paris. Meus pais estenderam a viagem até a Alemanha e foi lá que ela me trouxe o carrinho que guardo até hoje.

São Paulo, engenharia e o Rosinha
Mudamo-nos para São Paulo em 1963, a viagem foi feita a bordo do Citroën, com cachorro, o pastor alemão Rex, alguns periquitos e muita bagagem. Viemos em três, pois minha irmã preferiu vir de avião.
Antes do Fusca definitivo, tive um Chevrolet 1947, o “Titio”, com o qual, em 1969, eu e minha saudosa irmã viajamos até Porto Alegre, RS, uma aventura que consolidou meu gosto pela estrada.

Em 1970, dando aulas particulares e com a ajuda de minha irmã e de meu pai, comprei meu primeiro e único Fusca, pertencente ao Sr. Josef Rindl, pai de um de meus alunos particulares do bairro. Ali começa, de fato, minha saga com o modelo.

O Sr. Rindl era produtor cinematográfico especializado em propagandas para televisão, tanto em filmes quanto em desenhos animados — entre seus clientes estava a VARIG. Ele importou o Fusca numa época em que a importação de veículos era extremamente difícil. Precisava de um carro com teto solar para utilizar a abertura como ponto de filmagem em movimento — solução engenhosa para as produções da época.
Esse carro recebeu o apelido de “Rosinha” e me acompanha até hoje. Foi restaurado na Ala “0” (zero) da fábrica da Volkswagen do Brasil, em São Bernardo do Campo, num trabalho meticuloso que levou dois anos e foi concluído em 7 de agosto de 1991. Naquela época, a Ala “0” operava como a Oficina Padrão da marca: o nível mais alto da tecnologia Volkswagen no país e a última instância técnica para resolver questões de alta complexidade que as concessionárias não alcançavam. O Rosinha permanece como um testemunho da qualidade da engenharia de serviços da Fábrica Anchieta.

Formei-me em Engenharia Elétrica (Eletrotécnica) em 1971, concluindo o curso em primeiro lugar nos cinco anos de engenharia e recebendo o Prêmio Thomas Alva Edison.
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Permaneci com a medalha apenas por alguns minutos. Ao término da cerimônia de formatura, entreguei-a a meu pai, em reconhecimento pelo esforço que fez para que eu pudesse me tornar engenheiro. Fiz também a minha parte: durante os cinco anos do curso fui bolsista, inclusive com apoio da Prefeitura de São Paulo por dois anos em função do aproveitamento escolar.
Iniciei minha carreira na Siemens em 6 de janeiro de 1972, no Edifício Andraus, na Avenida São João. No dia 24 de fevereiro daquele mesmo ano, com menos de dois meses de casa, testemunhei de perto a tragédia que marcou a história de São Paulo.
Cheguei próximo ao prédio no exato momento em que as chamas irrompiam próximo ao anúncio da Loja Pirani no segundo andar. A loja ocupava o andar térreo até o quinto andar. Em pouco mais de vinte minutos, o fogo já atingia o topo de um prédio de 32 andares. Ver aquele colosso de 115 metros de altura ser consumido com tamanha rapidez, enquanto colegas enfrentavam decisões desesperadoras pela sobrevivência, foi um batismo de fogo cruel e inesquecível.

Ali, a dimensão da responsabilidade da engenharia e a fragilidade da vida ganharam, para mim, um significado definitivo.
Os quinze minutos que mudaram meu destino
Naquela manhã, porém, houve um detalhe que mudaria tudo.
Eu estava fortemente resfriado e, antes de seguir para o trabalho, passei pela Policlínica Santa Fé, no Ipiranga, convênio da Siemens. O médico me atendeu, medicou e recomendou que eu retornasse ao serviço.
Voltei para casa para trocar de roupa — o dia havia esquentado e eu estava suado. Já saía novamente quando minha mãe, com aquele cuidado silencioso que sempre teve comigo, insistiu: “Antes de sair, tome este lanchinho que fiz para você.”
Argumentei que estava atrasado. Ela foi irredutível.
Fiquei. Comi. Demorei cerca de quinze minutos.
Quando finalmente segui pela Avenida 23 de Maio em direção ao Anhangabaú e entrei na São João, o trânsito parou abruptamente no Largo do Paissandu. Olhei à frente e vi as primeiras labaredas surgindo atrás do anúncio da Pirani. O incêndio estava começando.
Do ponto onde eu parei e vi o início do incêndio até o 19º andar do Andraus, onde era o meu escritório, não levaria mais do que quinze minutos.
Foram aqueles quinze minutos — o lanchinho preparado por minha mãe — que me impediram de estar dentro do prédio naquele momento.
Até hoje carrego essa memória com reverência.
Mesmo quando adquiri um Opala zero-quilômetro já como engenheiro e funcionário da Siemens, o Rosinha permaneceu conosco. Ele já era parte da família.

Durante 32 anos na Siemens atuei em projetos de grande porte envolvendo motores especiais, geradores, sistemas elétricos e coordenação multinacional, chegando ao cargo de Gerente Geral.
Tive a honra de participar, em função de liderança internacional, do projeto da Usina Itaipu Binacional no contexto do Consórcio CIEM na função de Coordenador do Grupo de Trabalho Geradores — um dos maiores empreendimentos de engenharia do mundo. Ali compreendi a dimensão real da engenharia como força transformadora.

Durante esse período, também atuei no magistério. Fui professor de Equipamentos Elétricos na Universidade Presbiteriana Mackenzie. No meu primeiro ano como docente tive a surpresa de ser escolhido “Professor Homenageado” pelas turmas daquele ano — um reconhecimento inesperado e que guardo com especial carinho.
O movimento Fusca ganha forma
Em 1985 um encontro casual na Avenida Heitor Penteado mudou o rumo do meu envolvimento com o Fusca. Conheci o Sr. Gavino e fui apresentado ao então Clube do Fusca. Começava ali uma fase mais estruturada.
Em decorrência deste encontro eu participei do Primeiro Passeio do Sedan Clube que teve como destino o Pico do Jaraguá, sendo que os Fuscas subiram até seu cume. O Pico do Jaraguá é o ponto mais alto do município de São Paulo, SP, elevando-se a uma altitude de 1.135 metros acima do nível do mar. Situa-se no bairro do Jaraguá, a oeste da serra da Cantareira (São Paulo fica a 750 m de altitude).

Logo passei a colaborar na diretoria do clube. Em 1988 foi lançada a ideia do Dia Nacional do Fusca. Abaixo o registro de uma reunião memorável de 12 de novembro de 1988 na qual foram detalhadas as bases desta comemoração, o Luiz Cesar Basso Barbosa da VW do Brasil estava lá:

Em 1989 tornei-me presidente do então Sedan Clube do Brasil. Durante estágio na Alemanha articulei o lançamento do Dia Mundial do Fusca.

Em Interlagos realizamos encontros históricos: 1.528 carros em 1994 — recorde registrado no Livro Guinness brasileiro — e 2.728 em 1995, número ainda não superado no país até hoje.

Em 1995, depois de quatro anos de preparativos, perante uma plateia de entusiastas vindos dos cinco continentes, lancei oficialmente a “Declaração de Bad Camberg”, consolidando o 22 de junho como Dia Mundial do Fusca. Foi um momento de enorme emoção. Não era apenas uma data no calendário — era o reconhecimento de que aquele automóvel havia ultrapassado fronteiras e se tornado patrimônio cultural compartilhado.

Tenho a honra de ter sido o mentor dessa iniciativa. Hoje o 22 de junho é celebrado mundialmente, incentivando encontros e fomentando a preservação dos Fuscas.
Em 1996, depois de um trabalho que fiz junto à Secretaria de Esporte e Lazer foi instituído por lei o Dia Municipal do Fusca na cidade de São Paulo.
Pesquisa e divulgação
Em 1997 deixei a presidência do clube e intensifiquei o trabalho de pesquisa histórica.
Dessa dedicação nasceram os livros da série Eu Amo Fusca. O primeiro, lançado em 2003 na Livraria Cultura, apresentou a trajetória histórica do modelo.
O segundo reuniu causos de proprietários, preservando memórias afetivas para as próximas gerações.

A partir de 2007 consolidei parceria com o Portal Maxicar e mantive a coluna Volkswagen World, uma parceria amiga que durou vários anos.
Desde 2009 passei a ministrar palestras sobre a história do Fusca em diversas cidades do Brasil.
Em 2012 fui eleito “Antigomobilista do Ano” no concurso realizado pelo VI ABC Old Cars. A votação foi apertada — venci por apenas um voto, concorrendo com nomes importantes do antigomobilismo nacional, como o saudoso Fábio Steinbruch, proprietário de uma coleção notável de automóveis.

No momento do anúncio, um dos organizadores comentou que a vitória fora decidida por um único voto — e que eu sequer havia votado em mim mesmo. Recebi aquela distinção como um reconhecimento de trajetória, muito mais do que, obviamente, pela quantidade de carros na garagem.
De 2015 em diante comecei a colaborar com o Portal AUTOentusiastas (AE), no qual já publiquei mais de 555 postagens distribuídas por países dos cinco continentes. O trabalho no AE continua.
Duas engenharias
Se eu tivesse que resumir minha trajetória, diria que vivi duas engenharias.
Uma, profissional, ligada a geradores, turbinas, sistemas elétricos, coordenação técnica e grandes empreendimentos de engenharia.
Outra, cultural, ligada à preservação de um automóvel que transcendeu sua função mecânica e se tornou fenômeno social. Com isso, colaborei para consolidar a cultura Volkswagen por meio da divulgação contínua de matérias históricas, causos de usuários e curiosidades sobre o tema.
O Fusca me levou ao trabalho. Depois me levou ao mundo.
Hoje não encerro capítulo algum. Apenas registro que valeu — e continua valendo — viver entre responsabilidade técnica e paixão automobillistica.
Este relato reúne alguns dos acontecimentos reais que marcaram minha trajetória — uma versão necessariamente resumida de quase oito décadas intensamente vividas.
E a estrada segue…
AG
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