Cansamos de ver no mercado recriações de carros clássicos e históricos, modernizados para os padrões de aparência e tecnologia dos dias atuais. Há modelos inspiradas em carros dos passado, como os Mustangs e Camaros dos anos 2000 em diante. Há também alguns chamados restomods (na tradução, algo como restauração modificada), que são carros antigos recriados com tecnologias modernas, aparecem em eventos e capas de revistas (infelizmente, a maioria eletrônica hoje em dia).
Pessoalmente, não gosto dos restomods. Juntar linhas e propostas do passado com tecnologias modernas, apenas pela aparência do antigo modernizado, a meu ver não faz muito sentido. Nestes casos, quase sempre é usado um chassi/carroceria original do passado, que é modificado para ser ‘modernizado’.

E o GMSV S1 LM? Não é a mesma coisa? Não é um restomod de um McLaren F1? Não. A começar que, a Gordon Murray Special Vehicles, uma nova divisão da Gordon Murray Automotive, é a responsável pelo projeto, ou seja, foi feita pelo próprio criador do carro original.
O S1 LM, que tem o nome de Special One, por ser o primeiro modelo especial da GMSV, não nasceu de um F1 GTR antigo modificado, o que seria um sacrilégio, uma vez que cada um dos 28 carros originais, sendo pouquíssimos legalizados para rodar em vias públicas, custa dezenas de milhões de dólares.

Usar o moderno GMA T.50 como base para o projeto do S1 LM já o separa dos restomods por definição, e não poderia ter sido um escolha melhor. O T.50 possui as mesmas premissas do F1 original: leveza, simplicidade, praticidade, foco no motorista e prazer ao dirigir. A posição central do motorista é a mesma nos dois carros. O V-12 de aspiração natural também, o original sendo um BMW 6-litros e o moderno um Cosworth de 4,3-litros, ambos próximos dos 700 cv. Os dosi carros contam com câmbio manual de seis marchas.
O sofisticado sistema de sucção de ar do T.50 com a turbina montada na traseira do carro foi totalmente removida, dando espaço para uma obra-prima visual do sistema de escapamente que é quase igual ao do F1 GTR, com seus quatro silenciadores e as quatro saídas no centro do carro.
Toda a estrutura da carroceria foi alterada, com novos painéis de compósito fr fibra de carbono que remetem muito às formas originais do F1 GTR vencedor da 24 Horas de Le Mans de 1995.. As quatro lanternas traseiras circulares montadas sob a grade vazada são quase iguais às originais no aspecto. A asa traseira tem uma forma muito similar, além da dianteira toda, com uma diferença marcante dos finos faróis de LED modernos.

Assim como todos os aspectos do F1 original e do T.50, a dinâmica veicular está no centro das preocupações. As proporções dos três carros, do F1, passando pelo T.50 e agora no S1 LM, mostram tal preocupação. O reduzido balanço traseiro (distância do centro da roda traseira até o fim do carro) é importante para controlar o momento de inércia do carro, que o torna mais ágil. Para isso, os três carros usam um transeixo transversal (transmissão com as árvores na transversal para que a carcaça do câmbio fosse a menor possível) desenvolvido especialmente para os respectivos carros.
Já contamos aqui no AE a história e a importância do F1 GTR dos anos 90. Recapitulando, quando Gordon Murray, então renomado projetista da Fórmula 1 com carros de sucesso como os Brabhams e McLarens, partiu para o projeto de um carro de passeio, a premissa é que este deveria ser o melhor carro urbano do mundo, com foco no motorista e na experiência de direção.
Obviamente, um carro esporte com um projeto focado em leveza e dinâmica veicular de primeira grandeza era mais que meio caminho andado para um ótimo carro de corrida. Mas, de forma alguma Murray queria que o F1 se tornasse um carro de corrida, pois acabaria com toda a premissa de equilíbrio perfeito para o uso urbano e as proporções do carro original. Os conceitos técnicos de um carro de corrida e de um carro de passeio são bem diferentes.
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Um carro de pista requer um determinado nível de rigidez estrutural, de rigidez de suspensão e o que chamamos de compliance de chassi, que determina a flexibilidade dos subconjuntos de chassi (suspensão e direção) sob carga. Se um carro de rua tiver os mesmos níveis para estes parâmetros, ficaria muito ruim em termos de conforto e resposta de comandos, que é bem o que ocorre quando ouvimos falar dos “carros de corrida para andar nas ruas”.
O chassi base do T.50 foi ajustado para o novo projeto, mas a célula de fibra de carbono e alumínio mantem-se praticamente igual. Murray trabalha há anos em tecnologias de processos de manufatura com fibra de carbono, para baratear o custo e a aumentar a produtividade.
Pelas notas divulgadas pela GMA, o novo S1 LM é um modelo criado com foco nas pistas, como um carro para track days, que compromete o conforto em prol do desempenho. Não é ainda um carro de corrida verdadeiro, mas é um meio termo entre isto e um carro de passeio.
O fato dele ter sido criado sobre a plataforma do T.50 indicam que deve ser um carro bem veloz, pois é um T.50 sem vários recursos, como o exaustor de ar que gera pressão aerodinâmica e diversos recursos de conforto. Assim, é bem mais leve. Talvez tão, ou até mais leve que o T.50 Lauda, que já é um carro para track days.
A alma do F1 GTR está presente no novo S1 LM, não apenas pela aparência, mas na sua essência. Ambos nasceram de um maravilhoso carro de rua, criado para ser o ápice da experiência ao volante para os entusiastas. Ambos trazem o DNA das pistas, mas no sentido da concepção (tecnologia, leveza, simplicidade e controle) e não nos quesitos práticos de rigidez de suspensão e potência de motor, que geralmente é o erro de muitos “carros de corrida para andar nas ruas”.
Então, é um restomod? Não. É uma nova criação inspirada num carro especial, com uma plataforma moderna e que por si só já é um espetáculo, e como o criador original do F1 é mesmo do novo projeto, os detalhes com certeza serão todos acertados para que fique nada menos do que perfeito. Driving Perfection é o lema de Murray.
Outros projetos especiais devem sair da GMSV, o S1 LM foi o primeiro e também já anunciaram o segundo, o Le Mans GTR, já citado aqui no AE pelo Paulo Manzano. Números de desempenho não foram divulgados, mas geralmente os carros de Murray não são medidos nos números, como ele mesmo geralmente coloca.
Apenas cinco unidades do S1 LM serão feitas, e todas para o mesmo comprador.
MB






