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Home AG

O VW FUSCA QUE VOLTOU DUAS VEZES A SEU DONO

A INCRÍVEL HISTÓRIA DO PRIMEIRO CARRO DE ALEXANDRE THOMAZ, VENDIDO DUAS VEZES, REENCONTRADO DUAS VEZES E FINALMENTE RESGATADO DO ABANDONO

Alexander Gromow por Alexander Gromow
08/06/2026
em AG, Falando de Fusca & Afins, Outros

Esta é a história de um Volkswagen Fusca 1300 L, verde Tropical, ano 1976, que acabou se tornando muito mais do que um simples automóvel. Trata-se do primeiro carro de Alexandre Thomaz, um veículo que entrou e saiu de sua vida várias vezes ao longo de mais de três décadas.

Tudo começou em 1991, quando Alexandre completou 18 anos. Seu pai lhe presenteou com o Fusca, que naquela época já era um carro usado e relativamente antigo, mas que passou imediatamente a ocupar um lugar especial em sua vida por ter sido seu primeiro automóvel.

Na foto, tirada na Barra da Tijuca no Rio de Janeiro, Alexandre, terceiro da direita para a esquerda, com um grupo de amigos

Pouco tempo depois, em 1993, Alexandre e seu pai abriram a loja que mantêm até hoje. Nos primeiros anos do negócio, quando os recursos ainda eram limitados, o Fusca desempenhou papel importante no dia a dia da empresa. Era utilizado para entregas, deslocamentos e todas as tarefas necessárias para manter o empreendimento funcionando.

Na mesma época havia outro Volkswagen importante na família: uma Variant 1975 adquirida zero-quilômetro pelo pai de Alexandre. Era um carro carregado de significado, pois permanecia na família desde novo, tendo sido inclusive o veículo no qual Alexandre aprendera a dirigir.

A VW Variant da família que virou veículo da empresa

Em 1992, entretanto, a Variant sofreu um grave acidente. A segunda esposa do pai de Alexandre perdeu o controle do carro, que colidiu violentamente contra uma mureta. Apesar da violência do acidente, os ocupantes não sofreram consequências mais graves, mas a Variant ficou seriamente danificada. Como o veículo já era considerado antigo para os padrões da época, acabou sendo abandonado nos fundos de uma oficina em Niterói, onde permaneceu esquecida durante anos.

Em 1995 a empresa começava a crescer e surgiam novas necessidades. O Fusca já não atendia adequadamente às demandas de transporte e entregas. Foi então que Alexandre sugeriu ao pai uma solução: vender o Fusca e utilizar o dinheiro para recuperar a Variant, devolvendo-a ao serviço da empresa.

A proposta foi aceita.

Assim, em 1995, o Fusca foi vendido. O dinheiro obtido permitiu que a Variant fosse recuperada e voltasse a circular. Na prática, pode-se dizer que o Fusca acabou salvando a Variant, pois sem sua venda provavelmente ela teria permanecido abandonada.

Após a venda, Alexandre perdeu completamente o contato com o Fusca. Durante dezesseis anos não soube mais nada sobre ele. Até que aconteceu algo totalmente inesperado.

Em 2011, já morando em Itaipu, Niterói, estado do Rio de Janeiro, Alexandre recebeu a visita de um desconhecido que chegou à sua residência dirigindo justamente o antigo Fusca. O carro estava muito diferente daquele que havia sido vendido anos antes. Encontrava-se bastante deteriorado, rebaixado, com problemas de documentação e em estado geral precário.

O visitante carregava apenas uma fotocópia antiga do recibo de compra e venda assinado pelo Alexandre em 1995. Seu objetivo era conseguir ajuda para regularizar a situação documental do veículo, já que a titularidade do veículo ainda não havia sido transferida.

A conversa durou cerca de quarenta minutos.

Alexandre explicou que não poderia simplesmente providenciar uma segunda via dos documentos e formalizar uma nova transferência sem conhecer tudo o que havia acontecido com o veículo durante aqueles dezesseis anos. Afinal, desconhecia completamente o histórico do carro naquele período e não queria assumir qualquer responsabilidade por uma eventual situação irregular.

Foi então que surgiu uma ideia inesperada.

Em vez de resolver a documentação para o visitante, o Alexandre propôs comprar novamente o Fusca.

O negócio foi fechado.

Em 2011 ele recomprou seu primeiro carro por R$ 2.500, valor que considerou elevado para o estado em que o veículo se encontrava.

Depois disso, o Fusca recebeu alguns reparos básicos. Alexandre levantou a suspensão, corrigiu problemas elétricos, realizou pequenos consertos estruturais e regularizou toda a documentação. O carro voltou a possuir documentos corretos e situação legalizada.

Foi então que ocorreu aquilo que hoje ele considera um erro.

Apesar dos apelos de sua esposa, Patrícia, para que mantivesse o carro, o Alexandre decidiu vendê-lo novamente.

Na época já estava profundamente envolvido com o hobby dos carros antigos e encarou a situação como mais uma negociação entre tantas outras.

Mais uma vez o Fusca desapareceu de sua vida. E novamente parecia que aquela história havia terminado. Mas não havia terminado…

No início de 2025, durante uma conversa entre amigos num encontro de antigomobilistas, surgiu o assunto dos carros que marcaram a vida de cada um. O Alexandre comentou que ainda tinha vontade de reencontrar seu primeiro Fusca.

Um amigo decidiu ajudá-lo. Utilizando informações da antiga placa do veículo, iniciou uma pesquisa e conseguiu localizar o carro. Descobriu-se que ele estava na região de Miracema, no interior do Estado do Rio de Janeiro.

As primeiras imagens recebidas causaram espanto.

O Fusca encontrava-se abandonado havia anos, praticamente entregue ao tempo e à vegetação. Apesar do aspecto desolador, os números de identificação confirmavam que se tratava realmente do mesmo carro.

Esta situação é registrada pela foto de abertura que induz à criação de uma nova categoria de descobertas de Volkswagens esquecidos no tempo: Bushfind¹ encontrado no mato.

Diante da descoberta, Alexandre reuniu alguns amigos e organizou uma viagem para verificar pessoalmente a situação do veículo.

O grupo pernoitou em Cantagalo, na casa que o Alexandre tem lá, e, na manhã seguinte, seguiu para Miracema a uns 120 km de distância. Lá encontraram o Fusca em condições bastante precárias. Mesmo assim, decidiram comprá-lo.

Já liberado do mato o Fusca aguardava seu antigo dono

O carro foi adquirido por aproximadamente R$ 2.000 e imediatamente retirado do local e transportado para Cantagalo.

Em Miracema, recém içado para cima da plataforma do caminhão. o Fusca, que tinha sido repintado, estava prestes a enfrentar seu novo destino

A ideia inicial era simplesmente preservar o veículo e deixá-lo guardado até que fosse possível restaurá-lo adequadamente. Entretanto, uma nova ideia surgiu durante a operação de resgate.

Alexandre decidiu que queria trazer o carro de volta para casa em Niterói rodando. Não em um reboque. Não em uma carreta-cegonha. Mas rodando por seus próprios meios.

O problema era que o Fusca estava sem condições de funcionamento. O motor encontrava-se desmontado, com peças espalhadas pelo interior do carro. Havia componentes no porta-luvas, sob os bancos, no compartimento traseiro e em diversos outros locais.

Nesta foto, feita no dia do reencontro, pode-se ver o motor do Fusca semidesmontado sobre o banco do passageiro. Detalhe para o interior depredado do Fusca

Todas as peças foram cuidadosamente recolhidas e transportadas para avaliação.

O Fusca quando chegou à casa do Alexandre em Cantagalo, ainda sem condições de andar por seus próprios meios

A partir daí começou uma verdadeira força-tarefa. Com a ajuda de Daniel, de seu primo Francisco, conhecido como Kiko, e de outros colaboradores, iniciou-se uma recuperação emergencial. Foram adquiridos componentes de freios, suspensão, direção e diversos outros itens necessários para devolver ao carro condições mínimas de funcionamento.

Durante vários dias o grupo trabalhou intensamente em Cantagalo, na casa do Alexandre:

Sem tempo para posar para uma foto, à esquerda o Kiko dando um trato no teto do Fusca e agachado à direita o Daniel trabalhando na mecânica. Detalhe para a marreta ao lado da caixa de ferramentas

Enquanto Daniel cuidava da mecânica pesada, Kiko se encarregava da parte estética. Como o carro apresentava inúmeros defeitos visuais, foi realizada uma recuperação emergencial da aparência utilizando lixamento e pintura rápida usando tinta em latas spray, suficiente para permitir a viagem sem chamar atenção excessiva pelo caminho, principalmente da polícia rodoviária.

Durante a desmontagem do tanque de gasolina surgiu uma confirmação importante. Sob componentes instalados décadas antes ainda permaneciam vestígios preservados da pintura original verde Tropical, exatamente a cor que o Alexandre recordava de sua juventude.

O fundo do tanque de gasolina revela a cor original do carro que havia sido repintado

O trabalho avançou madrugada adentro. Na quinta-feira à noite o Fusca já voltava a se mover por seus próprios meios.

Depois de dias de trabalho intenso, chegou o momento mais aguardado. Pela primeira vez em cerca de 30 anos, Alexandre voltaria a conduzir o Fusca que ganhou de seu pai aos 18 anos. O breve vídeo (01:10) abaixo registra exatamente esse momento:

 

Na manhã seguinte foram feitos apenas pequenos ajustes finais. Chegara o momento da verdade. O carro foi colocado na estrada. E para satisfação geral, comportou-se de maneira exemplar.

A caminho de Niterói com todo o cuidado (foto resgatada de vídeo)

O motor funcionou perfeitamente, os freios responderam adequadamente e o conjunto mecânico mostrou-se confiável durante toda a viagem. O retorno foi realizado em velocidade moderada, entre 70 e 80 km/h, sem incidentes significativos.

Depois de mais de três décadas de idas e vindas, o primeiro carro de Alexandre finalmente retornava para a sua casa em Itaipu, zona litorânea de Niterói, depois de ter rodado aproximadamente 187 quilômetros.

Existe inclusive uma fotografia registrando o momento em que o Fusca voltou a ocupar espaço na garagem:

Já na garagem da coleção de automóveis do Alexandre (à esquerda) o Fusca descansa depois da viagem vindo de Cantagalo, o mecânico Daniel (à direita) desempenhou um papel muito importante nesta empreitada pois colocou o carro em ordem de marcha em tempo recorde

Mas a permanência ali durou pouco. Menos de duas semanas depois, o carro já seguia para a oficina de restauração em São Gonçalo, estado do Rio de Janeiro, onde iniciaria uma nova fase de sua história.

Assim termina, por enquanto, a primeira parte da trajetória de um Fusca que foi vendido, reencontrado, vendido novamente, perdido por anos, resgatado do abandono e trazido de volta à vida por um grupo de amigos determinados.

Uma história que demonstra como alguns automóveis deixam de ser simples máquinas para se transformar em parte da própria história de uma família.

O reencontro foi apenas o começo desta história. Na próxima semana acompanharemos a restauração deste Fusca e os desafios de devolvê-lo à condição que merece.


Nota de rodapé:

(¹) Bushfind — Há pouco criamos a categoria “Trashfind”. Agora que tal definir a categoria “Bushfind” – encontrado no mato. Aliás esta categoria se aplicaria à outra matéria que publiquei, aquela da incrível restauração a partir dos restos de um Fusca encontrados em uma ilha na Suécia: “Desenganado na floresta”.

AG

Esta matéria foi escrita graças ao apoio do Wilson “Welco” Caminha de Amorim que fez a ponte com o Alexandre Thomaz. Eu recebi 12 mensagens de voz através do WhatsApp que foram digitalizadas depois coligidas para gerar o texto da matéria. Também recebi arquivos com fotos e vídeos que tiveram que ser baixados e arquivados ordenadamente. Algumas fotos tiveram que ser processadas digitalmente na busca de um pouco mais de qualidade. Foi um trabalho grande até que consegui chegar ao resultado ora publicado. Contei com a ajuda do Alexandre no esclarecimento de dúvidas e o Welco ficou na retaguarda. O Welco tem uma matéria publicada aqui na coluna: “NOVO CAUSO: O FUSCÃO QUE SEMPRE ESTEVE LÁ“, esta matéria fez muito sucesso entre os amigos do Welco e um deles foi o Alexandre que, assim, se motivou a passar a sua história para que fosse publicada.
Nossos leitores são convidados a dar seu parecer, fazer perguntas, sugerir material e, eventualmente, apontar correções, as quais poderão ser consideradas e incorporadas em futuras revisões deste trabalho.
Em alguns casos, são utilizados materiais pesquisados na Internet e amplamente disponibilizados em meios públicos, empregados exclusivamente com finalidades históricas, culturais e didáticas, em consonância com o espírito de preservação histórica que norteia este trabalho.
Caso qualquer pessoa física ou jurídica se identifique como titular de direitos autorais de determinado material aqui utilizado — independentemente de ter sido ou não mencionada nos créditos — e deseje a inclusão de créditos específicos ou a retirada do referido conteúdo, solicitamos que entre em contato pelo e-mail [email protected], para que sejam tomadas, de boa-fé, as providências cabíveis.
Ressaltamos que não há qualquer intenção de infringir direitos autorais, tampouco de auferir ganhos comerciais com o material apresentado, sendo sua utilização restrita ao registro histórico e à divulgação cultural junto a entusiastas e interessados no tema.
A coluna “Falando de Fusca & Afins” é de exclusiva responsabilidade do seu autor.

 

 

Tags: Alexander GromowAlexandre ThomazFalando de Fusca & AfinsWilson “Welco” Caminha de Amorim
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