A Jetour apresentou a nova versão do seu suve médio, o T2 XWD 4×4 Premium por R$ 349.900, com R$ 10 mil de desconto para as primeiras 599 unidades. O destaque do fabricante foi dado aos 597 cv de potência total instalada e 91,7 m·kgf de torque instalado. Esses números representam a soma da capacidade máxima individual de cada motor e não a potência e o torque efetivamente disponíveis de forma simultânea.

Como ocorre em praticamente todos os veículos híbridos, a potência combinada depende da estratégia de gerenciamento dos motores, informação que a Jetour prefere não divulgar, pois ainda não existe uma metodologia padronizada entre os fabricantes para determinar e divulgar a potência combinada de sistemas híbridos. Entretanto, limitar a análise a esses valores seria ignorar justamente aquilo que representa a maior evolução deste projeto.
O T2 XWD não é simplesmente um T2 4×2 com mais um motor elétrico.

Na realidade, trata-se de uma revisão mecânica na traseira do veículo, onde um terceiro motor elétrico exigiu um redesenvolvimento praticamente completo da suspensão e do sistema de gerenciamento de tração. É justamente aí que reside o verdadeiro mérito do projeto.
Foi esse aspecto que procuramos observar durante o primeiro contato com a novidade, realizado num percurso predominantemente fora do asfalto, na Fazenda Coronel Jacinto, em Bragança Paulista, SP.
A eletrificação deixa de ser apenas eficiência
Nos últimos anos os sistemas híbridos plug-in evoluíram principalmente para reduzir consumo e emissões. No T2 XWD, porém, a eletrificação assume um papel muito mais interessante.
O conjunto mecânico mantém o motor 1,5 litro a gasolina turbocarregado da versão 4×2, mas passa a trabalhar com três motores elétricos, formando um sistema híbrido com quatro motores. O motor a combustão desenvolve 135 cv de potência máxima e 20,4 m·kgf de torque máximo, enquanto os dois motores elétricos instalados no conjunto dianteiro — os mesmos utilizados na versão 4×2 — entregam 102 cv e 17,3 m·kgf, e 122 cv e 22,4 m·kgf, respectivamente. Essa arquitetura dianteira permanece inalterada, concentrando as principais mudanças no eixo traseiro.

No eixo traseiro foi instalado um terceiro motor elétrico de 238 cv de potência máxima e 31,6 m·kgf de torque, acoplado a um redutor de engrenagens que transmite o movimento às rodas traseiras por meio de um diferencial.
Mais importante que os números absolutos é a forma como essa energia chega ao solo.

XWD: inteligência antes da força
Ao contrário de muitos sistemas de tração integral convencionais, o XWD não permanece simplesmente distribuindo torque e potência entre os dois eixos.
Durante nosso primeiro contato ficou evidente que o gerenciamento privilegia o eixo traseiro em condições normais de condução. Sempre que o motorista exige aceleração mais intensa, o conjunto dianteiro entra progressivamente em ação para maximizar a capacidade de tração. Nas desacelerações, o gerenciamento passa a priorizar a regeneração de energia, utilizando os motores elétricos para recuperar parte da energia cinética (energia de movimento) que normalmente seria dissipada pelos freios.
Esse funcionamento ocorre de maneira praticamente imperceptível para quem dirige, porém pode ser acompanhado pelo grafismo do quadro de instrumentos ou da central multimídia. O motorista apenas percebe um veículo extremamente estável, previsível e eficiente, enquanto a eletrônica administra continuamente qual motor deve atuar em cada situação.
É um conceito bastante diferente daquele empregado em utilitários tradicionais com tração mecânica permanente.

A grande surpresa está sob o carro
Talvez o detalhe mais interessante desta primeira avaliação sequer apareça na ficha técnica. Ao observar o veículo por baixo ficou claro que a Jetour não simplesmente encontrou espaço para instalar um terceiro motor elétrico, como parecia existir na versão 4×2 recentemente avaliada.
A suspensão traseira foi completamente redesenhada.

Os novos braços de controle apresentam geometria mais complexa do que na versão 4×2 e utilizam componentes de alumínio de grandes dimensões, em vez de aço estampado. A solução evidencia um intenso trabalho de engenharia para acomodar o novo conjunto motriz, controlar o aumento de peso e preservar a cinemática da suspensão.

Esse tipo de alteração dificilmente é percebido pelo consumidor, mas representa um investimento muito superior ao de uma simples adaptação da estrutura existente.
É exatamente esse tipo de solução que diferencia um projeto desenvolvido desde sua concepção para suportar a eletrificação de outro que apenas recebe componentes adicionais.

O equilíbrio permanece
Seria natural imaginar que toda essa nova arquitetura alterasse significativamente o comportamento dinâmico do veículo. Mas não foi o que encontramos.
Mesmo com bateria maior (43,2 kW·h), terceiro motor elétrico, reforços estruturais e tração integral, o T2 XWD mantém praticamente o comportamento equilibrado observado anteriormente na versão 4×2, apesar do acréscimo de aproximadamente 250 kg no peso em ordem de marcha.

A suspensão continua absorvendo bem as irregularidades do terreno e preserva um bom equilíbrio entre os eixos, transmitindo sensação de robustez sem abrir mão do conforto.
Durante o percurso off-road o veículo demonstrou excelente controle da carroceria e respostas progressivas, sem transmitir ao motorista a impressão de estar dirigindo um utilitário excessivamente pesado.

Esse talvez seja um dos maiores elogios que se pode fazer ao projeto.
A engenharia conseguiu incorporar novos componentes sem comprometer a personalidade dinâmica já conhecida do T2.

Muito além dos oito modos de condução
O novo T2 XWD chega equipado com oito programas de condução, incluindo modos específicos para neve, lama, areia e pedra, além do modo X, que realiza automaticamente o gerenciamento dos diversos sistemas eletrônicos de acordo com o terreno. O conjunto ainda incorpora bloqueio eletrônico do diferencial traseiro, função Tank Turn, que reduz o diâmetro de giro freando a roda traseira interna; modo Crawl (modo rastejamento), um assistente eletrônico para condução em terrenos difíceis; e capacidade para atravessar trechos alagados de até 700 mm.

Mais do que uma longa lista de recursos, essas tecnologias demonstram que a proposta da Jetour foi ampliar efetivamente a capacidade fora do asfalto. E amplia também o alcance elétrico para cerca de 100 km, com alcance total de até 1,300 km.
O T2 continua sendo um híbrido plug-in voltado ao uso cotidiano, mas agora passa a enfrentar situações de baixa aderência com um nível de competência que simplesmente não existia na versão de tração dianteira.

Durante o percurso realizado na Fazenda Coronel Jacinto, o sistema XWD mostrou atuação rápida e praticamente imperceptível, permitindo que o motorista se concentre na escolha da trajetória enquanto a eletrônica administra continuamente a distribuição de torque entre os eixos.
Interior com revestimento escuro nas colunas e teto é o diferencial para o 4×2
Primeiras impressões
Este primeiro contato deixa uma impressão bastante clara.
O maior avanço do T2 XWD 4×4 não está na potência adicional proporcionada pelo novo motor traseiro.
Está na maturidade da engenharia empregada para integrar quatro motores, uma nova suspensão traseira e um sofisticado sistema eletrônico de gerenciamento da tração sem alterar as características de conforto e equilíbrio que já eram pontos fortes do modelo 4×2.

Se a avaliação completa confirmar as boas impressões iniciais, a Jetour terá feito muito mais do que lançar uma versão mais potente do T2.

Terá demonstrado que a eletrificação pode ser utilizada não apenas para reduzir consumo e emissões, mas também para ampliar significativamente a capacidade dinâmica e fora de estrada de um veículo. É justamente essa mudança de conceito que torna o T2 XWD 4×4 um projeto muito mais interessante do que seus números de potência podem sugerir.
GB
