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O KDF DE GÖRING QUE NUNCA FOI DE GÖRING

UM VOLKSWAGEN DE 1944, UMA CERTIDÃO DE WOLFSBURG E A DIFERENÇA ENTRE HISTÓRIA E MARKETING

Alexander Gromow por Alexander Gromow
27/04/2026
em AG, Falando de Fusca & Afins

Um Volkswagen bege, fabricado em 1944 sob bombardeio aliado, está hoje numa oficina em Dallas, Texas, Estados Unidos, com mecânicos raspando camadas de tinta para revelar o que pode haver por baixo: suásticas da Luftwaffe. Anunciado por US$ 525 mil como “o KdF¹ mais raro do mundo”. O carro, chassi 5-033 568, arrasta uma pergunta de 80 anos: foi mesmo o carro de Hermann Göring?

Plaqueta de identificação do KdF 1944 com destaque para o número de chassi: 5-033 568. Na época o prefixo “5” indicava chassis destinados a veículos militares pesados ou especiais, como, por exemplo, o Tipo 82E

A resposta passa por Paris, um leiloeiro francês, um colecionador francês, o apresentador do Monster Garage² e dois nomes de peso do AutoMuseum Volkswagen.

O anúncio e a data que virou lenda

O texto que circula ainda hoje nos sites David’s Classic Cars e Top Classic Cars For Sale não economiza superlativos: “Este é um carro com qualidade de museu que representa uma parte da história mundial”.

O anúncio do KdF 1944

Anúncio que está circulando em sites de venda de veículos antigos

Tradução do anúncio:

Esta é uma oportunidade incrível de possuir possivelmente o KdF/VW mais raro do mundo. Trata-se de um carro com qualidade de museu, que representa uma parte da história mundial.

Este carro foi entregue ao Ás da Luftwaffe na Segunda Guerra Mundial e Reichsmarschall Hermann Göring, em 8 de fevereiro de 1944, em seu escritório em Berlim, Alemanha.

Tenho a história completa documentada de toda a sua existência. Incluindo quando e onde foi entregue pela primeira vez, bem como um Certificado de Nascimento da fábrica da Volkswagen em Wolfsburg. Também registros de fábrica com assinatura. Além disso, documentação completa de quando ele deixou a Alemanha e foi importado para os EUA. O carro está atualmente registrado nos Estados Unidos.

Agora sobre o carro.

Como muitos carros KDF não sobreviveram aos implacáveis bombardeios aliados, este sobreviveu!

O carro é 90% original.

O interior é 100% original, com pintura original. O assoalho está livre de ferrugem e é original. Toda a suspensão é original.

O motor tem números correspondentes e nunca foi separado do carro.

A transmissão é original deste carro.

Todas as peças são 100% KdF originais que vieram com este carro.

Basta olhar as fotos para ver. A parte inferior é de uma originalidade impressionante para um KdF original.

Os pontos negativos.

A pintura externa não é original e está apenas razoável.

A vedação da porta do lado do motorista e o batente têm alguma ferrugem. Optei por não consertar, pois queria preservar o interior 100% original.

O botão da buzina KdF está faltando.

Os para-choques, as lanternas traseiras e as calotas são KdF genuínos, mas foram cromados. Precisam ser decapados e pintados na cor bege.

É isso. Falta muito pouco para que esteja 100%.

Na minha opinião, este carro é o KDF mais raro do mundo, e o carro mais raro que sobreviveu ileso à Segunda Guerra Mundial. Olhar para ele é como olhar para uma cápsula do tempo. Ele pertence a um museu.

Ficarei feliz em responder a quaisquer perguntas que você tenha.

Também considerarei propostas sérias.

Posso providenciar envio para qualquer lugar do mundo.

Alega que o KdF Type 82e³ foi “entregue ao Ás da Luftwaffe4 da Primeira Guerra e Reichmarschall5 da Segunda Guerra Hermann Göring, em 8 de fevereiro de 1944. Para seu escritório em Berlim, Alemanha”.

KdF 82e um sobrevivente

O vendedor que está oferecendo este KdF diz ter “histórico completo documentado”, incluindo “Certidão de nascimento da Fábrica de Wolfsburg” e “registros de fábrica com assinatura”.

A documentação oferecida pelo vendedor deste KdF

E detalha o estado: 90% original, interior com pintura original, motor com números batendo, assoalho sem ferrugem. Os problemas: pintura externa não original, ferrugem na soleira da porta do motorista, para-choques e calotas cromados que “precisam ser decapados e pintados de bege”.

“Olhar para ele é como uma cápsula do tempo. Pertence a um Museu”, conclui.

O que será que se esconde atrás desta camada de tinta adicional nas portas de KdF?

A certidão de nascimento com assinatura de Wolfsburg

Uma documentação que acompanha o carro é uma _Fahrzeug-Identitäts-Urkunde der Stiftung AutoMuseum Volkswagen_ — Certidão de Identidade do Veículo da Fundação AutoMuseum Volkswagen — emitida em 29 de janeiro de 2003 a pedido de Bruce Braun, assinada por Dr. Bernd Wiersch6, então curador do AutoMuseum Volkswagen, e Christine Neefe, secretária do museu, ambos hoje aposentados.

Wiersch é reconhecido como a maior autoridade mundial em KdF-Wagen pré-1945. Quando assina uma certidão ligando o chassi 5-033 568 à fábrica de Wolfsburg, o carro ganha pedigree industrial. O AutoMuseum VW só emite esse documento após cruzamento com registros de produção. É o máximo de validação que um KdF pode ter do ponto de vista da comprovação de sua origem.

CERTIDÃO DE IDENTIDADE DO VEÍCULO

Esta é a certidão do “nosso” KdF 1944 emitida pelo AutoMuseum Volkswagen de Wolfsburg

Tradução desta certidão:

CERTIDÃO DE IDENTIDADE DO VEÍCULO
Fundação AutoMuseum Volkswagen
Nº da certidão: 5-33 568

Data de emissão: 29 de janeiro de 2003

Emitida a pedido de: Bruce Braun
DADOS DO VEÍCULO
Marca: Volkswagen

Tipo: Typ 82 E

Designação do modelo: Kommandeurwagen

Número do chassi: 5-033 568

Número do motor: 5-47 304

Potência: 25 cv

Cilindrada: 1.131 cm³

Cor: Bege

Data de fabricação: 31 de janeiro de 1944

Data de saída da fábrica: 8 de fevereiro de 1944

Local de destino: Stabsamt Hermann Göring, Berlin
OBSERVAÇÕES

O veículo mencionado foi fabricado na fábrica da Volkswagen em Wolfsburg e entregue conforme os registros de produção. A autenticidade dos números de chassi e motor foi verificada.

Wolfsburg, 29 de Janeiro de 2003
Dr. Bernd Wiersch
Curador
Stiftung AutoMuseum Volkswagen

Christine Neefe
Secretaria

[Fim da tradução]

3 pontos que importam para matéria:

“Stabsamt Hermann Göring, Berlin” = Gabinete de Hermann Göring, Berlim. É estrutura administrativa, não pessoa física.

“Kommandeurwagen” = Carro de comandante. Classificação de frota para oficiais. Não significa “carro do Göring”.

Datas
batem com o anúncio: fabricado 31/01/1944, saiu 08/02/1944. Só que o destino foi o gabinete, não foi o Reichsmarschall.


Aqui está o ponto central: a certidão não diz que o carro foi entregue a Hermann Göring, mas sim ao seu Stabsamt — o gabinete administrativo do Reichsmarschall em Berlim. Trata-se de uma estrutura burocrática que recebia diversos veículos Typ 82 E classificados como Kommandeurwagen, destinados ao uso de oficiais e do estado-maior. Em outras palavras, o chassi 5-33 568 foi entregue ao aparato de comando de Göring, não a ele pessoalmente. É a diferença entre um carro de frota institucional e “o carro de Göring” — uma nuance que, no mercado de colecionismo, costuma desaparecer.

Com isso estabelecido, o que resta é seguir o carro — e não a narrativa.

A rota: de Paris a Austin, via França

A linha do tempo documentada começa depois da guerra:

1944-1991: O carro esteve com um impressor francês em Paris. Teve as seguintes placas: I604RP1, depois 796DW-75 de 21/3/1955 até a morte do dono em 1991.

Ulrich von Pidoll, no livro VW Käfer, Ein Auto schreibt Geschichte – VW Käfer, um carro que fez história, identifica este como o mesmo carro e afirma que foi “roubado da força de ocupação alemã em Paris em 1944”.

17/10/1991: Leilão público. Arrematado por Jacky Morel por 18.195 francos, cerca de 2.774 euros. Morel era editor-chefe da revista francesa Super VW Magazine. Localizou peças faltantes e fez “restauração leve”.

1991-2002: O carro deixa a França e segue para a Suíça em data e circunstâncias ainda não documentadas publicamente.

2002: Bruce Braun, de Kansas City, importou o carro da Suíça. Para pagar, vendeu uma Porsche Speedster 1956.

29/01/2003: Braun obtém junto ao AutoMuseum VW a certidão de identidade do veículo.

Pós-2002: Jesse James, do reality show Monster Garage, comprou o KdF de Braun. James confirmou a propriedade em fóruns.

Janeiro 2024: Post no afamado fórum TheSamba: “Sim, é aquele que o Jesse James possui; está na oficina de um amigo meu aqui em Dallas–Fort Worth7 (DFW), Texas, EUA. Ele me disse que estava em preparação para ter a pintura original restaurada na parte da frente do carro para um museu”. O mecânico relata que “é possível ver a sombra das suásticas das portas aparecendo sob a camada de tinta superior.’”

Abril 2026: Anunciado em Austin, Texas. Ou James vendeu, ou colocou à venda.

O contraponto de von Pidoll: o “acréscimo Göring”

É aqui que o mito começa a se desfazer. Ulrich von Pidoll, pesquisador Volkswagen, sustenta que, embora seja o mesmo KdF roubado em Paris em 1944, ” Hermann Göring pessoalmente não tem relação direta com o carro, era só um das dezenas de carros entregues ao seu staff e este despachado para um escritório em Paris”.

O carro pode ter sido destinado ao gabinete de Göring, mas não era “o carro do Göring”. A diferença entre um carro de frota e um carro pessoal pode valer US$ 522 mil — a distância entre os cerca de US$ 3 mil pagos em 1991 e os US$ 525 mil pedidos hoje, isto sem considerar o aumento do preço do carro por sua antiguidade no tempo.

O dilema de DFW: revelar ou cobrir?

A oficina no Texas vive o mesmo drama que o Canadian War Museum, de Ottawa, Ontario, Canadá, enfrentou em 1970 com um Mercedes de Göring: o que fazer com suásticas originais?

Se confirmarem as marcações da Luftwaffe nas portas sob a tinta, o carro ganha um valor histórico imediato e incontornável — seria a evidência material de uso oficial nazista. Mas também vira pesadelo para a exposição. Museus americanos têm política variada: o National WWII Museum, de New Orleans, Luisinana, EUA, as exibe com contexto, outros as cobrem.

Por isso a frase do fórum é cirúrgica: “para um museu”. Restaurar ao padrão museológico é diferente de ter um museu comprador. Até hoje, nenhum museu foi anunciado como potencial comprador desta relíquia de guerra.

Conclusão: A cápsula do tempo incômoda

Com 90% de originalidade, motor 5-47 304 com números batendo e assinatura da maior autoridade em KdF vivo, o número do chassi 5-033 568 é legítimo como artefato industrial enviado ao Stabsamt de Hermann Göring. Se as suásticas reaparecerem, vira também documento histórico do uso da máquina nazista.

Apesar do anúncio apregoar que os para-choques são originais, parece que não são, pois falta o endentado característico que percorre o centro do para-choques de ponta a ponta

Mas “o carro de Göring” é outra história. A certidão de nascimento não diz isso. É a diferença entre história e marketing. Entre arquivo e mito. E é exatamente por isso que, 80 anos depois, um Fusca bege em Dallas ainda consegue parar o colecionismo mundial.

Se for para um museu, que seja com os dois lados da história.
Se for a leilão, que o comprador saiba exatamente o que está levando: um KdF extraordinário do Stabsamt — com ou sem Göring no banco de trás.

E há um detalhe que raramente entra na narrativa: em 1944, pela posição que ocupava no regime nacional socialista, Hermann Göring utilizava grandes Mercedes-Benz de representação — o que torna, no mínimo, improvável que um KdF tivesse sido seu carro pessoal.


Galeria de fotos

Seguem fotos deste KdF 1944 com detalhes que mostram como era  a sua construção e se seu estado atual, clique nas fotos para ampliá-las:


Notas de rodapé:

(¹) – KdF era o nome dado pelo Nacional-Socialismo alemão para os primeiros Volkswagen Sedan fabricados até junho de1945 quando começou a ocupação britânica da fábrica da Volkswagen. Depois da II Guerra Mundial o Volkswagen Sedan passou a ser chamado de VW Käfer na Alemanha.
KdF “Kraft durch Freude” – Força através da Alegria – denominação política.

(²) – Monster Garage – reality show do Discovery Channel apresentado por Jesse James de 2002 a 2006. A premissa: transformar carros comuns em máquinas absurdas em 7 dias, com equipe de especialistas e orçamento fixo.

(³) – KdF Tipo 82e – versão derivada do Kübelwagen (Typ 82), com carroceria fechada tipo Sedan, utilizada por oficiais e conhecida como Kommandeurwagen – carro do comandante.

(4) – Luftwaffe – Força Aérea Alemã do período Nacional-Socialista,.

(5) – O termo alemão Reichsmarschall costuma gerar dúvidas entre leitores e estudantes de história militar, porque não existe um equivalente simples e direto em português que capture todo o seu peso político e simbólico. Para traduzi-lo corretamente, é preciso compreender o contexto em que surgiu — e esse contexto é inseparável do regime nazista.

A tradução mais adequada e aceita no Brasil é “Marechal do Reich”. Essa forma preserva o sentido original do título e evita confusões com outras épocas da história alemã. Embora Reich possa significar “império” em alguns contextos, no período nazista o termo se refere ao Estado Alemão sob Hitler, o chamado Terceiro Reich. Por isso, traduções como “Marechal Imperial” seriam enganosas, pois remetem ao Império Alemão do século XIX, que nada tem a ver com o regime nazista.

O ponto essencial é que Reichsmarschall não era um posto militar tradicional. Ele foi criado por Adolf Hitler em 1940 exclusivamente para Hermann Göring, com o objetivo de colocá-lo acima de todos os outros marechais da Wehrmacht e reforçar sua posição como o “número dois” do regime. Assim, o título tinha um caráter profundamente político e propagandístico, mais do que técnico ou militar.

Por isso, ao traduzir o termo, é importante manter essa especificidade. “Marechal do Reich” cumpre esse papel: transmite a ideia de um posto excepcional, ligado diretamente ao Estado nazista, e não a uma hierarquia militar convencional. Em textos acadêmicos, é comum manter o termo original na primeira menção — Reichsmarschall (título criado para Göring) — e depois utilizar apenas a tradução.

(6) – O Dr. Bernd Wiersch defendeu tese de doutorado sobre a história da Volkswagen e é autor de vários livros antológicos, dos quais eu tenho dois, ambos autografados. Eu o conheço pessoalmente e eu o convidei para assinar a “Declaração de Bad Camberg” dando assim o aval da Volkswagen para o lançamento do Dia Mundial do Fusca.

(7) – Dallas–Fort Worth é uma região metropolitana no norte do Texas, conhecida oficialmente como Dallas–Fort Worth–Arlington Metropolitan Area. Ela é chamada informalmente de Metroplex.

AG

Nossos leitores são convidados a dar seu parecer, fazer perguntas, sugerir material e, eventualmente, apontar correções, as quais poderão ser consideradas e incorporadas em futuras revisões deste trabalho.
Em alguns casos, são utilizados materiais pesquisados na Internet e amplamente disponibilizados em meios públicos, empregados exclusivamente com finalidades históricas, culturais e didáticas, em consonância com o espírito de preservação histórica que norteia este trabalho.
Caso qualquer pessoa física ou jurídica se identifique como titular de direitos autorais de determinado material aqui utilizado — independentemente de ter sido ou não mencionada nos créditos — e deseje a inclusão de créditos específicos ou a retirada do referido conteúdo, solicitamos que entre em contato pelo e-mail alexander.gromow@autoentusiastas.com.br, para que sejam tomadas, de boa-fé, as providências cabíveis.
Ressaltamos que não há qualquer intenção de infringir direitos autorais, tampouco de auferir ganhos comerciais com o material apresentado, sendo sua utilização restrita ao registro histórico e à divulgação cultural junto a entusiastas e interessados no tema.
A coluna “Falando de Fusca & Afins” é de exclusiva responsabilidade do seu autor.

 

Tags: Alexander GromowBruce BraunChristine NeefeDr. Bernd WierschFalando de Fusca & AfinsHermann GöringJacky MorelJesse JamesUlrich von Pidoll
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