Numa semana de lançamentos distintos, mas convergentes de alguma forma, não poderia deixar de comentar o efeito do design no mundo automobilístico.
Dois lançamentos e duas filosofias opostas que pudemos acompanhar numa mesma semana aqui no Brasil.
A Lotus, lançada em terra brasilis por intermédio da LTS Brasil, pertence hoje a chinesa Geely, mas possui sua imagem totalmente vinculada a uma origem inglesa carregando o DNA de seu fundador, Colin Chapman, e chega ao Brasil com os esportivos Emira (ICE) e Emeya (BEV), além do suve Eletre (BEV).
Da Fórmula 1, de onde Chapman fez história, a marca também se apoia no status, exclusividade e tradição. E por aqui ainda soma o apelo emocional das passagens de sucesso de Emerson Fittipaldi (1970 a 1973) e Ayrton Senna (1985 a 1987), além das passagens menos brilhantes de Nelson Piquet (1988 e 1989) e Roberto Moreno (1982).
Mas retornando aos carros de rua, os veículos Lotus possuem um design diferenciado e próprio, com uma aerodinâmica refinada e leveza estrutural que fazem referência a uma engenharia de alto desempenho com foco nos motoristas, aliás, lema da marca (For the Drivers).
FERRARI
E o Ferrari Luce… quem sabe o Ferrari mais controverso da história moderna da marca do Cavallino Rampante.
A Ferrari dispensa apresentações. Marca que combina exclusividade e esportividade, atua em competições de alta velocidade e que exigem máximo desempenho com veículos desenvolvidos na experiência das pistas e que são sinônimos de uma engenharia quase perfeita. Sua equipe de Fórmula 1 contou igualmente com pilotos brasileiros em seus carros: Rubens Barrichello (2000 a 2005) e Felipe Massa (2006 a 2013).
Com o Luce não é diferente. A engenharia aplicada no veículo é quase uma perfeição.
Os motores elétricos são provenientes do F80 com capacidades técnicas e operacionais únicas, dignas da marca, capazes de operar em altíssimas rotações sem perder eficiência. Difíceis de fabricar, eficientes e caros. Não é uma solução pronta e de volume; trata-se de uma solução pensada para atender o alto desempenho e no Luce são quatro motores com a potência total do sistema ultrapassando os 1.000 cv.
O inversor é de carboneto de silício, possui 93% de eficiência em carga máxima e pesa apenas nove quilogramas. Não é um conversor comercial disponibilizado por uma empresa de mercado como Bosch, Denso, Continental, BorgWarner e outras, mas fabricado pela própria Ferrari com elementos nobres, atuais e de alto custo.
O carro pesa menos de 2.300 kg e as baterias de 122 kW·h com 800 volts nominais são totalmente integradas ao assoalho com 85% dos módulos concentrados entre os eixos. A posição de dirigir mais adiantada é inspirada nos Ferrari berlinetta que possuem motor central-traseiro e a suspensão é da mesma empresa que desenvolveu a suspensão do Ferrari Purosangue.
Então se por um lado a engenharia beira a perfeição, com muitos elementos desenvolvidos pela própria marca, garantindo a vantagem competitiva da fabricação dos componentes críticos e arcando com os custos deste desenvolvimento, por outro o design deixa a desejar por não se parecer nada com nenhum Ferrari em qualquer tempo ou sequer com a continuidade de qualquer modelo.
O interior é fantástico, luxuoso e foge do tradicional com elegância e estilo. Já o exterior…
Luca di Montezemolo, ex-presidente da Ferrari e ainda hoje um nome influente no grupo, disse que a marca corre o risco de “destruir um mito” e sugeriu que o Cavallino Rampante seja removido do carro. Resultado: terça-feira, dia 26 de maio, logo depois da apresentação, as ações da Ferrari em Milão caíram 8,37%.
Há tempos já vejo a Ferrari perdendo a sua identidade visual com veículos cada vez mais parecidos com veículos de outras marcas, mas desta vez parece ter perdido a mão de vez. Espero que a definição pelo nome do produto tenha tido base no antigo latim, bem como todas as expectativas que se esperam do Luce. Lúcifer, em latim, significa “portador da luz”… Que assim seja!
Projetado pela LoveFrom o que se vê sobre as quatro rodas não faz jus ao que foi realizado abaixo da pintura. É feio? Não é, mas não é um Ferrari! Este é o ponto! Ele mais se parece um carro de luxo chinês. E isso é uma crítica? Não é, mas não é um Ferrari.
A maior transferência de tecnologia desenvolvida nas pistas pela Ferrari desde o antológico F40, não aparece no Ferrari Luce. Este é o ponto!
Este veículo não será lembrado pelas inovações tecnológicas que traz, mas pelo design que o trouxe ao mundo.
Certo? Errado? Só o mercado irá dizer…
E falando de mercado
Tanto Lotus quanto Ferrari competem num mercado pequeno, rentável e crescente no Brasil. Entre 2024 e 2025 o mercado de luxo e esportivo cresceu 6,6%, de 51.191 para 54.564 mil veículos, enquanto o mercado como um todo cresceu apenas 2,3% (de 2,490 para 2,547 milhões de unidades).
Sobre a Ferrari, especificamente, por mais que aparentemente seja um veículo voltado ao mercado chinês, um veículo deste porte não é lançado para apenas um único mercado. A Ferrari e seus controladores não seriam malucos em apostar todas as fichas em apenas um único mercado.
MKN
A coluna “Visão estratégica” é de exclusiva responsabilidade do seu autor.
