Participei recentemente do “Papo de Garagem”, do Ricardo Bacellar, no quadro “Conexões sobre Rodas” em um episódio que acabou se transformando em uma conversa bastante representativa do momento atual da indústria automobilística.
Foi um papo direto, com profundidade, sobre temas que estão no centro das discussões e, principalmente, das frustrações de quem gosta de carro ou precisa dele no dia a dia.
PAPO DE GARAGEM
O “Papo de Garagem” é um daqueles raros espaços que ainda tratam o carro com profundidade e respeito ao tema. Não se limita à superfície nem ao ciclo rápido de novidades. Há uma preocupação genuína do Bacellar em explicar, contextualizar e discutir o setor de forma acessível, sem perder profundidade.
O “Papo de Garagem” cumpre um papel que hoje é cada vez mais raro. Informa, forma opinião e respeita o tempo de quem está assistindo. Para quem gosta de carro ou quer entender melhor o mercado, é um conteúdo que vale acompanhar.
O Ricardo escolheu os temas que abordamos e o ponto de partida foi o preço dos carros. Aqui existe um desalinhamento importante entre percepção e realidade. Existe uma tendência quase automática de responsabilizar o fabricante, como se houvesse uma decisão unilateral de posicionar preços em patamares elevados. Não é assim. O preço final é resultado de uma equação complexa, em que a carga tributária tem um peso determinante, pressionando toda a cadeia e comprimindo margens. O efeito disso é claro quando olhamos para o tamanho real do mercado.
Hoje, menos de 1% da população brasileira compra um carro zero-quilômetro.
Grande parte das vendas são frotistas e eu excluí da conta. É um número que, por si só, explica muita coisa.
Ao longo da conversa, trouxe uma provocação simples. Se houvesse uma redução relevante de impostos, o impacto no preço poderia ser significativo e, mais importante, destravar volume. Existe um conceito básico na indústria, que é o da elasticidade. Reduções de preço tendem a gerar aumentos proporcionais maiores em volume. Isso significa mais vendas, mais produção, mais empregos e, potencialmente, até recomposição de arrecadação. Ainda assim, não é um cenário que eu veja acontecer no curto prazo. Seguimos com um modelo que limita o acesso e reduz o tamanho do mercado.
Outro tema que ganhou espaço foi o pós-venda. Existe muito discurso e pouca consistência.
O cliente faz um esforço enorme para comprar um carro e, quando precisa de suporte, frequentemente encontra processos frágeis e lentos. O mais curioso é que o próprio consumidor, muitas vezes, relativiza isso. Existe uma tolerância que não deveria existir, especialmente quando o custo de aquisição é tão alto. A chegada das marcas chinesas traz um novo componente para essa equação. Elas já entenderam a importância de ter peças e estrutura, mas isso não resolve tudo.
Ter peça disponível não garante atendimento eficiente. E, no fim, o pós-venda deveria ser o principal critério de permanência de uma marca no mercado. Tecnologia atrai, mas é o pós-venda que sustenta a marca.
Entramos também na discussão sobre eletrificação. Eu continuo vendo o carro elétrico como uma solução tecnicamente superior, pela simplicidade e pela eficiência. Mas a realidade de uso no Brasil ainda impõe limitações. Infraestrutura, perfil de moradia e até o padrão das cidades influenciam diretamente essa decisão.
Nesse contexto, os híbridos ganham força. São uma solução intermediária, funcional, que resolve parte das limitações sem exigir mudanças estruturais imediatas. Se eu fosse tomar uma decisão hoje, provavelmente seguiria por esse caminho, mesmo tendo preferência conceitual pelo elétrico.
Falamos ainda sobre o avanço do software como elemento central do carro. Essa transformação já aconteceu. O carro passou a ser definido por software, e isso abre uma nova frente de diferenciação. Mas existe um ponto importante aqui. Não basta ter tecnologia. É preciso integrá-la de forma que o cliente consiga usar. O que tenho visto, principalmente em alguns produtos mais recentes, é um excesso de funções pouco intuitivas. Tecnologia que, em vez de facilitar, cria atrito. O diferenciador real estará em quem conseguir entregar sofisticação com simplicidade de uso.
“O futuro passa por integrar tecnologia sem complicar a vida.”
No final, entramos num tema que toca diretamente a estrutura do mercado brasileiro. O carro de entrada perdeu espaço. Não por falta de demanda, mas porque ficou cada vez mais difícil viabilizá-lo dentro das exigências técnicas e regulatórias atuais. No passado, era possível simplificar produtos de forma mais direta. Hoje, com plataformas globais e sistemas integrados, isso se tornou muito mais complexo. O resultado é um deslocamento natural para o mercado de usados, que cresce justamente por oferecer mais valor percebido dentro do mesmo orçamento.
Foi uma conversa longa mas sem atalhos e simplificações. Foi um prazer participar desse papo de alto nível. Agradeço muito o convite do Bacellar.
PM





