É incrível que, passados 137 anos, precisemos de nova Lei Áurea — não a que foi assinada pela regente Princesa Isabel (foto de abertura) em 13 de maio de 1888, extinguindo a escravidão no Brasil — mas para acabar com outra escravidão: a das formulações absurdas dos combustíveis, notadamente o derivado do petróleo chamado gasolina. Esse assunto é recorrente no AE, de modo que é desnecessário repeti-lo em minúcias.
O álcool etílico, também chamado de etanol, é um excelente aditivo à gasolina para elevar sua octanagem e dispensar aditivos nocivos à saúde, como o chumbo tetraetila e o éter metil terciário butílico (MTBE), que eram utilizados para essa finalidade.
Tão excelente que hoje a gasolina mais usada na Europa é a Super E10, notação que expressa o teor de álcool na gasolina (“E” de etanol e o número, sua porcentagem). A gasolina E10 europeia apresenta octanagem 95 RON e atende perfeitamente à vasta maioria dos motores a gasolina.
Só que nosso país enveredou por um caminho estranho e absurdo, em que, de aditivo, o álcool passou a componente em 1997, resultando na gasolina E22 (havia passado a E12 em 1982).
A partir de 1997, parece que a turma que manda nos combustíveis daqui gostou da brincadeira e não parou mais, escravizando o consumidor brasileiro, sem saída desse escalabro. A gasolina brasileira não poderia mais ter esse nome, pois constitui falsidade ideológica.
Isso por um simples detalhe: combustíveis têm o que se chama poder calorífico, expresso em megajoules por quilograma (MJ/kg). O poder calorífico da gasolina comum é 42,7 MJ/kg e o do álcool (ou etanol), 26,8 MJ/kg. Ou seja, 37,2% menor. É por isso que o consumo com álcool é maior: mais volume para compensar o menor poder calorífico do álcool (Fonte: Automotive Handbook Bosch).
Quando a gasolina passa a conter álcool, seu poder calorífico diminui. Com 10% de álcool, a gasolina tem o seu poder calorífico reduzido para 41,1 MJ/kg, redução de 3,7%. Com a atual E30 — por enquanto — cai para 37,9 MJ/kg, redução de 11,2%. Com a E35, o poder calorífico da gasolina diminui para 37,1 MJ/kg, 13% menos.
Note que o poder calorífico é expresso em MJ por massa e não por volume. Como a densidade da gasolina é 0,72 e a do álcool é 0,79, os poderes caloríficos em MJ/L são, respectivamente, 29,8 e 21,3, ou seja, 1 litro de gasolina contém o dobro (1,9899) da energia de 1 litro de álcool. O tombo para o consumidor é bem maior do que se imagina, já que se compra gasolina a litro e não por quilograma.
Solução tem
É só o Brasil “engatar ré” e a gasolina — toda gasolina — passar a E18, que é o limite inferior para correção da relação ar-gasolina ideal (relação estequiométrica), possibilitando carros fabricados a partir de agosto de 1981 funcionarem de maneira quase ideal, os de 1997 em diante idealmente e, claro, todos os flex. E podemos receber visitantes de países vizinhos ou próximos em seus carros a gasolina sem constranger seus motores — e eles próprios.
BS
A coluna “O editor-chefe fala” é de exclusiva resposabilidde do seu autor.




