(Atualizado em 12/4/26 às 13h20)
Para uma matéria de Cleide Silva ao Estadão, publicada em 10 de abril, produzi um material interessante, mostrando a evolução do número de marcas chinesas, emplacamentos e a participação de mercado desde 2023.
A matéria foi muito interessante e contou com os maiores especialistas do mercado brasileiro da atualidade. Rogélio Golfarb fez projeções das chinesas no Brasil para 2030 indicando que existem grupos fortes chegando no Brasil, David Wong comentou que as chinesas desejam marcar território e Fernando Trujillo lembrou da expansão global das marcas para enfrentar as dificuldades nas vendas na China.
Conversei com Ricardo Bacellar que acrescentou que “tecnologia atrai e o pós-venda fideliza”.
Parafraseando seu primeiro entrevistado na temporada deste ano do programa “Papo de Garagem”, Bacellar faz um alerta: “As novas chinesas passaram com louvor na primeira fase de relacionamento com nossos consumidores. O pacote tecnologia / design / política de preços agressiva agradou em cheio —– vide o sucesso nas vendas. Porém, o grande teste ainda está por vir, a pós-venda. Terão que provar que merecem de fato a fidelidade nacional com serviços primorosos em todos os sentidos: abrangência da rede, qualidade de atendimento, disponibilidade de peças, preços competitivos e agilidade na entrega”.
O arquivo acima indica que as chinesas emplacaram em 2023, 61.757 veículos leves no Brasil; 2024 foram para 169.295 emplacamentos, o ano de 2025 bateu 244.968 unidades e o primeiro trimestre de 2026 atingiram a soma de 83.899 unidades vendidas. Números absolutos, por si sós, não explicam muita coisa apesar de indicarem algo representativo, mas no caso dos chineses, indicam de fato um aumento da fatia na participação de mercado: de 2,8% em 2023, passando para 6,8% no ano seguinte, 9,6% em 2025 e atingindo surpreendentes 14,1% no acumulado até março deste ano.
O crescimento é forte! Extremamente acelerado nos dois primeiros anos em que o volume praticamente triplica, cresce outros quase 45% entre 2024/2025 e indica, com os números do 1º trimestre, um potencial crescimento para números de até 330 mil veículos chineses para este ano.
Considerando que estatisticamente temos um baixo índice de descarte mecânico em relação a nova onda de veículos chineses desde 2022 (pelo pouco tempo de vida do veículo) e um maior índice de descarte antes disto, principalmente relacionados aos das primeiras fases, no início dos anos 2010, podemos assumir que a frota circulante de veículos chineses no Brasil seja algo muito próximo aos 600 mil veículos.
Usando como referência o relatório de frota circulante do Sindipeças/Abipeças de 2025, o Brasil possui aproximadamente 45,5 milhões de veículos de passageiros e comerciais leves gerando, portanto, uma representatividade dos veículos chineses de aproximadamente 1,3%, indicando, de forma bem clara, uma forte presença no mercado de novos, mas ainda pouca representatividade na frota total brasileira.
O material disponibilizado também indicou outro ponto interessante, explorado de uma outra forma anteriormente nesta coluna, a quantidade de marcas presentes no Brasil. No período analisado foi observado que 38 marcas chinesas atuaram em solo nacional, ou melhor, estiveram presentes de forma oficial, com representação independente, em processo de homologação, apenas testando o mercado ou que já foram embora.
Nota: o gráfico aponta no máximo 20 marcas, pois marcas pequenas ou marcas em homologação não possuem emplacamentos constantes.
Numa leitura anualizada, observamos que, ano a ano, com início em 2023, tivemos um incremento das marcas no Brasil: 7, 10 e 20 marcas respectivamente. O primeiro trimestre de 2026 terminou com iguais 20 marcas atuando com maior ou menor intensidade o que pode indicar uma estabilidade natural do mercado. Necessário aguardar os próximos meses para observar se este comportamento se confirma.
O que já observamos anteriormente ainda é observada neste momento… a alta concentração. Entre janeiro de 2023 e março de 2026, as três principais marcas responderam por 93,7% dos emplacamentos no período; ao adicionarmos outras duas marcas, o número sobre pouco, para apenas 96,0%. Este efeito reforça o fato de que a “invasão chinesa” não é uma ocorrência pulverizada, mas de alta concentração, dominada por poucos grupos com escala real em vendas e uma longa cauda composta por diversas marcas de menor representatividade.
Outro ponto que igualmente chama a atenção indica que o avanço chinês acontece com maior ênfase nos automóveis de passeio e não nos comerciais leves. Ano passado a participação dos veículos chineses chegou a 98,4% nos automóveis de passeio e, no primeiro trimestre deste ano, 97,8% da participação, indicando forte presença em segmentos como suves (majoritariamente) e sedãs.
Em 2023 a participação dos comerciais leves chineses no mercado total era insignificante, menor que 0,01% (158 unidades). Mas vem crescendo ano a ano, chegando a 0,15% em 2025 (3.837 unidades) e dobrando esta participação no acumulado até março de 2016, com 0,30% (1.817 unidades). Ainda não chega a assustar, mas não se pode desconsiderar que nos automóveis de passeio o início foi bem parecido.
Vale destacar que existe claramente uma diferença notória entre amplitude de marcas e profundidade de mercado.
Apesar do número de marcas subir, o mercado continua vinculado a apenas poucas marcas, em especial: BYD, Chery e GWM (além das marcas associadas). Depois destas marcas, as demais apresentam uma queda brusca nas vendas demonstrando que o Brasil, ao menos por enquanto, ainda não absorveu “as chinesas” em sua plenitude, mas absorveu, até o momento, apenas “algumas marcas chinesas”.
Este novo mercado, com novos entrantes, majoritariamente chineses, está mudando mais rápido do acontecia nos últimos anos em relação as marcas tradicionais. Com design próprio, qualidade de produto, tecnologia avançada, arquiteturas híbridas e elétricas aliadas a um preço competitivo, a frota circulante ainda não acompanha tal evolução. A participação chinesa de 14,1% no acumulado até março de 2026 indica crescimento nos emplacamentos, mas não deixa de representar (ainda) uma pequena parcela no parque circulante total.
Neste contexto, se nos emplacamentos o efeito é representativo, e até assusta, como bem sinalizou Bacellar, ainda existe uma necessidade emergente de provação na revenda, reparação, peças e valor residual.
São fundamentalmente estes fatores que ditarão os rumos da indústria chinesa no Brasil e certamente algumas marcas lidarão melhor com o mercado brasileiro do que outras e, por conseguinte, afirmei à Cleide Silva exatamente estas palavras: “É muita marca e, definitivamente, não há espaço para todas”.
MKN
A coluna “Visão estratégica” é de exclusiva responsabilidade do seu autor.






