O Fusca havia vencido seu primeiro desafio desde que tinha sido encontrado em Miracema, Rio de janeiro. Depois de mais de três décadas abandonado no mato, tinha conseguido voltar para casa rodando pelos próprios meios, apesar das condições precárias em que se encontrava. Mas a verdadeira batalha apenas começava: recuperar um carro que o tempo parecia ter condenado.
Embora o carro tivesse demonstrado um comportamento mecânico bom durante a viagem, sua aparência deixava claro o tamanho do desafio que ainda havia pela frente.
Segundo Alexandre, a mecânica havia se comportado de forma exemplar. Motor, direção e freios funcionaram muito bem durante todo o trajeto de retorno.
O problema estava na carroceria. O Fusca transmitia a sensação de que poderia se desmontar a qualquer momento. Para-choques soltos, parafusos faltando, para-lamas vibrando, estribos batendo e diversas partes da carroceria produzindo ruídos constantes faziam parecer que o carro estava prestes a se desfazer a cada buraco encontrado pelo caminho.
Mesmo assim, o objetivo havia sido cumprido: o primeiro carro de Alexandre estava novamente em casa.
A permanência na garagem, entretanto, durou pouco. Apenas duas semanas depois surgiu uma oportunidade junto ao restaurador Paulinho, profissional conhecido em São Gonçalo, RJ e especializado em veículos Volkswagen antigos. Aproveitando uma vaga inesperadamente disponível na oficina, Alexandre decidiu não adiar o projeto e encaminhou imediatamente o carro para restauração.
Os bastidores da restauração
O vídeo (03:55) a seguir foi registrado por Alexandre em 2025, na oficina do restaurador Paulinho, em São Gonçalo, e documenta os primeiros momentos da recuperação do Fusca.
A primeira parte mostra a remoção completa da pintura, deixando a carroceria na chapa nua. Em seguida, foi aplicada uma demão de tinta de fundo e uma camada da cor definitiva para proteger as áreas metálicas expostas contra a oxidação.
As três partes seguintes mostram um dos momentos mais marcantes de uma restauração de Fusca: a separação da carroceria do chassi.
O ambiente onde a restauração se deu talvez surpreendesse quem imagina uma oficina moderna, com piso de epóxi, elevadores e equipamentos de última geração. Em São Gonçalo, grande parte do trabalho foi realizada num pátio de cascalho e sob uma cobertura simples, com meios igualmente simples. Mas a falta de sofisticação da estrutura foi compensada por algo que não se compra: a experiência de um restaurador que conhece profundamente a construção de um Fusca.
Quando a desmontagem começou, surgiram algumas surpresas. A primeira delas foi positiva. As áreas estruturais normalmente mais problemáticas em Fuscas daquela época, bandejas do assoalho, caixas de ar e pés de colunas, encontravam-se em excelente estado de conservação.

Tudo indicava que esses reparos haviam sido realizados corretamente em algum momento do passado. Essas partes, que frequentemente exigem substituições extensas, permaneceram intactas durante a restauração atual.
O restante da carroceria, porém, apresentava uma realidade muito diferente. Ao redor dos vidros havia corrosão severa.

O compartimento dianteiro estava bastante comprometido.

A dianteira apresentava sinais de antigos acidentes

A região traseira também exigia reparos extensos.

Os para-lamas encontravam-se em condições inadequadas e diversos painéis apresentavam ferrugem, deformações ou adaptações realizadas ao longo dos anos.
Uma das áreas que mais impressionou Alexandre foi o chamado “chiqueirinho”, região localizada atrás do banco traseiro. A estrutura encontrava-se tão deteriorada pela ferrugem que parecia praticamente inexistente. A suspeita é que o carro tenha permanecido anos exposto ao tempo, permitindo a entrada de água pelas janelas e provocando corrosão contínua naquela área específica.
Outro problema importante estava relacionado às modificações feitas em algum momento da vida do carro.
Quando o Fusca reapareceu em 2011 já utilizava para-lamas para lanternas do modelo conhecido popularmente como “Fafᔹ. Essas alterações haviam sido realizadas em algum momento entre 1995, quando Alexandre vendeu o carro, e 2011, quando ele reapareceu inesperadamente à sua porta. Como o objetivo da restauração era devolver ao carro características compatíveis com seu ano de fabricação, seria necessário reverter todas essas modificações.
Com a carroceria completamente raspada e revelando todos os problemas ocultos sob camadas de tinta e massa plástica, surgiu uma solução inesperada.
Quando um Fusca salvou o outro
Foi então que Alexandre se lembrou de um Fusca branco que permanecia abandonado havia muitos anos em frente ao bar Elo Perdido, tradicional ponto de encontro do Opala Clube Rio de Janeiro, do qual ele é sócio.

Nota do redator: Chamamos a atenção para o logotipo VW localizado entre as entradas de ar da tampa do motor deste Fusca branco. Esse detalhe não fazia parte da configuração original de fábrica, mas foi uma moda que se espalhou pelo Brasil durante muitos anos, sendo instalado por inúmeros proprietários de Fusca.
Curiosamente, quando a Volkswagen do Brasil relançou o Fusca em 1993, esse emblema exatamente nessa posição foi incorporado ao modelo e passou a ser fornecido de fábrica. Fim da nota.
O carro era um Fusca 1300 L de 1977, pertencente à família de um senhor frequentador do local. Embora estivesse extremamente deteriorado pela ferrugem, possuía uma característica rara: mantinha praticamente toda sua originalidade.
Ao analisar cuidadosamente aquele carro, Alexandre percebeu algo curioso. Os defeitos de um pareciam complementar as qualidades do outro.
Muitas das partes que estavam destruídas em seu Fusca encontravam-se preservadas no Fusca branco. E várias das regiões comprometidas do branco estavam em melhor estado justamente no Fusca verde. Era quase como se os dois carros se completassem.
Após conversar com o proprietário, Alexandre adquiriu o Fusca branco para utilizá-lo como doador de peças e chapas. A decisão revelou-se extremamente acertada.
Os quatro para-lamas originais do Fusca branco puderam ser aproveitados. O berço dianteiro, muito mais íntegro do que o do carro verde, foi transplantado. O chiqueirinho completo também foi aproveitado, inclusive preservando elementos originais de isolamento acústico ainda presentes. Diversos trechos da região dos vidros, curvas de chapa e partes estruturais foram cuidadosamente recortados do carro doador e enxertados no carro em restauração.

A utilização dessas peças originais trouxe duas vantagens importantes. Primeiro, reduziu significativamente os custos da restauração. Segundo, permitiu manter características de fabricação que seriam extremamente difíceis de reproduzir manualmente utilizando chapas novas fabricadas atualmente.

No final das contas, pouquíssima chapa nova precisou ser comprada. Entre os poucos componentes adquiridos estavam duas pontas de para-lama e uma saia traseira. Capô e tampa do motor acabaram sendo obtidos através de peças que o próprio restaurador possuía guardadas em sua oficina.

O aproveitamento do Fusca branco não se limitou à carroceria. Diversos componentes internos também passaram a integrar o projeto. Instrumentos originais, acabamentos, bancos traseiros, caixas de ventilação, detalhes de acabamento e inúmeras pequenas peças foram reaproveitados.

Como o carro doador permanecera praticamente original durante toda a sua vida, muitas dessas peças encontravam-se em estado surpreendentemente bom.
Ao longo dos meses seguintes, o projeto avançou rapidamente.
Segundo Alexandre, tudo aconteceu num intervalo de tempo relativamente curto. Considerando que o carro foi resgatado durante a Semana Santa de 2025, a evolução alcançada em apenas um ano lhe parece quase um recorde diante da quantidade de trabalho realizada.
Os últimos retoques na oficina de São Gonçalo
Na quarta-feira, dia 4 de junho, Alexandre e Daniel foram até a oficina do Paulinho, em São Gonçalo, para acompanhar os últimos acertos do Fusca, que já se encontrava praticamente concluído. Naquela oportunidade foram gravados alguns pequenos clipes que, posteriormente reunidos, resultaram no vídeo (03:43) abaixo, mostrando em detalhes o estágio da restauração naquele momento:
Os trabalhos de restauração sob responsabilidade de Paulinho haviam sido concluídos com êxito. A carroceria já exibia sua pintura definitiva, reluzente, e restavam apenas pequenos detalhes para que o Fusca pudesse voltar rodando para Niterói. Entre eles estava a substituição das pinças do sistema de freio a disco dianteiro, tarefa que ficaria a cargo de Daniel.
Tudo estava acertado para a conclusão desse último serviço. Entretanto, no domingo seguinte, dia 7, enquanto Daniel trabalhava em um Chevrolet Monza pertencente à coleção de Alexandre, ocorreu um acidente. Sua mão direita foi atingida pela hélice do radiador em movimento, causando um corte profundo e a lesão de um tendão. Ele precisou ser levado às pressas ao hospital, onde foi submetido a uma cirurgia de emergência para a recuperação do tendão e sutura do ferimento.
Mesmo em recuperação, Daniel acompanhou a etapa final do serviço e orientou Alexandre na substituição das pinças de freio, permitindo que o trabalho fosse concluído, isto ocorreu no dia 11 de junho.

Com essa última etapa finalizada, o Fusca estava finalmente pronto para enfrentar novamente a estrada.
E foi exatamente o que aconteceu. Já era noite quando o velho Fusca verde deixou São Gonçalo rumo a Niterói, retornando à garagem da coleção de Alexandre rodando pelos próprios meios, exatamente como ele sempre desejou.
O momento pode ser visto no breve vídeo (00:15) abaixo:
Recém-chegado à família Thomaz celebra a vinda do Fusca verde restaurado, agora definitivamente integrado à coleção da família.

O Fusca finalmente estava de volta ao seu lugar de merecimento, encerrando uma jornada de décadas de desencontros, abandono e recuperação. Mas ainda restava um detalhe desconhecido até mesmo pelo próprio Alexandre, revelado somente após a publicação da primeira parte desta história.
E o destino ainda tinha outros planos
Quando a história parecia finalmente completa, um último detalhe ainda surgiria para mostrar o quanto o destino daquele Fusca foi improvável.
Após a publicação da primeira reportagem na semana passada, Alexandre enviou o link da matéria ao Daniel, seu amigo e um dos personagens importantes envolvidos na recuperação do carro. Durante a conversa, Daniel lembrou-se de um fato que nunca havia sido contado a Alexandre.
Antes de permanecer abandonado no mato, quando o motor apresentou uma falha grave e o proprietário da época não tinha recursos para repará-lo, a intenção era se desfazer definitivamente do carro. O Fusca chegou a ser levado até uma empresa de reciclagem de metais para ser vendido pelo peso.
O fim daquele automóvel parecia decretado.
Por um daqueles acasos que parecem fazer parte de toda a trajetória desse Fusca, o negócio não foi concretizado. Como o veículo não estava registrado em nome da pessoa que tentava vendê-lo, o responsável pela empresa recusou a compra.
Aquele detalhe burocrático, que naquele momento certamente foi visto como um problema, acabou salvando o carro de desaparecer para sempre.
Se a venda tivesse sido concluída, o Fusca teria sido prensado como sucata e jamais voltaria a encontrar Alexandre.
Depois de mais de três décadas de desaparecimento, de um abandono no meio do mato, de uma viagem de retorno rodando pelos próprios meios e de uma detalhada restauração, fica claro que aquele velho Volkswagen tinha mesmo uma história que se recusava a terminar.
Nota de Rodapé
(1) – Lanternas traseiras “Fafá”
No Brasil, as lanternas traseiras maiores usadas em alguns modelos do Volkswagen Fusca a partir do final dos anos 1970 receberam o apelido popular de “Fafá”. A referência faz alusão bem?humorada à cantora brasileira Fafá de Belém, conhecida por sua voz poderosa e também por seus seios volumosos — uma comparação jocosa com o formato arredondado e proeminente dessas lanternas. O apelido tornou?se parte do folclore automobilístico brasileiro e é amplamente reconhecido entre entusiastas do Fusca.

AG
Agradeço ao Alexandre Thomaz por ter participado mais uma vez nesta coluna. Dou parabéns a ele por ter conseguido resgatar este Fusca verde e por tê-lo restaurado desta maneira. E ainda temos a possibilidade futura de contar a história da VW Variant da família dele…
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A coluna “Falando de Fusca & Afins” é de exclusiva responsabilidade do seu autor.
Nota pata artigos coma palavra Kombi
“Embora consagrado no uso brasileiro como ‘a Kombi’, o AUTOentusiastas adota o masculino por coerência técnica com a origem do termo.”

