Não ache estranho o título desta coluna, pois as fábricas de automóveis passaram, a partir de 1980, a serem chamadas de “montadoras”. O jornalista Bob Sharp, ironicamente, chega a sugerir que a Associação Nacional dos fabricantes de veículos Automotores (Anfavea) deveria mudar sua razão social para “Anamovea”…
Montadoras foram a Ford Brasil, de 1919 a 1957, Willys-Overland do Brasil, de 1954 a 1958, General Motors, de 1925 a 1957, e Volkswagen, de 1951 a 1957. E só. Depois dos anos acima todas passaram a ser fabricantes.
É fato que as fábricas recebem milhares de peças de fornecedores, mas produzem também outra quantidade de componentes. Basta entrar numa delas para sentir o chão balançando com a operação das gigantescas prensas (que estampam peças da carroceria) de muitas toneladas. E a produção de motores e caixas de câmbio da maioria delas. E dezenas de outras peças.
Mas, afinal, surgiu uma nova montadora (de verdade) no Brasil, a Planta Automotiva do Ceará (Pace), criada para montar automóveis a partir exclusivamente de um kit de peças. Como se fosse a montagem de um grande “Lego”.
A história desta fábrica começa em 1995, construída pelo empresário Rogerio Farias. Dois anos depois é vendida para Mário Araripe, que passa a fabricar seu jipe Troller. Em 2007 é vendida para a Ford, que não tinha nenhum interesse no jipe, mas nos incentivos fiscais a que tinham direito seus produtos. Mas, por exigência do governo cearense, manteve sua produção, o que efetivamente ocorreu até 2021, quando a empresa do oval azul fechou todas suas fábricas no Brasil e passou a importar em vez de fabricrr.
A instaalção ficou então fechada até que, três anos atrás, um grupo do Espírito Santo (Comexport) adquiriu e modernizou o galpão e implantou nova linha de montagem. Modelo a ser produzido? De qualquer marca interessada em contratar os serviços da Pace. A primeira interessada foi a GM: ela começou a parceria importando para o Ceará todos os componentes de seu suve elétrico Spark. E, logo depois, decidiu contratar a montadora para a produção do Chevrolet Captiva elétrico.
Poucas semanas depois, foi a vez de uma chinesa, a MG Motors, que pertence à poderosa SAIC, anunciar a montagem de dois modelos: o hatch MG4 e o suve S5.
Que peças são fabricadas no Ceará? Por enquanto, rigorosamente nenhuma. Numa visita às suas instalações, brinquei com um de seus engenheiros: “De nacional, só o ar dos pneus?”. “Não — ele me respondeu — até o ar é chinês pois as rodas chegam com eles montados”.
Então, a Pace segue rigorosamente o conceito de uma montadora de automóveis: uma fábrica que nada fabrica, só monta.
É a primeira no Brasil dos nossos tempos, mas já existia uma outra operando nos mesmos moldes no Uruguai, a Nordex. Que monta veículos para a Ford (linha Transit de vans e furgões), Kia (pequeno caminhão Bongo e prevista também a picape Tasman). E modelos da Fiat e Peugeot, pois a Stellantis adquiriu uma parte da empresa.
As duas “montadoras” atraem empresas brasileiras pelos incentivos fiscais que incidem sobre ested produtos. A Nordex por estar num país do Mercosul. A Pace pelos incentivos fiscais da região Nordeste.
BF
A coluna “Opinião de Boris Feldman” é de exclusiva responsabilidade do seu autor.
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