Este artigo é uma continuação;
O primeiro artigo pode ser lido aqui.
O segundo artigo pode ser lido aqui.
A segunda parte destes artigos nos mostrou como a exploração do petróleo se comporta ao longo do tempo, desde a descoberta de uma jazida, seu início de produção, sua maturação e seu envelhecimento, bem como o problema de investir energia para obter mais energia.
Porém, esta é apenas uma das faces do grande problema que envolve o passado, o presente e o futuro da nossa relação com o petróleo. Há uma outra faceta, tão importante quanto esta primeira, sendo que destas duas derivam outras facetas deste problema.
Notamos a natureza desta outra faceta ao observarmos o gráfico do preço do petróleo ao longo dos anos.

Esta imagem, que já vimos na parte anterior, mostra que o petróleo custava estavelmente entre US$ 15 e US$ 20 o barril até 1999, subindo consistentemente para a faixa dos US$ 60 a US$ 80 logo após. No entanto, vemos que em 2008 o preço atingiu um pico histórico da ordem de US$ 150, caindo vertiginosamente para cerca de US$ 30 em 2009, recompondo-se para um preço no patamar entre US$ 100 e US$ 120, sofrendo nova queda em 2015 com um vale em 2016, nova recomposição na faixa dos US$ 60 a US$ 80 até o ano 2000, voltando a crescer até a faixa dos US$ 120 e voltando a se estabilizar novamente na faixa de US$ 60 a US$ 80 entre 2022 e 2023.
O que este gráfico mostra não é apenas o problema da oferta de petróleo, mas também a de demanda por ele.
Em 2009 houve o chamado “estouro da bolha” imobiliária americana, que levou a um efeito cascata que colocou o mundo todo em uma crise financeira. Antes do estouro da bolha, o mercado estava muito aquecido, espelho de uma economia mundial altamente aquecida. Em 2016 tivemos nova desaceleração da economia mundial, fenômeno que se repetiu em 2020 devido à pandemia da Covid-19.
Já o pico em 2022 reflete os embargos sobre o petróleo russo, em razão da guerra entre Rússia e Ucrânia. Com o embargo ao petróleo russo, a oferta de petróleo diminuiu, fazendo os preços subirem. Então, o que realmente faz os preços do petróleo subir e descer é uma relação direta entre oferta e procura. São os descompassos entre eles que fazem os preços subirem e descerem com alta sensibilidade. Se na parte anterior destes artigos vimos o lado da oferta, agora precisamos estudar o lado da procura.
Malthus e o crescimento da população mundial

Thomas Robert Malthus (foto) foi um clérigo anglicano, economista e matemático iluminista britânico (1766-1834). Ele apresentou sua teoria que diz, de forma resumida, “a população humana cresce em progressão exponencial, enquanto a produção de alimentos cresce linearmente”, e que, evidentemente, levaria a uma grande fome no futuro, daí vindo a necessidade de controle populacional, mantendo certa correlação entre oferta e demanda por alimentos.
A teoria de Malthus foi recebida com grande alarmismo em sua época, porque ela guardava componentes facilmente observáveis e conduzia a uma conclusão bastante óbvia.O que Malthus não previu foi que, logo após a apresentação de sua teoria, iniciou-se uma forte tendência à mecanização do trabalho no campo, gerando grandes ganhos de produtividade, anulando a premissa de que a produção de alimentos não conseguiria acompanhar o crescimento populacional.
A teoria de Malthus foi até ridicularizada e esquecida. No entanto, ela não morreu.
A ciência do século XX mostrou que comida não era o único recurso cujo descompasso de oferta diante da procura em crescimento exponencial da população poderia gerar uma grande crise futura. E então esta teoria renasceu.
O crescimento da população humana
Durante praticamente toda a existência da espécie humana, a população mundial cresceu lentamente. Levamos cerca de 300 mil anos para atingir o primeiro bilhão de habitantes. Depois disso, bastaram pouco mais de cem anos para chegar ao segundo bilhão, e apenas algumas décadas para alcançar os seguintes.

É notório que houve uma aceleração no crescimento explosivo da população humana, com certo comportamento exponencial nos primeiros bilhões e seguido de um comportamento mais linear nas últimas décadas, em razão da menor fecundidade da população. O que Malthus não havia previsto é que as pessoas não consomem apenas alimentos. Elas consomem vestuário, habitação, conforto, etc. E tudo isso consome fundamentalmente energia e diversos tipos de recursos naturais.
Porém, esta questão do consumo é muito mais complexa do que parece. Se compararmos os padrões de vida atual e o de 50 anos atrás, veremos que havia menor número de opções de necessidades e conforto, os produtos duravam décadas enquanto os atuais duram 4 ou 5 anos e temos muito mais contas a pagar.
Enfim, podemos perceber que não apenas a população mundial cresceu, mas também seus padrões de consumo mudaram. Eles estão mais numerosos, sofisticados, individualizados e descartáveis do que há 3 ou 4 décadas. Isto evidencia que o crescimento do consumo não apenas ocorreu em função do crescimento populacional, como também da diversidade deste consumo. E, atrelado a tudo isso, um crescimento no consumo de energia e de recursos naturais.
O renascimento das ideias de Malthus: a teoria Neo-Malthusiana
Em tese, não há mal nenhum em crescer indefinidamente, exceto que, num mundo finito, existem diversos limites impostos a diferentes recursos, limites estes que podem causar restrições de oferta destes recursos diante de uma demanda que cresce em modo exponencial.
Imagine que tenhamos um grande descompasso entre a oferta de petróleo e a procura pelo seu consumo. Digamos que o preço dos combustíveis derivados de petróleo fique 5 vezes mais caro. A comida ficaria muito mais cara, tanto para produzir como para transportar para os pontos de venda nas cidades. Sair de casa para ir trabalhar também seria catastrófico, quer fosse usando o carro particular, quer usando o transporte público. Fábricas ficariam incapacitadas de enviar seus produtos para longe. Aviões teriam custos proibitivos para voar. E assim por diante.
Uma variação súbita no preço do petróleo seria catastrófica para a sociedade, e isso pode acontecer se os poços atuais em produção atingirem uma redução significativa de sua produção sem que as novas jazidas sejam exploradas por falta de tecnologia.
E se não fosse apenas o petróleo? E se fosse outro recurso, como o cobre?
Vamos pensar no cobre apenas como condutor de eletricidade.
As instalações elétricas de edifícios e residências dependem de fios de cobre. Automóveis, aviões e navios dependem do cobre. Produtos eletrônicos dependem do cobre. Uma crise de descompasso entre a oferta de cobre e a procura por ele nas mais variadas formas causará impacto direto nas vidas da sociedade.
Esta transformação já está ocorrendo. Há um século cobre e latão, uma liga de cobre com zinco, e bronze, liga de cobre com estanho, eram os materiais baratos que eram vendidos livremente. Hoje se usa plástico no lugar, e estes materiais metálicos hoje são muito caros. Prova disso é que o preço do cobre aumentou tanto que uma situação que não havia há 30 anos de roubo de cabos de cobre nas ruas, agora é foco de quadrilhas especializadas e até um dos motivos das companhias telefônicas terem evoluído sua infraestrutura externa para fibra ótica, que não tem valor para os ladrões.
Veja que o petróleo é o caso principal, pois todos os processos humanos em alguma medida dependem dele, incluindo o cobre, que precisa ser explorado, refinado, transformado e distribuído.
Porém, o modelo neo-malthusiano mostra que diversos recursos podem se compor para criar uma crise maior, num verdadeiro efeito em cascata.
A ciência, em especial a surgida após a 2ª Guerra Mundial, começou a ter uma melhor noção dos limites dos recursos naturais do planeta, recursos estes que são a fonte da riqueza das sociedades modernas. Foi este conhecimento que fez renascer os conceitos malthusianos e colocá-los em termos mais modernos. Um dos conceitos é o de que muitos fenômenos ocorrem de forma não linear.

Muitos processos ocorrem seguindo curvas em formato de “J”, assim como curvas matemáticas exponenciais e hiperbólicas. Neste tipo de curvas, temos 3 zonas, onde uma primeira zona é quase linear, e de crescimento ou decaimento bastante suave, a segunda zona, conhecida como “joelho” da curva, é onde a atitude da curva muda bruscamente de inclinação, levando à terceira zona que volta a ter um comportamento aparentemente mais linear, porém com taxas de crescimento ou decaimento absolutamente abruptas.

Em termos matemáticos puros, nas curvas como exponenciais e hiperbólicas, a zona de “joelho” é puramente um artefato da escala utilizada no gráfico. No entanto, como apontam os especialistas neo-malthusianos, quando se lida com um fenômeno que possui um limite superior ou inferior, a escala passa a ser determinada, e o fenômeno do “joelho” passa a ser um fenômeno físico observável.
Tivemos um bom exemplo de uma curva em “J” no crescimento da população humana. Da origem da espécie até o primeiro bilhão, demoramos cerca de 300.000 anos. Um crescimento muito lento. De repente, após o primeiro bilhão, o tempo para se atingir outro bilhão se mostrou cada vez mais curto. Basicamente, atingimos o “joelho” da curva após o primeiro bilhão.
Outro exemplo bastante notório de uma curva em “J” é o da taxa de juros compostos, mais famoso como “juros sobre juros”, onde o consumidor compra um carro por uma taxa mensal baixa aparentemente de 5% ao mês, e ao final do financiamento pagou por 2 ou 3 carros.
O próprio conceito do Eroei, visto na parte passada, apresenta uma curva em “J” invertida, e vimos como ela pode ser desastrosa.

O problema com recursos que se comportam em curvas em formato de “J” é a nossa extrema dificuldade em lidar com um mundo não linear. Enquanto estamos na primeira parte do “J”, acreditamos que as condições variam devagar e nos acostumamos como isso. Entretanto, quando atingimos o “joelho” da curva, as condições mudam tão abruptamente que não estamos preparados para reagir.
A crise do modelo econômico
Hoje vivemos sob um sistema econômico que sobrevive mediante o contínuo crescimento econômico. Economistas costumam dizer que sistemas econômicos saudáveis precisam de taxas de crescimento da ordem de 2 a 3% por ano. Da forma como é dito, as pessoas compreendem como se fosse algo linear, mas não é. Se a taxa de crescimento anual for mantida fixa, digamos a 2%, a economia cresce exponencialmente, com uma curva em formato de “J”. Porém, não é possível crescer infinitamente, e quando o sistema deixa de crescer, ele entra em estagnação e logo em seguida, em crise.
O processo é claro. Historicamente, o crescimento econômico sempre esteve associado ao aumento do consumo de energia e recursos, ainda que a intensidade desse consumo possa variar. Recursos limitados diminuem progressivamente a oferta diante de uma demanda em contínuo crescimento. O preço deste recurso aumenta na proporção da disparidade entre sua oferta e sua demanda, e este aumento de preço pode contaminar o preço de outros recursos. Os preços de todos estes recursos ficam mais elevados, inviabilizando sua utilização, criando inflação e freando o crescimento até que seja alcançado um novo equilíbrio de custos em função da menor oferta daquele recurso. E estes equilíbrios são dinâmicos.
Este é um modelo em crise. Não que o fato de o modelo tender à crise seja alguma novidade. Eventualmente, todos os sistemas econômicos e sociais desde a mais profunda antiguidade sempre chegaram à fase de estar em crise. É justamente este instante que os transforma nos sistemas econômicos e sociais que o sucedem, mais adaptados às novas condições.
Isto é natural, o ser humano sempre se adapta. O problema real é o preço que a transformação do sistema antigo para o novo cobrará de cada um. A crise atual lida com escalas de ofertas de recursos naturais nunca antes exploradas pela humanidade, porém estes recursos são limitados e tanto o comportamento dos recursos oferecidos como o da procura por eles numa sociedade em crescimento apresentam comportamentos que passam de progressivos a abruptos muito rapidamente. O quão traumático pode ser o processo de transformação do nosso sistema econômico e social dependerá da velocidade com que reagiremos às mudanças abruptas.
Conclusão
O grande problema do custo do petróleo está baseado no sensível e dinâmico equilíbrio entre oferta e demanda por ele. A teoria neo-malthusiana foi reestruturada a partir da teoria original para se adequar aos novos dados e elementos trazidos pela ciência durante este tempo.
É uma teoria que não possui unanimidade. Ela possui muitos críticos, porém ela é baseada em fatos cientificamente comprovados e suas projeções não são mero exercício de adivinhação. Cabe ao leitor julgar o mérito desta teoria à luz dos fatos disponíveis.
Porém, boa ciência se faz contrapondo fatos a fatos, e para discordar dela, antes é preciso levá-la em consideração e demonstrar onde ela está errada antes de descartá-la. Porém, se aceita, ela nos dá ferramentas para a correta gestão de recursos para minimizar o descompasso deste com a procura crescente por sociedades e economias cada vez maiores.
Este capítulo, em muitos sentidos pode ser interpretado como alarmista. Ele verdadeiramente não é.
Ele explora fatos conhecidos para fazer projeções e nos mostrar as consequências se não soubermos administrar nossos recursos. Uma boa gestão de recursos pode equalizar a relação de oferta e procura, evitando muitas das situações que podem ser projetadas com esta ferramenta.
No próximo capítulo, vamos explorar um pouco mais dos aspectos vistos nestes três capítulos em cenários reais e estudar as consequências disto.
AAD
