“Manza” é um novo quadro do AUTOentusiastas criado para conversas mais livres, diretas e pessoais sobre a indústria automobilística. Um espaço para discutir produtos, tendências, mercado, estratégia, experiência, pessoas e as mudanças que vêm transformando a relação das pessoas com o automóvel.
A proposta é trazer análises e percepções de forma mais espontânea e próxima, indo além de uma avaliação técnica dos carros. Também quero conversar sobre histórias, marcas, bastidores e ideias que compartilhem do espírito do autoentusiasmo.
Esse é o primeiro vídeo, praticamente um piloto. Então críticas, sugestões e comentários construtivos serão muito bem-vindos. A ideia é aproximar ainda mais a comunidade que o AUTOentusiastas construiu ao longo dos anos.
Depois de mais de três décadas trabalhando na indústria automobilística, confesso que comecei a viver uma certa sensação de repetição. As evoluções ficaram menores, os lançamentos mais previsíveis, os discursos muito parecidos e boa parte do mercado passou a parecer excessivamente racionalizado. Tudo muito correto, mas pouco surpreendente.
Só que algo começou a mudar recentemente. E, curiosamente, essa mudança veio da China.
Não estou falando aqui apenas de eletrificação ou da velocidade industrial chinesa. Estou falando de produtos que começaram a provocar sensações que eu já não tinha havia algum tempo: curiosidade, surpresa e até um certo conflito interno para alguém que passou a vida profissional inteira admirando e trabalhando com marcas tradicionais.
Recentemente tive contato com três carros que me fizeram parar para pensar. Dois chineses. E um terceiro fruto da aproximação entre uma fabricante tradicional e uma empresa chinesa. Três propostas muito diferentes, mas que têm algo em comum.
Conseguem entregar experiências extremamente convincentes em áreas onde muitas fabricantes tradicionais parecem ter entrado numa espécie de zona de conforto.
Ao longo da minha trajetória passei por General Motors, Toyota e Lexus, BMW/MINI, PSA e Jaguar Land Rover, sempre muito ligado a produto, posicionamento, estratégia, marketing e relação com imprensa. Mas paralelamente à indústria sempre existiu o lado emocional do automóvel. Foi daí que nasceu o Autoentusiastas e, mais recentemente, minha coluna Substance.
Talvez por isso esses carros tenham chamado tanto minha atenção. Porque eles não me impressionaram apenas por ficha técnica ou por números. Eles chamaram minha atenção pela forma como foram pensados para o usuário. E, de certa forma, surpreendentemente vindos da China.
O primeiro deles foi o Geely EX5.
O EX5 talvez seja um dos carros familiares mais inteligentes que dirigi recentemente. E o ponto principal não é potência nem aceleração. É espaço e conforto.
A plataforma elétrica dedicada permitiu uma arquitetura muito eficiente. Um entre-eixos longo, piso plano, cabine extremamente espaçosa e uma sensação de amplitude excelente em um utilitário médio. O banco traseiro parece um salão. A área envidraçada é grande, o teto panorâmico ajuda na sensação de espaço e a posição das baterias dentro da estrutura contribui para o assoalho e centro de gravidade baixo ampliando conforto e dinâmica.
Existe também um ponto estratégico importante. A associação da Geely com a Renault no Brasil dá à marca algo que muitas chinesas ainda não possuem: uma leitura mais madura do mercado brasileiro. Isso aparece no posicionamento, na construção da rede e até na forma como o produto está sendo comunicado.
Aguarde a avaliação completa em alguns dias.
O segundo carro que me surpreendeu profundamente foi o GWM Haval H9.
E aqui existe uma contradição interessante.
Eu esperava mais eletrificação. Esperava algum tipo de solução híbrida mais sofisticada. Quando descobri que era um suve a diesel tradicional, minha primeira reação foi até de certo desapontamento. Parecia um caminho excessivamente do passado para uma fabricante chinesa que teoricamente deveria representar ruptura tecnológica.
Só que bastaram poucos quilômetros para essa percepção começar a mudar.
O H9 entrega algo que não se encontra com facilidade: um suve raiz com comportamento de carro de passeio. E isso não é simples.
Quem conhece bem o segmento sabe que veículos como o Toyota SW4 sempre foram extremamente respeitados pela robustez, capacidade off road, durabilidade e rede de atendimento. Mas também sabe que normalmente existe um preço a pagar em conforto, refinamento dinâmico e comportamento urbano.
O H9 conseguiu encontrar um equilíbrio muito interessante.
A suspensão impressiona. O isolamento acústico também. O conjunto eletrônico é muito mais sofisticado do que aquilo que tradicionalmente se encontra nesse segmento e o nível de equipamentos é extremamente competitivo pelo preço cobrado.
Ele continua sendo um veículo de chassi carroceria separados, diesel e tração 4×4 pensado para uso pesado, viagens longas, estradas ruins e o universo agro brasileiro. Mas faz isso com um refinamento que normalmente não existe nesse segmento.
O terceiro carro talvez tenha sido o mais inesperado de todos: o Renault Koleos E-Tech Hybrid.
A Renault passou anos tentando encontrar um posicionamento mais consistente no Brasil. Teve bons momentos, boas iniciativas e carros muito interessantes, como o Sandero RS, que sempre admirei pela honestidade mecânica e pela tentativa de trazer emoção para dentro da marca.
Mas o novo Koleos me pegou desprevenido.
Entrei nele logo depois de devolver um Volvo EX40 e o impacto foi imediato. Ambiente interno, qualidade percebida, acabamento, equipamentos, design e sensação geral de produto. O choque positivo foi genuíno.
O Koleos não tenta parecer futurista o tempo inteiro. Ele simplesmente entrega um conjunto extremamente bem resolvido. A versão Esprit Alpine adiciona personalidade visual sem exageros e o sistema híbrido trabalha de maneira muito agradável no uso cotidiano.
Talvez o mais curioso de tudo isso seja perceber que esses carros começaram a despertar uma discussão dentro do próprio Autoentusiastas sobre algo que estou desenvolvendo internamente: um selo (ou chancela) ligado ao espírito do autoentusiasmo, chamado Rhodar.
Não como prêmio de melhor carro do ano ou algo tradicional nesse sentido. Mas como um reconhecimento para produtos que conseguem se destacar em algum quesito importante para os consumidores, ser mais inteligente ou mais interessante para quem gosta de automóveis de verdade.
O EX5 pelo conforto familiar extremamente bem resolvido.
O H9 pelo conjunto off road raiz, associado a um conforto de rodagem, nível de equipamentos e custo benefício difíceis de ignorar.
E o Koleos pela ousadia do design, pela qualidade do ambiente interno e pela forma como consegue provocar entusiasmo logo nos primeiros quilômetros.
Eu continuo gostando das marcas tradicionais. Elas fazem parte da minha história, da minha formação e até da minha relação emocional com o automóvel.
Mas ficou difícil ignorar o que algumas fabricantes chinesas estão conseguindo entregar. Principalmente quando começam a aparecer carros realmente bem resolvidos, coerentes e surpreendentes em áreas onde muitos fabricantes tradicionais parecem ter parado no tempo.
PM