Sabe aquele chamativa etiqueta (imagem de abertura) que vem colada no para-brisa de automóveis e comerciais leves informando consumo de combustível e classificação? Esqueça-a, as informações de consumo nela contidas não espelham à realidade, o mundo real. A etiqueta é obrigatória desde fevereiro de 2017 pelo Inmetro e pelo Conpet (Programa Nacional de Racionalização do Uso dos Derivados de Petróleo e do Gás Natural), dentro do Programa Brasileiro de Etiquetagem Veicular (PBEV). Uma medida merecedora de todo o aplauso, coisa de primeiro mundo.
O que deveria ser uma informação oficial séria e confiável, não é. A culpa desse absurdo inominável não é do Inmetro, tampouco do Conpet, que cumprem a Lei n.º 8.723, de 28 de outubro de 1993 que determina a gasolina de referência para os testes de consumo e de emissões. Essa gasolina é a E22, gasolina pura (E0) com 22% de álcool etílico anidro combustível, também chamado de etanol anidro — são exatamente o mesmo produto, só muda o nome. Essa gasolina de referência tem também densidade especificada, 0,750 kg/L a 20 ºC. Seria inviável para a indústria automobilística usar uma gasolina que não fosse uniforme em suas características
É com a E22 que os fabricantes desenvolvem o lado gasolina dos motores flex e não têm como fugir disso, é lei.
Aí o carro ganha as ruas e no primeiro reabastecimento de gasolina comum ou comum aditivada o tanque recebe gasolina E32 de densidade 0,715 kg/L. — ou E25 se for gasolina premium. Não pode mesmo dar certo.
Por que foi preciso estabelecer a gasolina de referência? Porque a partir de 1982 o Brasil começou a enveredar pelo caminho da mistura de gasolina e álcool com a E12 e o que se seguiu foi uma escalada inacreditável— E22, E25, E27, E30 e E32, e já se fala E35. Com tamanho apetite governamental por alcoolizar a gasolina chega a parecer que o governo gostou da brincadeira. É por isso que foi preciso estabelecer a gasolina de referência
É de se perguntar que mal teria feito o povo brasileiro automobilista para merecer o que tem ares nítidos de punição em forma de gasolina totalmente atípica, diferente do resto do mundo?
Não há fato mais corriqueiro do que brasileiros em viagem pelos países sul-americanos ficarem admirados de como os carros lá alugados são econômicos. Ou os próprios carros consumirem menos gasolina do que quando rodam aqui, mesmo com mistura ar-combustível inadequada para as gasolinas E10 a E12 desses países sul-americanos, que os faz consumir mais do que deveriam.
Vale lembrar que a prática brasileira de misturar gasolina e álcool não foi técnica, mas política. Começou em 1937 quando as exportações de açúcar caíram devido à queda dos preços internacionais motivada pela sua menor demanda e o governo ditatorial de Getúlio Vargas ordenou que as usinas produzissem menos açúcar e mais álcool para ser adicionado à gasolina, então importada dos EUA, entre 5% e 8%.
Essa prática só mudou em 1982, quando passou a E12 para elevar a octanagem da gasolina comum, 87 RON, para a da gasolina premium da época (gasolina azul) de 95 RON, que deixou de ser produzida para aumentar o volume de armazenamento de álcool nos postos.
O Brasil devia padronizar a gasolina C para 22% de álcool e 95 RON em benefício do consumidor. O excedente de álcool certamente tem um mercado externo que precise dele.
BS
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