Estávamos no final dos anos 90, mais precisamente em fevereiro de 1999. A marca francesa Peugeot queria mostrar ao mundo a nova tecnologia que havia desenvolvido em parceria com a alemã Bosch para seus motores Diesel. O novo sistema de alimentação aposentava o método puramente mecânico de injeção e o substituía por um sistema de altíssima pressão, comandado eletronicamente, chamado de Common Rail.
Saliente-se que a tecnologia foi criação da Magneti-Marelli, empresa do Grupo Fiat, que acabou vendendo os direitos de patente para a Bosch.

O resultado era claro: motores mais silenciosos, mais potentes, com melhor desempenho e consumo muito mais baixo, encerrando de vez a era dos antigos e pouco eficientes sistemas de injeção de óleo diesel. O novo motor de quatro cilindros, dois litros, aspiração atmosférica, entregava 110 cv a 4.000 rpm e um torque máximo de quase 26 m·kgf Para o final dos anos 90, números surpreendentes.
Batizado pela Peugeot de HDI, sigla para High Direct Injection, o novo sistema passou a ser adotado em seus motores Diesel. Sua eficiência era tão superior à dos sistemas anteriores que rapidamente tirou o velho conjunto de linha. Naquela época, a Peugeot mantinha linhas de montagem no Cairo, no Egito, produzindo, entre outros modelos, os sedãs 406 e o utilitário Partner. Ambos podiam ser equipados com o novo motor HDI.

Novo motor foi apresentado no Egito
Para apresentar a tecnologia e os modelos montados no país, a Peugeot organizou um grande evento internacional no Egito, na terra das pirâmides e dos faraós. O evento foi proporcional à grandiosidade do cenário.
Do Brasil, um grupo de cerca de 12 jornalistas especializados embarcou num voo comercial rumo a Paris. Na Cidade Luz, passamos um dia e fomos convidados para jantar num restaurante histórico, frequentado no seu tempo por Santos Dumont e outras importantes figuras francesas. No dia seguinte, retornamos ao aeroporto Charles de Gaulle, de onde partiu um voo fretado para Hurghada, no Egito.

406 e Partner
Logo na chegada, sentimos o clima de tensão. Soldados egípcios, vestidos à paisana, mas fortemente armados, faziam a segurança. Seguimos em ônibus fretados para o Hotel Hurghada Marriott, ponto de partida dos testes com o Peugeot 406 e o Partner, ambos equipados com o novo motor HDI.

Vale lembrar que em 1999 o Egito ainda vivia reflexos do período turbulento após a Guerra dos Seis Dias, travada em 1967 entre Israel e uma coalizão formada por Egito, Jordânia e Síria, com apoio do Iraque. O deserto do Sinai, palco de boa parte dos confrontos, era o pano de fundo das estradas por onde rodávamos. Um cenário impressionante e completamente diferente das paisagens às quais estávamos acostumados no Brasil.
Primeiro, de 406
Na primeira etapa, conduzimos os Peugeot 406 por estradas asfaltadas, de pista simples e mão dupla, com retas intermináveis cortando o deserto do Sinai. Em alguns pontos, devido à tensão ainda existente, havia barreiras militares que inspecionavam os veículos e exigiam documentos dos jornalistas. Tudo fazia parte do roteiro. Curiosamente, grande parte dessas estradas havia sido projetada e construída por empreiteiras brasileiras, como a Mendes Júnior.

Foram cerca de 280 km ao volante do 406 equipado com o novo motor HDI. Apesar de movido a diesel, o motor era silencioso, econômico e extremamente suave, mesmo em longos trechos de velocidade constante. Por precaução, levávamos grande quantidade de água engarrafada no interior do carro. Em caso de pane, estaríamos no meio do deserto, e o resgate poderia demorar.

Mas a aventura não parava por aí. O roteiro previa uma visita ao Mosteiro de Santa Catarina, uma das mais antigas edificações cristãs do mundo, com cerca de 1.500 anos. Cercado por altos muros, o local é associado à passagem bíblica em que Moisés, ainda pastor, teria visto aos pés do Monte Sinai a Sarça Ardente, o arbusto que queimava sem se consumir e por meio do qual Deus teria falado com ele.

Dentro do mosteiro, além da igreja, existe uma biblioteca considerada uma das mais antigas do mundo, com acervo manuscrito que registra parte importante da história religiosa e da humanidade. A Sarça, segundo a tradição, permanece até hoje no local, cuidada pelos monges que mantêm o mosteiro.

Depois, de Partner 4×4
A partir dali, o test drive mudava completamente de perfil. Deixávamos os luxuosos e confortáveis 406 para assumir o comando dos utilitários Partner. Também abandonávamos o asfalto e passávamos a rodar pelas areias do deserto do Sinai. O trajeto, de pouco mais de 40 km, nos levava a um acampamento beduíno montado no meio do deserto, com tendas relativamente confortáveis, onde passaríamos a noite.

Era algo totalmente fora do padrão das apresentações de novos carros e motores que já havíamos vivenciado. Confesso que o percurso foi tenso. O risco de atolar na areia, sob sol forte, era real. Antes de partir, recebemos instruções sobre como conduzir no deserto e como usar as pás levadas nos carros em caso de atolamento.

Seguíamos em fila indiana, liderados por um veículo conduzido por um especialista na região. A orientação era simples: seguir exatamente o trajeto indicado. Mesmo assim, houve um incidente. Jornalistas europeus que saíram da fila acabaram subindo uma duna alta demais e capotaram o Partner. Felizmente, ninguém se feriu. O carro ficou de rodas para cima e os ocupantes foram transferidos para outros veículos, permitindo que o grupo seguisse viagem.

Noite no acampamento
À noite, chegamos ao acampamento beduíno. Jantamos comidas típicas ao som de músicas árabes. Uma experiência única, intensificada pelo silêncio quase absoluto do deserto na hora de dormir. Os banheiros eram improvisados, afastados das tendas, e lanternas eram indispensáveis para qualquer deslocamento noturno.

No dia seguinte, deixamos o deserto e seguimos, agora por asfalto, até Sharm el Sheikh, cidade turística às margens do Mar Vermelho. O local é mundialmente conhecido como um dos melhores destinos do planeta para o mergulho. Ali, ficamos hospedados no luxuoso Four Seasons Resort.
O hotel tinha decoração tipicamente árabe, de uma beleza pouco comum aos padrões ocidentais. No quarto em que fiquei, o perfume das flores do jardim instalado na sacada invadia o ambiente, criando uma atmosfera única. A arquitetura era simplesmente impressionante.

Após dois dias de descanso, retornamos ao aeroporto para num voo fretado awguirmoa para Paris que, curiosamente, fez um sobrevoo panorâmico pelas Pirâmides antes de seguir para a Cidade-Luz. De lá, embarcamos em um voo comercial de volta ao Brasil, encerrando uma experiência que durou pouco mais de uma semana.
Motores a diesel: hoje obsoletos
Os então modernos motores Diesel daquela época, hoje já obsoletos, justificaram plenamente o investimento feito pela Peugeot. Mais do que lançar uma tecnologia, a marca proporcionou um evento inesquecível, que permanece vivo na memória de quem teve a honra de participar dessa apresentação.
DM
A coluna “Perfume de carro” é de exclusiva responsabilidade do seu autor.





