No mundo da moda, há hstórias que começam com tecidos raros, ateliês glamorosos ou viagens a Paris. Porém, a história de Giorgio Armani — falecido nesta sexta-feira aos 91 anos — começa com algo muito mais simples: um VW Fusca Cabriolé branco. Um carro popular, símbolo de mobilidade acessível, mas que para o estilista italiano se tornaria um trampolim para o futuro.
Quando Armani decidiu vender o veículo em 1975, poucos poderiam imaginar que aquele gesto de desprendimento seria o primeiro passo rumo à construção de um dos maiores impérios da moda mundial.
O VW Fusca sempre carregou um simbolismo poderoso. Criado como “carro do povo” na Alemanha, tornou-se um dos automóveis mais vendidos e amados do planeta. No Brasil, foi batizado oficialmente de “VW Fusca” e se tornou parte inseparável da paisagem urbana. Na Europa, era o carro dos jovens, das famílias em ascensão e dos que buscavam confiabilidade a baixo custo.
Armani, já com mais de 40 anos, tinha no VW Fusca Cabriolé branco não apenas um meio de transporte, mas também um objeto de afeto. O cabriolé fabricado pela Karmann em Osnabrück tinha um ar descontraído, elegante, perfeito para a atmosfera da Itália dos anos 1960 e 70. Era um carro simples, mas cheio de estilo — uma descrição que poderia muito bem ser aplicada às criações que o estilista lançaria anos mais tarde.
Assim como o VW Fusca, Armani acreditava que o design deveria ser atemporal, acessível em sua essência e capaz de atravessar gerações. Não é de surpreender que esse carro estivesse presente num momento tão crucial de sua vida.
O ano era 1975. Armani trabalhava como estilista freelancer em Milão, desenhando para outras casas de moda. Ao lado do arquiteto Sergio Galeotti, seu futuro sócio, ele acalentava o sonho de lançar uma marca própria. O problema era o mesmo que aflige tantos empreendedores: o capital inicial.
Foi Galeotti quem sugeriu uma solução ousada: vender o bem mais precioso de Armani, o VW Fusca Cabriolé branco. O estilista hesitou, mas sabia que para dar o próximo passo precisaria abrir mão de algo. Vendeu o carro por uma soma modesta — algumas fontes falam em cerca de 690 mil liras italianas na equivalência da época.
Com esse dinheiro, pagou o aluguel de um pequeno escritório e comprou tecidos para desenvolver a sua primeira coleção feminina. Foi um gesto arriscado, quase simbólico: trocar a segurança de um carro confiável pelo risco de um empreendimento incerto. Mas o destino sorri aos audaciosos.
Naquele mesmo ano, Armani apresentou sua coleção sob o nome próprio. Suas linhas limpas, tecidos de qualidade e a elegância descomplicada conquistaram rapidamente o público e a crítica. Em pouco tempo, o estilista que vendera o VW Fusca branco para custear o aluguel estava no caminho da consagração.
Com o sucesso, veio também a possibilidade de olhar para trás. Quando sua marca já havia conquistado espaço internacional, Armani não esqueceu o VW Fusca. Procurou e recomprou o mesmo carro que vendera anos antes.

Esse gesto pode parecer trivial, mas carrega um peso simbólico imenso. Ao recuperar o VW Fusca branco, Armani não estava apenas comprando um automóvel. Estava fechando um ciclo, agradecendo àquele companheiro que, de maneira indireta, financiou o nascimento de um império.
Na garagem de um homem que poderia ter qualquer supercarro, o simples VW Fusca cabriolé tem lugar de honra. Ele representa a fidelidade às próprias origens e a lembrança de que a elegância pode surgir do básico.
Mais do que um objeto de nostalgia, o VW Fusca é um lembrete constante de que até as maiores trajetórias começam com pequenos sacrifícios.
É interessante perceber como a trajetória do VW Fusca e a de Armani correm em paralelo. O carro que nasceu com a proposta de ser popular, confiável e duradouro ganhou uma aura de estilo que atravessou décadas. Armani, por sua vez, construiu sua carreira com peças sóbrias, confortáveis e atemporais, que fugiam dos excessos da moda efêmera.
Ambos se tornaram símbolos mundiais. O VW Fusca, com mais de 21 milhões de unidades produzidas com a mesma configuração mecânica, espalhou-se pelos mquatro cantos do planeta. Armani, com sua marca, redefiniu o vestuário masculino e feminino, levando a sofisticação italiana a Hollywood e a passarelas de todo o mundo.
Não é exagero dizer que aquele VW Fusca branco foi, de certa forma, a semente de todo o império. Ele encarna a coragem de abrir mão de algo concreto para investir num sonho intangível.
A história do VW Fusca branco de Giorgio Armani vai além da curiosidade automobilística. Trata-se de uma parábola sobre visão, sacrifício e memória. Vender o carro foi um ato de coragem; recomprá-lo, um ato de gratidão.
Hoje, ao olhar para o VW Fusca estacionado ao lado de carros luxuosos, é impossível não enxergar nele um paralelo com a filosofia de Armani: simplicidade, funcionalidade e beleza atemporal.
No fim das contas, o VW Fusca Cabriolé branco não foi apenas um meio de transporte. Foi o motor que colocou em marcha o sonho de Giorgio Armani — e, com ele, a história de uma das maiores marcas de moda do século XX.
AG
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