Recentemente o Wilson “Welco” Caminha de Amorim entrou em contato comigo e acabou contando a sua história com carros, em especial com Fuscas e particularmente sobre um Fuscão 1971 que ele tem até hoje. Este relato acabou gerando o presente causo que eu apresento abaixo.
Contexto Geográfico: o mapa do causo do Fuscão 1971
As localidades mencionadas neste relato situam-se no estado do Rio de Janeiro, no sudeste do Brasil.
A cidade do Rio de Janeiro é a capital do estado e uma das mais conhecidas do país. Já Vassouras e Barra do Piraí estão localizadas no interior, na região conhecida como Vale do Paraíba fluminense, a aproximadamente 100 a 120 km da capital.
Vassouras é uma cidade histórica, tradicionalmente associada ao ciclo do café no século XIX. Barra do Piraí, por sua vez, é um importante entroncamento regional, com forte ligação rodoviária com cidades vizinhas e no passado foi um importante entroncamento ferroviário.
As três localidades são interligadas por estradas que atravessam áreas de relevo ondulado e vegetação típica da Mata Atlântica, formando um eixo de deslocamento cotidiano para quem vive na região — como no caso do relato, em que trajetos regulares entre Vassouras e Barra do Piraí faziam parte da rotina.
Distâncias aproximadas:
- Rio de Janeiro – Vassouras: ~110 km
- Vassouras – Barra do Piraí: ~15 km
- Rio de Janeiro – Barra do Piraí: ~120 km
Esse contexto ajuda a compreender melhor a dinâmica da história — especialmente os deslocamentos diários e o vínculo afetivo construído ao longo desses percursos.
Abaixo um mapa dedicado ao causo do Welco, mostrando só os pontos citados na narrativa, para não poluir o mapa coma as centenas de outras cidades e vilarejos espalhados por sua área:

O Fuscão que sempre esteve lá
Por Wilson “Welco” Caminha de Amorim
Fui presidente do Opala Clube do Rio de Janeiro por mais de vinte anos. Eu sempre gostei muito de Chevrolet. tanto que acompanhei o lançamento do Opala no Salão do Automóvel. Estivemos lá meu pai e eu, na época morávamos no interior de São Paulo. Meu pai comprou um Opala 1968. O amor pelos Opala sedimentou no sangue.
Apesar disso o relacionamento com o Fusca era anterior. Meu pai teve um Fusca 1960 e não teve jeito — isto ficou no sangue também só que antes do Chevrolet. Eu mesmo perdi a conta de quantos Fuscas eu tive, de cada um deles eu me lembro de detalhes. um dos últimos foi um 1978 que eu praticamente ganhei da mãe de um amigo. São umas histórias assim que eu me lembro.
A história do Fusca que ganhei da mãe de um amigo foi assim: o Fusca estava desmontado, o marido dela tinha morrido e o carro acabou ficando largado na garagem da casa em Teresópolis. Aí, um dia, fui lá em com esse meu amigo e ela perguntou se eu queria o carro. Eu falei que não tinha dinheiro para pagar, no que ela disse: “não precisa pagar, só leva ele daqui da garagem porque ele está todo desmontado”. Eu o trouxe para o Rio de Janeiro, montei o carro e fiquei apaixonado por ele.

Só que eu estava construindo uma casa em Vassouras onde agora estou morando a maior parte do tempo. Então eu vendi esse 1978 1300 L e fiquei sem Fusca.
Aí, quando a situação começou a melhorar depois da obra pronta, voltei a procurar um Fuscão 1970, 71 ou 72, ainda com o farol “olho de boi”. Também cogitava encontrar aquela raridade que o pessoal chamava, erroneamente, de “série Verde Cristalino” — não era uma série especial, mas a cor em si é tão rara e tão marcante que ganhou esse apelido. Outra possibilidade seria um Fusca da fase “Itamar”. Só que todos os que eu encontrava estavam muito caros. E, comparando com o verde Cristalino, então, nem pensar — esse, sim, virou praticamente uma agulha no palheiro.
E aí aconteceu uma reviravolta na história. Eu tive a sorte de ter um amigo de muitos e muitos anos, o Silvio.
O pai dele, também de Vassouras, trabalhava numa cidade próxima daqui, Barra do Piraí, e eu estudava nessa cidade. Ambos íamos para a Barra do Piraí diariamente.
Eu ficava no ponto de ônibus, com a bolsa da escola, e quando ele passava por lá e me via seguia-se o diálogo de sempre:
— “Welco, vai para a Barra?”
— “Vou.”
— “Então entra.”
Eu ia nesse Fuscão. Ele tinha comprado esse carro zero.
Aí o Sílvio, que tinha minha idade, fez 18 anos e tirou a carteira de motorista. Então todo fim de semana a gente circulava a bordo desse Fuscão. Andávamos para todo lado, até que ele se formou na Escola Naval e se mudou.
Com isso o carro ficou meio que abandonado em Vassouras durante muitos anos. Mas ele vinha regularmente, porque a mãe e a avó ainda moravam lá. O tempo foi passando, até que a avó morreu, logo depois a mãe também morreu, e o carro foi ficando abandonado, ficou assim uns 10 anos. Um mecânico ia lá ligava o carro, mas o carro permanecia parado.
Até que em 2023 o Silvio teve um infarto fulminante e morreu. Para mim foi um peso, porque éramos praticamente irmãos, a gente vivia juntos.
Uns meses depois a viúva do Silvio, Regina, me ligou pedindo que eu a ajudasse a vender a casa, porque eles inicialmente moravam em Vassouras, mas a família não tinha mais interesse em ficar lá. Ela pediu ajuda para vender o Fuscão também.
Quando eu contei para ela toda essa história, de que eu ia para a escola nesse Fuscão e depois quando eu e o Sílvio curtíamos com o carro, então ela disse: “o Fuscão é seu” (na verdade ela o vendeu para mim por um valor justo, mas eu considero isso ter sido um presentão por tudo que o carro representa para mim). Aí eu ri de alegria, depois de ter chorado muito a morte dele.
E o Fuscão hoje está lá em casa. Eu o reboquei, destravamos os freios, o motor não estava travado, aliás o motor era relativamente novo. O Silvio o tinha refeito e apesar de estar parado há muitos anos, o motor continuava novo.
Na sequência eu dei uma breve restaurada na pintura, pintei os para-lamas, troquei os aros das rodas porque eles estavam todos apodrecidos por conta de um cachorro…
A garagem não cobria completamente o carro, mesmo assim ele não tem ferrugem. O carro hoje está muito bonitinho e está ficando cada vez mais. Agora vou refazer o revestimento do piso, deve entrar semana que vem no capoteiro (oficina de tapeçaria) para fazer o serviço.

E tem que ver o estado dos bancos! Eles estavam cobertos por capas desde que o carro saiu da concessionária. Por falar nisso esse carro foi comprado numa concessionária Volkswagen lá em Barra do Piraí, em 1971.
Eu tirei as capas e as guardei, e fiz uma assepsia nos bancos. Agora o carro está bem novinho, não é um carro imaculado, vê-se que é um carro de uso mesmo.
O funcionamento do carro está perfeito, e aos poucos eu estou fazendo o que precisa ser feito para melhorá-lo. Eu tirei os faróis e as lanternas, dei um trato e os remontei, e essa semana vou alinhar os faróis, Também tirei os para-choques, fui restaurando tudo que foi possível eu mesmo fazer. E eu gosto desse tipo de coisa, não tenho mais o mesmo vigor físico de alguns anos atrás, mas eu gosto de fazer essas coisas.
Então eu tenho lá o meu Opala 1972, o meu Opala Comodoro 1990 e tenho o meu Fuscão 1971, que são as minhas três diversões.

Aquele carro que me levava para a escola aos 16 anos acabou voltando para mim.
E é essa a história do meu Fuscão que eu queria te contar — um carro que, de alguma forma, nunca deixou de fazer parte da minha vida.
Sobre o autor do causo
Wilson “Welco” Caminha de Amorim é bancário aposentado, tem 69 anos, é casado há 26 anos com Maria Alice e pai de quatro filhos. De dois deles ele é padrasto, eles vieram no “pacote” com a Maria Alice. A família já conta com seis netos, e a sétima, Gabriela, está a caminho.

Divide seu tempo entre o Rio de Janeiro e Vassouras, onde mantém seus carros. Está ligado ao antigomobilismo desde 1980, paixão que acabou transmitindo aos filhos — ambos também entusiastas.
Seu primeiro carro antigo foi um Jaguar MK VII, em sociedade com um amigo. Pouco depois, a dupla trocou o Jaguar por quatro Mercedes-Benz: dois 170 de 1951 e dois Finntail (conhecidos como “Heckflosse” na Alemanha e “Rabo de peixe” no Brasil), de 1962 e 1966 — esta última posteriormente substituído por um exemplar 1967. Com o casamento e a chegada dos filhos, afastou-se temporariamente do hobby.
Quando foi possível retornar, vieram Fuscas, Brasília, Puma, Passat e, sobretudo, os Opalas, que o aproximaram do Opala Clube do Rio de Janeiro logo em seu primeiro ano de atividade. Welco viria a presidir o clube por mais de duas décadas, além de atuar como Diretor Técnico da FBVA por duas gestões. Também participou do Conselho do Volkswagen Clube do Rio de Janeiro e foi sócio do Veteran Car Club do Brasil (RJ). Atualmente, integra o Conselho do Opala Clube.
Ao longo dos anos, reuniu uma pequena coleção de veículos nacionais. Mantém há cerca de 25 anos um Opala cupê Especial 1972, do qual é o segundo proprietário, além de um Opala Comodoro 1990 cuja história conhece em detalhes. Mais recentemente, incorporou à garagem o Fuscão 1971 protagonista desta matéria.
O interesse por carros e mecânica vem de família: foi herdado do pai, que o incentivava desde cedo por meio de revistas e publicações especializadas.
Para Welco, o antigomobilismo vai além dos carros. É um meio de conhecer pessoas e construir amizades duradouras — o que ele define, com propriedade, como “Amigomobilismo”.
Fiquei muito contente com esta participação do Welco aqui na coluna, aproveito para agradecer a ele a sua participação por ter contado a história e com os esclarecimentos durante a edição do causo. Além de parabenizá-lo pela ativa colaboração que fez em várias áreas do Antigomobilsmo que ele com sua alegria de viver transformou em Amigomobilismo na prática com muita facilidade.
Em tempo, o termo Amigomobilismo, que usamos aqui nesta publicação, é de autoria do amigo Ervin Moretti.
AG
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